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Desde o início da Administração Trump já morreram 46 pessoas sob custódia do ICE

A utilização da repressão estatal continua a dar cartas nos EUA com o Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE), a força paramilitar que representa os objectivos da Administração Trump, envolvidas num conjunto de mortes encobertas em neblina. 

Durante o Fórum Económico Mundial, Donald Trump reiterou o desejo dos Estados Unidos adquirirem o território da Gronelândia, por várias vezes confundida com a Islândia. A ilha, sob controlo dinamarquês, já afirmou não ter interesse numa tutela americana. Davos, Suíça, 21 de Janeiro de 2026
CréditosGian Erenzeller / EPA

A 18 de Março de 2026, o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) informou que 46 pessoas morreram enquanto se encontravam sob a sua custódia ou em centros de detenção desde o início do segundo mandato da administração Trump. 

De acordo com a Kaiser Family Foundation (KFF) este número de mortes de pessoas detidas durante 2025 ultrapassou o valor mais elevado registado em mais de duas décadas, e as mortes em 2026 estão a caminho de igualar ou superar esse número. 

Os dados sustentam esta afirmação e indicam, ainda que, a população detida pelo ICE cresceu mais de 70%: de cerca de 39 000 no final da Administração Biden para mais de 68 000 em Fevereiro de 2026, o que reflecte a intensificação da política anti-imigração nos EUA. 

De acordo com o KFF, o ICE tem um conjunto de obrigações, porém «os centros de detenção têm um historial de cumprimento inadequado das normas de saúde e segurança, cuidados de saúde insuficientes, falta de pessoal de saúde e supervisão limitada, o que pode criar riscos para a saúde dos detidos». 

Além da negligência, o artigo da KFF afirma que o aumento do número de pessoas nas instalações de detenção e a sobrelotação deste também aumentam ainda mais os riscos para a saúde, particularmente no que diz respeito a doenças transmissíveis como o sarampo e a pessoas com condições médicas complexas. Esta avaliação é feita com base nos relatórios das mortes das pessoas detidas pelo ICE, comunicados de imprensa, e relatórios recentes sobre questões de cuidados de saúde nos centros de detenção.

Entre Janeiro de 2025 e Março de 2026, as 46 mortes sob custódia do ICE atingiram principalmente pessoas jovens ou de meia-idade: 38 tinham menos de 65 anos e 21 tinham menos de 45 anos. Seis das vítimas não tinham qualquer antecedente criminal ou acusação pendente. A grande maioria (36 mortes) ocorreu com menos de três meses de detenção, incluindo pessoas que foram transferidas para hospitais. Quanto às origens, 22 mortes foram de migrantes do México e da América Central, e 10 de asiáticos. A principal causa relatada foi o agravamento de condições de saúde preexistentes (32 mortes), seguidas por suicídio (9 mortes) e outras causas como acidentes (5 mortes). É importante notar que, em pelo menos um caso, a classificação do ICE de «suicídio» divergiu da conclusão do legista local, que classificou como «homicídio devido a acções de agentes de segurança».

No que diz respeito aos problemas de saúde e às condições nos centros de detenção, além do cenário de grave sobrelotação, o artigo da KFF documenta ainda um cenário de falhas no atendimento médico e violações de padrões básicos de assistência. O aumento das detenções, aliado à falta de recursos e a atrasos no sistema de pagamento dos contratos de saúde que se encontra inoperante entre Outubro de 2025 e Abril de 2026 potenciou surtos de doenças como o sarampo no Texas e no Arizona. 

A estes elementos acrescentam-se ainda relatos de investigações e organizações não-governamentais que apontam para a falta de acesso a medicamentos prescritos, más condições de higiene, desnutrição, desidratação, privação de sono, maus-tratos a grávidas e até abusos. Crianças e grávidas foram particularmente afetadas nomeadamente numa unidade do Texas onde mais de metade dos detidos eram menores, sem pediatras ou psicólogos infantis suficientes. A mesmas organizações afirmam que ao contrário da política oficial que limita a detenção de grávidas a «circunstâncias muito limitadas», havia pelo menos 121 grávidas detidas em Fevereiro de 2026, com relatos de contenções excessivas, falta de cuidados pré-natais e até tentativas de deportação de gestações de alto risco.
 

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