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Trump pode ter o Brasil na mira

Em ano de eleição presidencial no Brasil, a administração americana pretende classificar as organizações criminosas PCC e CV como terroristas e assim, facilitar uma intervenção no país sul-americano.

CréditosAlan Santos / Palácio do Planalto

Um simples acto administrativo norte-americano pode estar a tirar o sono aos diplomatas brasileiros: a classificação das facções criminosas brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. Longe da banalidade de um novo rótulo, esta decisão, se concretizada, permitirá futuras intervenções dos EUA contra estas facções, ao abrigo da legislação norte-americana.

As duas organizações são, actual e correctamente, classificadas como criminosas por visarem ganhos económicos através do tráfico de drogas e outras actividades ilícitas, e recorrerem à violência para atingir esses fins. A sua razão de ser é o lucro, não o terror, como os EUA muito bem sabem. A decisão de classificá-las como terroristas é uma carta na manga de Trump para legitimar uma eventual ingerência no Brasil.

2026 é ano eleitoral no Brasil e a boa convivência, muitas vezes de fachada, entre Lula e Trump, pode tornar-se mais vantajosa para o lado americano com a eleição de um nome bem mais à direita que Lula da Silva. Este cenário, ainda longe de estar definido, tem um dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, como candidato mais alinhado à administração Trump. No ano passado, durante a mais letal operação policial contra uma comunidade no Rio de Janeiro, Flávio sugeriu a intervenção americana.

Os esforços diplomáticos

A administração Trump chegou a propor que o Brasil recebesse prisioneiros estrangeiros - à semelhança do que já faz El Salvador na prisão de alta segurança Cecot - como condição para não proceder à classificação do PCC e do CV como terroristas, ao que a diplomacia brasileira respondeu propondo medidas alternativas de combate às organizações criminosas e ao narcotráfico.

De acordo com a Folha de São Paulo, as medidas são: o combate à lavagem de dinheiro, com foco em empresas de fachada no estado americano de Delaware; o bloqueio de activos nos EUA de brasileiros com ficha criminal; o aumento da cooperação entre a Receita Federal e o seu homólogo nos EUA; e a melhoria da fiscalização de armas de fogo.

Os riscos

Confirmando-se a classificação terrorista das referidas organizações, os EUA podem aplicar sanções económicas a pessoas e a instituições que considerarem correlacionadas com as facções, mesmo as mais remotas. Relações comerciais entre os dois países e vistos de brasileiros nos EUA estariam em causa. Contudo, os riscos mais alarmantes seriam eventuais operações militares, que sob o falso pretexto de combater o terrirismo abririam a brecha para a ingerência no Brasil.

A pressão sobre o Brasil vem num movimento crescente desde o início da administração Trump, com as tarifas comerciais que começaram por ser iguais para todos e de 10% em Fevereiro de 2025, e subiram para 50% exclusivamente para o Brasil, em Julho. O chamado «tarifaço» foi revogado apenas após uma decisão da Suprema Corte americana.

As movimentações nos países vizinhos também merecem atenção, sendo a mais significativa o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro junto de sua esposa e a ingerência sobre o comércio de petróleo do país bolivariano. Mas a recente decisão do Paraguai de permitir a presença de tropas norte-americanas no país, resguardadas por uma imunidade quase diplomática, deixou em alerta a segurança sul-americana,

Nada de novo, apenas mais «Guerra ao Terror»

Esta é apenas a nova etapa da consolidada «Guerra ao Terror» que já serviu, através do mesmo mecanismo de classificação de terrorismo, validação suficiente para décadas de intervenção policialesca no mundo.

Foi assim com os ataques ao Afeganistão, Paquistão e Iémen, sob pretexto do combate à Al-Qaedaa, com o ataque à Somália por causa do Al-Shabaab, com a destruição da Síria à conta do Estado Islâmico e tantas outras intervenções, para as quais nem sequer foi necessária a formalização como terroristas dos grupos ou Estados alvos.

Nestes casos, bastaram as declarações dos governos americanos e as sentenças da comunicação social, como aconteceu com as falsas «armas de destruição em massa do Iraque», a demasiado desenvolvida Líbia de Gaddafi, o «maior traficante do mundo» de um inexistente cartel de drogas venezuelano e, mais recentemente, a guerra para libertar os iranianos estoirando bombas sobre as suas cabeças.

Intervenções que, independente do carácter dos grupos ou Estados alvos, operaram como verdadeiras punições colectivas às populações destes países, matando civis, destruindo infraestruras e coarctando o desenvolvimento político e económico das regiões atingidas.

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