Na madrugada do dia 28 de Janeiro de 2026, aquando da fase mais intensa da tempestade Kristin, cerca de um milhão de consumidores ficaram sem abastecimento de energia eléctrica devido ao colapso de muitas dezenas de postes e linhas de transporte e distribuição de electricidade. Além da intensa chuva, o vento soprou com rajadas de até um pouco mais de 170 km/h no litoral. Foi referido que, em anemómetros particulares (ligados à exploração eólica), teriam sido registadas velocidades superiores aos 200 km/h, mas o que aqui interessará é a comparabilidade estatística de longo prazo, e essa é aferida pelas medições realizadas pelas entidades oficiais.
A interrupção eléctrica significou impactos directos em cerca de três milhões de pessoas e muitos milhares de empresas de todas as dimensões, além de diversas entidades públicas e privadas, entre as quais os operadores privados de telecomunicações. O impacto económico e social é enorme.
No dia 3 de Fevereiro, uma semana depois, mais de 100 000 consumidores continuavam sem electricidade. Os distritos mais afectados são Leiria, com cerca de metade do total de consumidores afectados, Coimbra, Castelo Branco, Portalegre e Santarém. Numa parte significativa do Pinhal de Leiria, os pinheiros foram arrasados.
Em 23 de Dezembro de 2009, a região Oeste também foi fustigada por uma violenta tempestade com mais de 100 km de linhas de média e baixa tensão afectadas, além de 500 ha de estufas destruídas. Houve órgãos de comunicação social, citando institutos oficiais, a escreverem que os ventos teriam chegado aos 200 km/h. E, em 2013 e 2018, primeiro o Gong e, depois, o ciclone extratropical Leslie, também trouxeram consigo enormes prejuízos, cortes de electricidade a centenas de milhar de consumidores e alguns óbitos.
Portanto, considerando ainda o ciclone de Fevereiro de 1941 (120 mortos, rajadas de 230 km/h), e as enormes chuvas e inundações de 1967 (700 mortos), além de três ou quatro outros eventos de menor monta, não se está, como parece fazer-se crer, perante um evento extremo inédito, nem, sequer, significativamente mais intenso do que outros no passado.
As repercussões, essas, é que vão crescendo dado o visível aumento do (des)ordenamento do território e do aumento da edificação de habitação e de edifícios para actividades económicas, que se estende até aos solos que a legislação e os regulamentos apontam como interditos, porque fundamentais para os interesses colectivos e equilíbrios naturais. Aliás, é de perguntar quantas das «derrocadas» em edifícios e em estruturas de suporte ou cobertura não estarão relacionadas com as «liberalidades» introduzidas pelos diversos Simplex? A valorização da vertente económica não pode ser feita à custa da segurança, do ordenamento do território e do licenciamento zero!
A questão central a colocar é a de saber quando é que as entidades responsáveis, principalmente o governo central do Estado, darão início a um sólido e concreto programa de prevenção e adaptação das diversas infra-estruturas, das edificações de todo o tipo, e, também, das áreas florestais, das áreas inundáveis e das vertentes e escarpas, face aos vários eventos naturais, extremos ou medianos, que regularmente incidem no território português com uma frequência que, seguramente, não irá diminuir.
O esforço da adaptação é vital e prioritário, não só face aos eventos extremos e médios correlacionáveis com as alterações climáticas antrópicas, mas relativamente a todos eventos que se vêm repetindo ciclicamente desde há séculos e com apenas um pouco mais de intensidade em certos casos. Até porque, com a muito acarinhada mitigação/descarbonização, mesmo que fossem cumpridos os mais ambiciosos cenários, não se resolverá nenhum destes problemas nas próximas décadas.
«A valorização da vertente económica não pode ser feita à custa da segurança, do ordenamento do território e do licenciamento zero!»
Os postes de sustentação das linhas aéreas onde transita a electricidade dos diversos escalões, desde a Muito Alta Tensão até à Baixa Tensão que chega à maioria das casas e pequenos estabelecimentos, podem ter tipos e dimensões muito distintas. Em geral, os postes que suportam as linhas de transporte e as de distribuição em alta e média tensão são construídos com recurso a elementos metálicos montados em torres fixadas ao solo através de fundações adequadas (espera-se ...). O conjunto dos postes, tendo em conta os esforços mecânicos que lhes são transmitidos pelos cabos eléctricos (muito pesados), bem como os esforços a que eles próprios são sujeitos pelos ventos intensos, deve ser construído e montado de forma a garantir a estabilidade e distâncias de segurança exigidas pelas normas vigentes, às quais a E-Redes e a REN, apesar de privadas, estão obrigadas.
Cada um dos postes, maior ou menor, considerado isoladamente, só num caso de gravíssimo erro técnico é que se dobraria ou partiria, quando exposto a ventos ou precipitações intensas. Contudo, aos postes são fixados vários cabos, normalmente três ou seis, neste caso três de cada lado, que, proporcionalmente à tensão eléctrica e à quantidade de electricidade que neles circula, deverão ser constituídos por compósitos metálicos e de isolamento adequados às características do fluxo eléctrico. Entre dois postes sucessivos, os vãos podem ter muitas dezenas ou, até, centenas de metros, o que determina nos postes enormes cargas mecânicas de tracção (e/ou torção), que, normalmente, estão equilibradas pela existência de forças em sentido contrário nos dois lados. Só alguns postes, e em casos especiais, são construídos e ligados ao solo, de forma a suportarem todo o esforço de cabos a ele ligados só por um dos lados.
Os problemas surgem quando, por acção dos elementos naturais (vento, gelo, etc.,) numa escala extraordinária, ou, então, de objectos de grandes dimensões (árvores, por exemplo) que embatam nas linhas ou, até, no próprio poste, é provocada uma rotura no equilíbrio: neste caso o poste dobra-se ou, até, poderá fracturar-se, arrastando consigo, numa onda de desequilíbrio, vários postes, pondo as respectivas linhas no chão.
Parece terem acontecido, em vários casos, impactos de grandes árvores arrastadas pelo vento nas linhas, levando-as directa ou indirectamente à rotura. E, aí, o desequilíbrio provocado nos postes conduz ao seu colapso.
Face aos eventos extremos e, sobretudo, à densificação das linhas de transporte e distribuição no território, poderá colocar-se a possibilidade de fazer passar as linhas para o subsolo por questões de segurança das redes. Por outros motivos (impacto nas populações, por exemplo) isso já é realizado, embora parcimoniosamente. Contudo, a hipótese de passar para redes subterrâneas uma grande parte das linhas de muito alta, alta e média tensões, acarretaria sobrecustos que viriam a ser, provavelmente, repercutidos nos já muito penalizados consumidores, principalmente, nas famílias e outros consumidores domésticos e pequenas empresas. Ou, então, seriam imputados aos contribuintes. Assim, a opção por cabos subterrâneos deverá ser bem ponderada, mas, em princípio, deve ser reservada para situações especiais como, por exemplo, áreas muito povoadas ou com especificidades ecológicas particulares.
Perante o aumento de probabilidade de haver incidentes como os que aqui se estão a tratar, será necessário, primeiro, indagar se tudo o que tem sido construído e montado tem obedecido às especificações e margens de segurança regulamentares. Depois, haverá que estudar e, eventualmente, promover o reforço mecânico dos postes, acção que também significaria investimento muito expressivo. A fazer-se, a região Oeste seria uma forte candidata.
Face às situações objectivas no domínio meteorológico, que existem já há muitas décadas, e que podem estar a agravar-se paulatinamente, será necessário estudar soluções para aumentar a resiliência destas infra-estruturas vitais.
Aliás, seria bom que os promotores de uma rápida descarbonização e concomitante electrificação, que implica uma ainda maior densificação de linhas no território para colectar a electricidade de miríades de unidades fotovoltaicas e eólicas, reflictam acerca de uma transição que, além do consecutivo aumentos preços, está a provocar grandes desequilíbrios no ordenamento do território e no plano ambiental.
Finalmente, um aspecto central diz respeito à tipologia das empresas que imperam neste domínio: a E-Redes e a REN, que, embora inseridas num sector estratégico e vital para a segurança e acessibilidade a um factor vital para o desenvolvimento socio-económico, a electricidade, não estão sob o controlo do Estado. Ao contrário do que acontece em muitos países ocidentais, as referidas empresas foram privatizadas, pertencendo preponderantemente a entidades particulares, designadamente estrangeiras, que, obviamente, as gerem com os olhos postos nos seus próprios interesses.
«Um aspecto central diz respeito à tipologia das empresas que imperam neste domínio: a E-Redes e a REN, que, embora inseridas num sector estratégico e vital para a segurança e acessibilidade a um factor vital para o desenvolvimento socio-económico, a electricidade, não estão sob o controlo do Estado.»
Um dos mais notórios aspectos prende-se com o esvaziamento das equipas e piquetes especializados e destinados a actuar rapidamente em emergências como as que têm acontecido. Claro, dir-nos-ão que não podem ter centenas de trabalhadores à espera que aconteça um desastre, porque isso lhes encurta os resultados. Bem, e dos interesses de Portugal e de milhões de portugueses, quem cuida durante os dias ou semanas, em que a electricidade falha?
Não será, salvo melhor opinião, através de sucessivos subfornecedores e subempreiteiros que, em cima da hora, vão arrebanhar centenas de trabalhadores, que os problemas se resolverão adequada e atempadamente. E, também não será com stocks reduzidos à insignificância, que se suprirão as necessidades de substituição das partes avariadas ou destruídas neste tipo de eventos.
De tanto se espremerem os orçamentos públicos para agradar a Bruxelas e, simultaneamente, fruto do impulso privatizador de tudo quanto é crucial para o desenvolvimento e soberania, Portugal está cada vez mais fragilizado e exposto, não apenas aos eventos naturais extremos, mas, também, ao consenso neoliberal e ao oportunismo populista de uma extrema-direita, aliás, alimentada em grande medida pelas falhas socio-económicas do primeiro.
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