Num tempo em que assistimos a uma espécie de erosão da humanidade, acelerada pelos dispositivos digitais e pela propaganda capitalista, torna-se difícil não reparar na frequência com que nos colocamos apenas como observadores/as: em silêncio, à distância, perante aquilo que nos perturba, como se a alienação fosse uma forma legítima de sobrevivência.
No entanto, vamos adoecendo coletivamente e, nesse processo, também aqueles/as que têm como responsabilidade profissional cuidar da saúde emocional — psicólogos/as e psicoterapeutas — são frequentemente impelidos para lugares de indiferença, distanciamento e suposta neutralidade.
É a partir desta inquietação que partilho três questões que atravessam a minha prática clínica e o modo como penso o sofrimento contemporâneo.
1. O mundo bate-nos à porta ou entra sem pedir?
No quotidiano clínico, chegam pedidos de ajuda marcados por ansiedade, crises de identidade e sentimento de vazio. São histórias singulares, mas que chegam marcadas por situações ora de privilégio ora de exclusão. Estas últimas são atravessadas por elementos comuns: precariedade, instabilidade, violência, isolamento e discriminações.
Importa sublinhar que aquilo que chega ao consultório — quando chega — não é apenas expressão individual de sofrimento, mas também inscrição de condições sociais. Procurar apoio psicológico pode ser, muitas vezes, uma oportunidade de reconhecimento e cuidado. No espaço psicoterapêutico, é possível não apenas aliviar sintomas, mas criar o tempo e o lugar para pensar, simbolizar e compreender aquilo que se repete na experiência subjetiva e intrapsíquica.
A psicanálise não pretende aqui ocupar um lugar de exclusividade teórica, mas oferece, na minha perspetiva, uma abordagem particularmente relevante para compreender o sofrimento psíquico, considerando os aspetos inconscientes e relacionais implicados no sofrimento humano, permitindo uma abordagem mais profunda e promotora de desenvolvimento.
Tal como a lua influencia as marés, também as dinâmicas económicas e políticas produzem movimentos na vida social e psíquica: períodos de expansão, mas também de retração, marcados por crises, guerras, desigualdade e desinvestimento no coletivo. Como refere João Rodrigues em O neoliberalismo não é um slogan, o capitalismo neoliberal subordina a vida social à lógica do mercado, transferindo para o indivíduo responsabilidades que são estruturalmente coletivas.
«Tal como a lua influencia as marés, também as dinâmicas económicas e políticas produzem movimentos na vida social e psíquica: períodos de expansão, mas também de retração, marcados por crises, guerras, desigualdade e desinvestimento no coletivo.»
Neste contexto, como lembra Byung-Chul Han, o sujeito contemporâneo tende a ser empurrado para uma lógica de produtividade permanente, tornando-se simultaneamente explorador e explorado de si próprio. O sofrimento psicológico aparece então sob múltiplas formas — ansiedade, burnout, depressão, défices de atenção — muitas vezes lidas como falhas individuais, quando podem ser expressão de uma violência sistémica.
Também a prática clínica é atravessada por este tempo: o tempo de pensar, de escutar e de elaborar tornou-se escasso. Não por incapacidade individual, mas por uma organização social que transforma atenção e tempo em mercadoria. Não surpreende, por isso, que muitos/as sintam que falham quando não conseguem «dar conta» sozinhos/as de tudo.
2. A pessoa é separável do mundo que habita?
A experiência psíquica constrói-se sempre na relação com o outro — intersubjetividade — e através da forma como as diferentes dimensões identitárias, como género, raça, classe, orientação sexual ou estatuto migratório, se cruzam e interagem, produzindo experiências únicas de privilégio ou de discriminação – interseccionalidade.
Quando o reconhecimento falha de forma sistemática, não estamos apenas perante sofrimento individual, mas perante uma rutura nas condições de possibilidade de subjetivação. Como lembra Silvia Federici, o capitalismo inscreve-se diretamente nos corpos e na vida psíquica, tornando visível que aquilo que aparece como falha pessoal pode ser efeito de exploração estrutural.
«O sujeito contemporâneo tende a ser empurrado para uma lógica de produtividade permanente, tornando-se simultaneamente explorador e explorado de si próprio.»
Não existe um «dentro» psíquico separado de um «fora» social. Existe continuidade. E quando estas dimensões são excluídas da clínica, corre-se o risco de transformar o espaço terapêutico num lugar de repetição das mesmas lógicas de invisibilidade e desigualdade que atravessam o mundo social.
Judith Butler lembra-nos que nem todas as vidas são reconhecidas como igualmente vivíveis. Essa desigualdade não é abstrata: manifesta-se na forma como cada sujeito se sente digno de existir, de desejar e de pedir ajuda — e, por vezes, até na possibilidade de chegar ou não ao consultório.
Assim, perguntar quem chega à clínica é também perguntar quem foi historicamente autorizado a precisar dela. E o que chega não é apenas o psíquico isolado, mas a marca viva de histórias sociais, económicas e políticas.
3. Quando nos abala o mundo, o que nos aponta o futuro?
Quando o mundo nos abala, emerge inquietação — frequentemente atravessada pelo medo, profundamente humano. Mas é dessa inquietação, quando sustentada por esperança e organizada num coletivo capaz de lhe dar sentido, que pode emergir transformação.
Em muitos contextos institucionais, abordagens de matriz comportamental tendem a ser privilegiadas em detrimento de perspetivas psicanalíticas, em nome da eficácia, da padronização e da gestão do sofrimento. Sem desvalorizar os seus contributos, importa interrogar o que se perde quando se reduz o sofrimento à adaptação do indivíduo e se exclui o pensamento em profundidade.
«Não há neutralidade possível perante estruturas de opressão. O silêncio também é posição. E, como sublinha Sayak Valencia, o gesto radical não é o extremismo, mas a recusa da superficialidade e a vontade de ir às raízes do problema.»
Como propõe Neil Altman, é fundamental recusar a clivagem entre sujeito e mundo social, reconhecendo que a vida psíquica se constitui sempre em matrizes comunitárias. Nesse sentido, a clínica não pode tornar-se um dispositivo de adaptação silenciosa às condições que produzem sofrimento.
Não há neutralidade possível perante estruturas de opressão. O silêncio também é posição. E, como sublinha Sayak Valencia, o gesto radical não é o extremismo, mas a recusa da superficialidade e a vontade de ir às raízes do problema.
É neste ponto que psicanálise, teorias feministas e pensamento marxista se encontram: na tentativa de deslocar o olhar do imediato para a estrutura. O sofrimento não começa no momento da crise; começa muitas vezes antes, nos silêncios, nas normalizações, nas pequenas formas de indiferença.
Talvez a responsabilidade mais exigente não seja apenas incluir o social na leitura do sofrimento, mas recusar participar na sua erosão silenciosa. E, nesse gesto, abrir espaço para uma prática que não apenas contenha, mas também pense — e que, ao pensar, possa contribuir para transformar.
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