Um debate que reflecte bem o estado em que o Governo se encontra: ante todas as evidências, a negação. O ministro da Educação, Fernando Alexandre, deslocou-se hoje ao Parlamento a propósito de um debate agendado pelo PCP a propósito do início do ano lectivo.
Os comunistas, através do seu secretário-geral, Paulo Raimundo, foram eficazes no diagnóstico feito e elencaram os evidentes problemas que assolam o sector da Educação. Na sua intervenção inicial, Paulo Raimundo começou por criticar a solução do Governo para a falta de professores ao aumentar o número de alunos por turma. As críticas estenderam-se ainda à política do Executivo relativa ao Ensino Superior, onde foi retirado que este sector não precisa de mais mercantilização.
A verdade é que a intervenção de abertura do PCP colocou a nú os resultados da desastrosa política governativa e houve dois elementos que o comprovaram: a ausência de pedidos de esclarecimentos e a forma como na intervenção seguinte, Fernando Alexandre nunca se dirigiu directamente ao que fora colocado por Paulo Raimundo, ficando-se pelo facto de «só» haver 124 turmas com mais de 30 alunos, entre mais de 56 mil.
Neste sentido, o ministro optou por dirigir-se ao PS e, num jogo de «passa culpas», acusou o partido liderado por José Luís Carneiro de ser responsável por tudo o que está a acontecer, puxando para o debate o tema da imigração desregulada, a bandeira da extrema-direita que tanto jeito dá à coligação PSD/CDS-PP.
Assim como no caso dos exames nacionais, cujo caos foi resultado directo de uma reforma liquidacionista da gestão educativa, também o início do ano letivo está a revelar que os problemas não se ficaram pela digitalização de provas, assim como também se estendem à colocação de alunos nas escolas, algo digno de um retrocesso social.
O debate ficou ainda marcado pelo facto de Fernando Alexandre ter ignorado os 160 mil alunos que continuam sem professor atribuído, num contexto em que mais de 1100 docentes que vão aposentar‑se nas próximas semanas. Como não podia deixar de ser, o responsável da tutela voltou a culpar professores, desta feita os cerca de 6 mil que apresentaram baixa médica desde o início do ano.
Ignorando os graves problemas, Fernando Alexandre encontrou apenas um trunfo que podia usar. Num tom triunfalista, o ministro quis findar a sua intervenção com a expansão da rede de bibliotecas escolares: «Há quase 19 mil alunos sem acesso a uma biblioteca escolar, número inaceitável. Actuámos rapidamente e, durante este ano letivo, cerca de 15 mil alunos vão passar a ter acesso directo a livros, com a criação de 413 novas bibliotecas». Uma excelente medida, não fosse o número de alunos que ainda nem escola tem.
Contribui para uma boa ideia
Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.
O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.
Contribui aqui