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FMI monta o cenário, Costa ensaia o brilharete

Em vésperas da apresentação do Orçamento do Estado, os habituais avisos do FMI servem ao Governo do PS para tentar transformar qualquer pequeno avanço, mesmo a contragosto, numa grande vitória.

O primeiro-ministro, António Costa, aguarda pela chegada da chanceler alemã, Angela Merkel, na Avenida da Liberdade, Lisboa. 31 de Maio de 2018
O primeiro-ministro, António Costa, aguarda pela chegada da chanceler alemã, Angela Merkel, na Avenida da Liberdade, Lisboa. 31 de Maio de 2018CréditosTiago Petinga / Agência LUSA

O último relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre Portugal, revelado a pouco mais de um mês de 15 de Outubro, data limite para a entrega do Orçamento do Estado para 2019 pelo Governo, não traz nada de novo.

Os dados objectivos de evolução da economia e do emprego já não permitem repetir os alertas catastrofistas, mas o FMI continua a deixar «avisos» e «recomendações». Pela imprensa, sabemos que um dos pés da troika está preocupado com o descongelamento das progressões nas carreiras da Administração Pública, com o peso dos salários dos trabalhadores do sector público ou com o regime para as longas carreiras contributivas. Em sentido inverso, o que o FMI receita é um acelerar da «consolidação das contas públicas» e uma «reforma da Função Pública». Basta lembrar os anos da troika para entender o que desejam Christine Lagarde e Vítor Gaspar.

Mas, no quadro político actual, estes relatórios (como o da recente avaliação pós-troika da Comissão Europeia) assumem uma dupla função. Para além da eficácia enquanto elemento de pressão e chantagem sobre o País, estes permitem ao Governo do PS ensaiar um limpar de face perante as suas próprias insuficiências. Ao não ir tão longe quanto podia e se exigia, o Executivo responderá que foi mais longe que o FMI e as instituições europeias queriam, tantas vezes forçado por um quadro político em que depende de outros para a aprovação do Orçamento.

No entanto, não será o jogo de enganos e aparências que dará resposta aos problemas do País. Para cortar com o rumo que foi e continua a ser «recomendado» por estas instituições, não basta dizer que se tomaram algumas medidas a contragosto das principais potências e dos interesses económicos que representam.

Quando os governantes e os dirigentes do PS se orgulham dos ganhos de causa perante a política das inevitabilidades e do inflexível directório europeu, não dizem que bloquearam avanços de maior alcance precisamente por terem aceitado os principais constrangimentos impostos ao País.

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