Lá dentro, a fina flor da ciência portuguesa, muita resiliência e abundante mérito. Cá fora, todos aqueles que, ano após ano, teimam em fazer ouvir a sua voz contra a precariedade laboral e que defendem a necessidade de mais investimento em ciência e ensino superior e mais democracia nas instituições. Têm sido assim todos os Encontros Ciência e o deste ano não escapou à regra.
Trabalhadores do ensino superior e da ciência, docentes, investigadores, gestores, técnicos e muitos outros, sabem que só com ação coletiva organizada se podem alcançar ganhos para as suas justas reivindicações. Fechados em gabinetes a escrever mais um artigo ou a organizar mais uma conferência, não contribuem um milímetro para melhorar as suas condições de trabalho, a sua qualidade de vida e bem-estar.
A realidade não muda por decreto e só a ação coletiva e a luta social transformam a realidade. Por mais que quem manda e decide prefira trabalhadores sozinhos e confusos, individualistas e atomizados, só assim se pode aspirar a conseguir pequenas vitórias, que nunca estão garantidas.
Vivemos há tanto tempo num mundo hostil para quem vive do seu trabalho que se torna difícil acreditar que é possível alcançar o que quer que seja. Mas só é vencido quem desiste de lutar e foi a luta que, no ensino superior e na ciência, permitiu conquistas como: i) um regime transitório no ensino superior politécnico que se traduziu no ingresso na carreira de centenas de colegas e pode agora servir de referência para o regime transitório que o novo estatuto da carreira de investigação científica exige; ii) a substituição de bolsas de pós-doutoramento por contratos de trabalho, com a criação do DL57, e inclusão de uma norma transitória que, desde o início, se sabia que seria torpedeada por instituições de ensino superior sub-financiadas; iii) a integração na carreira de centenas de colegas através do PREVPAP e, sobretudo, que os investigadores fossem abrangidos por um processo que, à partida, os excluía; iv) conseguir que o FCT-Tenure fosse uma realidade e não apenas mais uma declaração de intenções.
As instituições de ensino superior e ciência são fábricas de produção de exaustão em massa. Toda a gente anda mais ou menos insatisfeita, cansada, esgotada. Exige-se excelência e impõe-se toda a retórica falaciosa da meritocracia que vira uns contra os outros, como adversários e concorrentes. Nesta corrida frenética e incessante deixa-se muito para trás: família, amigos e toda a vida que acontece fora dos locais de trabalho.
«As instituições de ensino superior e ciência são fábricas de produção de exaustão em massa. Toda a gente anda mais ou menos insatisfeita, cansada, esgotada.»
Muitos nunca são suficientemente bons, outros não são suficientemente talentosos, outros tantos nunca são compatíveis com as opções estratégicas das instituições onde, ininterruptamente, trabalham há cinco, dez, 15, 20 ou mais anos. A satisfazer necessidades permanentes e a tapar buracos, a produzir ciência de alta qualidade a muito baixo custo.
E assim se sacrificam vidas no altar da ciência e da academia. Instalam-se a doença física e mental, a depressão, o ressentimento e a desesperança que consomem e desgastam. A solução é uma e só uma: canalizar a indignação e a revolta sentidas para a luta e, vencendo os muitos preconceitos ainda existentes, integrar associações ou sindicatos.
Esta é a melhor forma de preservar a saúde física e mental e saber que nunca se está sozinho. Não há sessão de mindfulness ou team-building que substitua a solidariedade, a camaradagem e o espírito de comunhão que a luta organizada proporciona.
De resto, fruto das políticas de retrocesso que começam já a fazer caminho, o futuro imediato será mais duro e desafiante. E uma das mentiras que importa contrariar é aquela que há mais anos se ouve e que tem sido o refúgio seguro de quem nada quer fazer: a de que não há dinheiro. É sabido que, para apetrechar laboratórios e substituir equipamentos, para renovar infraestruturas e salas de aula, para reforçar os corpos de docentes e investigadores, para progressões salariais e tantas outras coisas, nunca há dinheiro e aqueles que o reivindicam são irrealistas, líricos e utópicos, uns verdadeiros
irresponsáveis. Mas no momento em que a NATO exigiu 5% do PIB para financiar a guerra, o dinheiro apareceu. O primeiro-ministro diz até que é possível alcançar esta verba sem prejudicar as contas públicas nem as políticas sociais.
«E assim se sacrificam vidas no altar da ciência e da academia. Instalam-se a doença física e mental, a depressão, o ressentimento e a desesperança que consomem e desgastam. A solução é uma e só uma: canalizar a indignação e a revolta sentidas para a luta e, vencendo os muitos preconceitos ainda existentes, integrar associações ou sindicatos.»
Tendo como referência o PIB português de 2024, estamos a falar do dobro do investimento feito em Educação (6993,3 milhões, 2,45% do PIB), o quádruplo do que se investiu em Ensino Superior e Ciência (3842 milhões, 1,34% do PIB) e quase 28 vezes mais do que se investiu em Cultura (518,7 milhões de euros, 0,18% do PIB). Pelos vistos, quando é para aquilo que faz o nosso país andar para a frente, nunca há dinheiro, mas para fazer e alimentar a guerra e a indústria militar passa-se logo o cheque.
É importante que os trabalhadores do ensino superior e ciência se lembrem disso, quando se começarem a desviar verbas da ciência para fins civis para aquela que é utilizada para fazer a guerra e patrocinar a morte. E esse caminho começa já a ser feito, mas pode ser contrariado. Lutemos, pois, por uma ciência ao serviço da paz, do progresso e da justiça social.
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