|Jakilson Pereira

A Cova da Moura é do povo

A Cova da Moura é a prova viva de que o progresso só acontece quando o povo resiste e constrói com as suas próprias mãos. Não aceitaremos que Suzana Garcia, nem os fundos imobiliários, nem qualquer projeto reacionário apaguem a nossa história e a nossa presença.

CréditosRodrigo Antunes / Agência Lusa

Por estes dias, redes sociais e órgãos de comunicação social foram invadidos pela ideia da «erradicação» da Cova da Moura, pela voz e proposta do PSD e da sua candidata à Câmara da Amadora, Suzana Garcia. Um plano que não é novo. Já em 2005 se tentou impor a mesma lógica – e foi derrotada pela luta popular.

Em 2004, a luta dos moradores da Cova da Moura, com o apoio do então Presidente da República, Jorge Sampaio, deu origem a uma nova «política das cidades». Através da Iniciativa Bairros Críticos – programa lançado pelo Governo pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 143/2005, de 7 de setembro – pretendia-se promover a qualificação e a reinserção urbana de bairros com problemáticas sociais e urbanísticas.

No entanto, o então presidente da Câmara Municipal da Amadora, Joaquim Raposo, do Partido Socialista, foi um entrave à resolução da questão fundiária. Existia verba de fundos europeus que poderia ter sido utilizada para a expropriação dos terrenos e para resolver, de vez, a situação legal do bairro. Mas não se fez. O objetivo foi claro: manter os moradores da Cova da Moura como reféns políticos do PS.

Sem novidades na resolução dos problemas da Cova da Moura, novas peças se juntam ao tabuleiro, na tentativa populista de atrair a atenção e votos, fingindo ter a varinha mágica que tudo faz, que tudo resolve. Mas quem é Suzana Garcia? E como conseguiu entrar nas nossas casas, nos nossos cafés, no nosso bairro e na nossa cidade?

A origem de uma figura construída contra nós

Foi em 2017, quando o Ministério Público acusou agentes da PSP pelo caso de 5 de fevereiro de 2015, na esquadra de Alfragide – agentes que a Justiça viria a condenar por crimes de ofensa à integridade física qualificada, injúria agravada, falsificação de documento, denúncia caluniosa e sequestro agravado – que surgiu a figura de Suzana Garcia.

Não surgiu para defender a verdade ou a justiça. Surgiu para atacar, insultar e criminalizar o nosso bairro. Apareceu na televisão, num debate com Paulo Rodrigues, jovem da Cova da Moura, recorrendo à velha cartilha colonial e fascista: entrou a atacar, proclamando «sou mais africana do que tu, nasci em África», numa tentativa cínica de deslegitimar e silenciar a nossa voz.

Uma carreira mediática erguida no ódio

Desde então, construiu a sua carreira mediática alimentando o ódio e a mentira. Nos programas da manhã, nas mesas-redondas sobre criminalidade, em cada intervenção, ergueu-se como a «juíza popular» contra imigrantes, afrodescendentes e ciganos.

O critério foi sempre seletivo: para Suzana Garcia, o crime é sempre mais grave quando cometido por quem tem origem africana. Com o apoio das televisões, foi erguendo a sua imagem pública à custa da difamação e do racismo.

Da televisão para a política

Nas eleições autárquicas de 2021, tentou ser candidata pelo Chega, de quem era defensora ativa e a cujo líder, André Ventura, manifestou várias vezes disponibilidade para se juntar. Mas foi o CDS da Amadora quem a propôs como candidata da coligação AD.

A escolha gerou polémica: muitos militantes do PSD local manifestaram-se contra e alguns chegaram mesmo a abandonar o partido. Ainda assim, PSD e CDS insistiram, recrutando até elementos do PSD de Oeiras para reorganizar a estrutura local. O Chega, por sua vez, recusou apoiá-la, lançando outro candidato – um ex-polícia, mais próximo da sua linha «musculada».

Mentiras como arma política

A sua campanha, porém, não se limitou aos cartazes ou às ruas: foi feita diariamente nos ecrãs de televisão, onde durante quatro anos repetiu mentiras e ataques ao nosso bairro.

Suzana Garcia escolheu a Cova da Moura como inimigo número um. Associou-lhe crimes ocorridos a quilómetros de distância, espalhou calúnias e preconceitos sem contraditório. O seu objetivo sempre foi claro: demonizar o bairro para justificar o seu verdadeiro projeto – entregar a Cova da Moura aos fundos imobiliários.

Chegou mesmo a afirmar, num programa, que dois agentes da PSP (António Carlos Fernandes Abrantes e Paulo Jorge de Oliveira Alves), assassinados em 2005 na Avenida General Humberto Delgado (Mina de Água), tinham sido mortos na Cova da Moura. Uma mentira grosseira: os locais distam mais de 5 quilómetros. Ainda assim, continua a repetir essa falsidade sem ser desmentida em direto.

«Sem novidades na resolução dos problemas da Cova da Moura, novas peças se juntam ao tabuleiro, na tentativa populista de atrair a atenção e votos, fingindo ter a varinha mágica que tudo faz, que tudo resolve. Mas quem é Suzana Garcia? E como conseguiu entrar nas nossas casas, nos nossos cafés, no nosso bairro e na nossa cidade?»

 

Durante quatro anos, Suzana Garcia insultou imigrantes cabo-verdianos e seus descendentes, chamando-nos de «gentalha», alimentando a mentira e o ódio para conquistar protagonismo. E os meios de comunicação social, quase sempre sem contraditório, deram-lhe palco. Hoje, os fundos imobiliários darão certamente o seu apoio à promessa de expulsar os moradores da Cova da Moura para entregar o bairro ao grande negócio da especulação, ou não tivesse a sua equipa de candidatos à Câmara um empresário do ramo imobiliário.

E não foi coincidência que, no dia 15 de agosto deste ano, tenha aparecido na Rua do Liceu, na Cova da Moura, ao lado de uma retroescavadora, numa encenação provocatória. Queria transformar o bairro em palco do seu teatro político, esperando «casos» para se vitimizar. Mas encontrou um povo consciente e firme, que a ignorou e não lhe deu o espetáculo que procurava.

O projeto de expulsão em 2025

Hoje, a candidata do PSD, Suzana Garcia, afirma, em declarações que o próprio governo já veio desmentir, «estar a trabalhar com o Governo há três meses num programa que prevê a demolição das construções ilegais do bairro e o realojamento de mais de duas mil famílias, para criar novas habitações, espaços verdes, equipamentos públicos e habitação pública para a classe média». 

E aqui está a contradição: por que razão retirar os moradores da Cova da Moura para, no mesmo espaço, construir habitação para a classe média? A resposta é evidente – porque Suzana Garcia nunca nos reconheceu como cidadãos de pleno direito. Para ela, nós somos cidadãos de segunda.

O que a Cova da Moura exige

A Cova da Moura não precisa de planos de demolição mascarados de progresso. Precisa de políticas públicas de habitação para a requalificação urbana, para programas de intervenção no pavimento e nos espaços públicos. Aqui, os moradores pagam IMI das suas casas e IUC dos seus automóveis.

Durante 28 anos de gestão socialista na Câmara, em cada ciclo eleitoral, vimos a renovação do pavimento e do asfalto nas freguesias das Águas Livres. Mas quando os trabalhos chegavam às portas da Cova da Moura… paravam. O recado era sempre o mesmo: o bairro ficava de fora. É preciso dizê-lo em voz alta — nós também somos contribuintes e exigimos que o nosso dinheiro seja aplicado no melhoramento do nosso bairro.

«Queria transformar o bairro em palco do seu teatro político, esperando "casos" para se vitimizar. Mas encontrou um povo consciente e firme, que a ignorou e não lhe deu o espetáculo que procurava.»

 

A recolha de lixo é deficitária. Temos menos contentores por habitante do que em qualquer outra freguesia do município. A Câmara não faz a limpeza no interior do bairro como faz em toda a cidade. Não pedimos privilégios – exigimos apenas equidade e respeito.

Só uma intervenção territorial integrada – que articule os aspetos sociais, económicos e ambientais, com coordenação estratégica, cooperação interministerial e a participação ativa dos moradores – poderá resolver os problemas do bairro. É preciso desenhar planos locais de intervenção, assentes nas potencialidades, nos valores e na riqueza cultural da Cova da Moura.

Esse é o caminho. Não a expulsão. Não a demolição.

A força da resistência

A Cova da Moura não se apaga, não se vende, não se derruba!

A Cova da Moura é património histórico, cultural e social da Amadora. É um bairro erguido pela força de homens e mulheres de Cabo Verde, Angola, São Tomé, do Norte de Portugal e dos retornados das ex-colónias. É memória, identidade e resistência.

A Cova da Moura não é um obstáculo ao progresso: é a prova viva de que o progresso só acontece quando o povo resiste e constrói com as suas próprias mãos!

Não aceitaremos que Suzana Garcia, nem os fundos imobiliários, nem qualquer projeto reacionário apaguem a nossa história e a nossa presença.

A Cova da Moura é do povo.
E será sempre defendida pelo povo.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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