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Uma limpeza étnica sob os nossos olhos – 2

A limpeza étnica é indissociável da existência, expansão e afirmação do Estado sionista. Ou seja, o terrorismo é um princípio existencial de Israel.

Milhares de pessoas, na tentativa de escapar aos bombardeamentos israelitas no Norte da Faixa de Gaza, levam os pertences que conseguem e fogem mais para o Sul do enclave, a 18 de Novembro de 2023 
Milhares de pessoas, na tentativa de escapar aos bombardeamentos israelitas no Norte da Faixa de Gaza, levam os pertences que conseguem e fogem mais para o Sul do enclave, a 18 de Novembro de 2023 Créditos / PressTV

«Antes destruir o mundo do que Israel afundar-se»

«A migração voluntária e a absorção dos árabes de Gaza pelos países do mundo é a solução humanitária que permitirá pôr fim ao sofrimento dos judeus e dos árabes»

(Bezalel Smotrich, ministro das Finanças de Israel, Novembro de 2023)

 

A declaração racista acima reproduzida e proferida por um dos declarados fascistas supremacistas do governo de Netanyahu, Belazel Smotrich, não resulta de um impulso súbito, não é um desabafo finalmente libertado porque as condições no terreno são propícias a que os seus desejos se cumpram. A sua tese sobre a «migração voluntária» como «solução final» foi exposta algumas horas depois de o Wall Street Journal ter publicado um artigo de Danny Dalon, ex-embaixador israelita nas Nações Unidas, e Ram-Ben Bark, ex-vice-director da Mossad, defendendo a transferência de parte da população de Gaza para países dispostos a aceitá-la. Assumir esta posição num jornal com impacto em todo o mundo ocidental é, sem dúvida, uma preparação de terreno, mesmo mais do que um balão de ensaio. Não é um exercício retórico e diletante de dois sionistas quaisquer.

Os planos para a limpeza étnica dos territórios palestinianos – em Gaza e também na Cisjordânia e Jerusalém Leste, onde está igualmente em curso – não surgiram agora e são inerentes à própria doutrina sionista, seja a «original», pretensamente secular mas que já se baseava no conceito mítico de «terra prometida»; ou a actual, assumindo de vez o seu carácter racista, fundamentalista religioso e doentiamente messiânico.

Benjamin Netanyahu incorpora essa suposta transição. Num discurso aos estudantes de uma universidade norte-americana, em Março de 2015, fez a seguinte leitura das alegadas vicissitudes de Israel nos tempos que correm: «Um poderoso vice-rei persa, Haman, planeou destruir o povo judeu há cerca de 2500 anos. Mas uma corajosa judia, a rainha Ester, expôs a conspiração e deu ao povo judeu o direito de se defender dos seus inimigos. A trama foi frustrada. O nosso povo foi salvo. Hoje o povo judeu enfrenta nova tentativa de outro potentado persa para o destruir». Alegoria barroca mas explícita quanto ao que se passa na cabeça de Netanyahu, mas não só.

«Como se depreende, esta cultura bíblica para legitimar o "direito de Israel a defender-se", como repetem os nossos governos enquanto Israel chacina a população indefesa de Gaza, vem inscrita em livros sagrados sujeitos a múltiplas interpretações ficcionais, conforme dá jeito, e serve de padrão histórico inquestionável a esta entidade de «referência ocidental», a "única democracia do Médio Oriente"»

O primeiro-ministro sionista também não hesitou em citar o Eclesiastes para interpretar os acontecimentos actuais: «Há um tempo para a paz e um tempo para a guerra.» «Hoje é o momento da guerra», acrescentou.

Posteriormente, o chefe do governo sionista apegou-se a uma citação do profeta Samuel (versículo 15:3) que ele considera à medida da situação criada em Gaza: «Vai, pois, agora, e fere Amaleque, e destrói totalmente tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém, matarás homem e mulher, criança, até a de peito, desde os bois até às ovelhas e desde os camelos até aos jumentos.»

Como se depreende, esta cultura bíblica para legitimar o «direito de Israel a defender-se», como repetem os nossos governos enquanto Israel chacina a população indefesa de Gaza, vem inscrita em livros sagrados sujeitos a múltiplas interpretações ficcionais, conforme dá jeito, e serve de padrão histórico inquestionável a esta entidade de «referência ocidental», a «única democracia do Médio Oriente», ainda que seja racista, supremacista, fora de lei e responsável pela morte de centenas de milhares de palestinianos, como vem acontecendo desde o final dos anos 40 do século passado.

Israel confunde-se com limpeza étnica

A limpeza étnica é, portanto, indissociável da existência, expansão e afirmação do Estado sionista. Ou seja, o terrorismo é um princípio existencial de Israel.

Ouvindo os conceitos manifestados nas últimas semanas, observando os comportamentos de tropas e colonos na Cisjordânia e em Gaza e estudando os planos existentes para a transferência da população deste território – oriundos de entidades governamentais, embora o governo, taticamente, não os assuma –, deduz-se que está em desenvolvimento uma nova fase da ocupação, uma «oportunidade única» como se lê num desses programas, para que se transforme em realidade o axioma que há pouco mais de 50 anos a primeira-ministra Golda Meir pregou ao mundo: «Palestiniano? Isso é coisa que não existe.»

E Hollywood, um gigantesco aparelho de propaganda sionista, produziu e faz circular agora uma longa-metragem endeusando e humanizando essa personagem racista transformada em mito. Parece uma produção ditada pelas necessidades de propaganda de hoje, mas, ainda que não passe de coincidência, revela até que ponto a cultura mitológica que envolve a história de Israel é uma estratégia organizada, transnacional, consistente e permanente.

O universo sionista está sobrecarregado, há muitos anos, de declarações, sugestões e projectos avulsos, todos eles coincidentes na necessidade de ocupar Gaza e expulsar a população.

Giora Eiland, conselheiro de segurança nacional do primeiro-ministro Ariel Sharon entre 2004 e 2006, foi um dos principais responsáveis pelo plano de retirada militar, saída dos colonos e extinção dos colonatos de Gaza para então cercar e bloquear o território, a partir de 2007. A Faixa de Gaza entrou assim na fase de isolamento e bloqueio dos movimentos da população, transformada na maior prisão do mundo a céu aberto, um campo de concentração que passou a ser alvo periódico de bombardeamentos mortais.

«O universo sionista está sobrecarregado, há muitos anos, de declarações, sugestões e projectos avulsos, todos eles coincidentes na necessidade de ocupar Gaza e expulsar a população.»

O plano de Eiland previa ainda a «expansão de Gaza» para o Sinai egípcio, em troca da cedência ao Egipto de terras do deserto do Neguev. Esta fase do programa ficou em suspenso e agora, em vez de troca de territórios, por iniciativa sionista a que os Estados Unidos não se opuseram inicialmente, surgiu na mesa a tentativa de convencer e/ou obrigar o Egipto a permitir a entrada da população de Gaza no seu território do Sinai, beneficiando em contrapartida do perdão parcial ou total da dívida externa, avaliada em 135 mil milhões de dólares norte-americanos.

Orna Ben-Naftali, então reitor da Faculdade de Direito da Universidade Hebraica de Jerusalém, estabeleceu jurisprudência em 2008 para a Faixa de Gaza cercada e bloqueada: «A maioria dos homens adultos em Gaza e a maioria dos edifícios podem ser considerados como alvos legítimos.» Um parecer jurídico que «legaliza», portanto, o terrorismo. Um Direito a la carte.

Podemos citar também o projecto designado «passos para alcançar o sossego em Gaza», da autoria do cadastrado e deputado libertário do Likud, Moshe Feiglin, que também foi vice-presidente do Knesset, o parlamento sionista. Sugeriu ele em 2015, em artigo publicado no Israel National News, que Israel deve «atacar alvos militares» e «exortar a sair os que não estão envolvidos e não desejam ser prejudicados». Afinal, acrescenta, «o Sinai não fica longe de Gaza». Sentencia o autor que «este deverá ser o limite dos esforços humanitários de Israel» na sequência do recurso à «força máxima» das suas tropas. Os «inimigos armados» deverão ser «todos eliminados» e então «Gaza tornar-se-á parte de Israel soberano e será um território povoado por judeus»; e, como se cita num programa oficioso de limpeza étnica, este ganho territorial «servirá para aliviar a crise habitacional em Israel». Garante Feiglin: «Gaza faz parte da nossa terra e aí permaneceremos para sempre.» Além disso, segundo estudos de opinião a que o autor disse ter acesso, «a maioria dos árabes deseja sair» do território.

Uma fonte inesgotável de ideias e sugestões sobre o destino em massa da população de Gaza é o ex-vice-ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Danny Ayalon, partindo do princípio de que «há uma enorme extensão, um espaço quase infinito no deserto do Sinai, do outro lado de Gaza».

Numa entrevista ao canal da TV Al Jazeera em inglês, Ayalon alegou, a propósito da transferência em massa de populações, «que não é a primeira vez que isso é feito – que elas partem para áreas abertas onde nós e a comunidade internacional, como se sabe, preparamos as infra-estruturas, cidades de tendas, comida e água, como no caso dos refugiados da Síria».

Washington à deriva

Francesca Albanese, relatora especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinianos ocupados, alertou que, «se acreditarmos em alguns dirigentes israelitas, o objectivo é empurrar os palestinianos para o Sinai; é uma limpeza étnica e Israel já a fez», comentou. Segundo a relatora, «os Estados-membros da ONU deveriam ser obrigados a intervir porque estamos a assistir a violações claras do direito internacional».

«Se acreditarmos em alguns dirigentes israelitas, o objectivo é empurrar os palestinianos para o Sinai; é uma limpeza étnica e Israel já a fez»

Francesca Albanese

Craig Makhiber, chefe do Gabinete de Direitos Humanos da ONU, foi mais longe na manifestação da sua indignação e demitiu-se do cargo devido à falta de acção das instâncias internacionais perante a tragédia. «A guerra israelita contra Gaza é um caso exemplar de genocídio (…) e os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de grande parte da Europa são totalmente cúmplices deste terrível ataque», disse.

A acusação ajusta-se na perfeição, por exemplo, a Portugal, melhor dizendo, aos órgãos de soberania portugueses. Quando o primeiro-ministro, António Costa, declara enfaticamente que «Portugal está com Israel», comete um abuso de confiança ao envolver os portugueses numa limpeza étnica, num genocídio, numa estratégia de terrorismo.

Já o venerando chefe de Estado, com aqueles vastos horizontes históricos com que olha o mundo, e que visivelmente não vão para lá do Guincho, decidiu espetar o dedo indicador no peito do embaixador da Palestina, como se ainda estivesse na escola primária, acusando-o repetidas vezes: «foram vocês que começaram.» Como o embaixador o lembrou de que a ocupação se iniciou há muito, sendo a fonte de todos os problemas da região, o presidente reagiu com notável argúcia: «mas isso é outra coisa…». Tristes figuras. Desumana insensibilidade perante as imagens dos assassínios de crianças e mulheres que nos chegam de Gaza. Como podemos então esperar deles manifestações de respeito pelos portugueses?

E, de facto, desde 1948 que Israel não tem feito outra coisa senão uma limpeza étnica da Palestina, em massa quando as condições parecem propícias aos seus dirigentes, ou passo-a-passo através da colonização ou de operações militares localizadas. Francesca Albanese considera, por isso, que o desentendimento na ONU sobre a declaração de um cessar-fogo em Gaza «é dar carta branca ao que Israel está a fazer».

Nos Estados Unidos, onde o presidente Biden garante que «não é preciso ser judeu para ser sionista» – na verdade, também não obrigatório usar a suástica e esticar o braço para ser nazifascista –, o estado de deriva da casta dirigente é absoluto. A administração, os seus conselheiros e agentes e também os dois partidos praticamente fundidos num só desencontram-se em pareceres, decisões, missões de enviados onde a posição sobre os acontecimentos desenvolvidos por Israel variam de dia para dia, de declaração para declaração.

O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Kirby, confia em que «Israel esteja a tentar proteger a população palestiniana pacífica durante a sua invasão». Kirby explicou também que os Estados Unidos «trabalham activamente de modo a estabelecer um corredor seguro para os civis de Gaza». Este esforço não pode ser desligado, em termos práticos, da criação de condições para uma transferência forçada da população para o Sul do território, como primeiro passo para a expulsão em direcção ao Egipto.

«A administração [Biden], os seus conselheiros e agentes e também os dois partidos praticamente fundidos num só desencontram-se em pareceres, decisões, missões de enviados onde a posição sobre os acontecimentos desenvolvidos por Israel variam de dia para dia, de declaração para declaração.»

Tentando corrigir a mão, depois de considerações deste tipo não caírem muito bem em período pré-eleitoral – mesmo na classe política norte-americana há quem entenda que um genocídio ou qualquer outro crime de guerra não favorece resultados eleitorais –, Biden garantiu ao presidente egípcio Al-Sisi, em 29 de Outubro, «que trabalhará para que os palestinianos de Gaza não sejam deslocados para o Egipto ou para qualquer outro lugar». Vale o que vale quando, neste momento, mais do que nunca, os Estados Unidos reconhecem não ter condições para travar Israel. Além disso, recorda-se, Joseph Biden, um presidente cristão, diz que também é sionista – um indício de que está solidário com o que sionistas pretendam fazer. O presidente dos Estados Unidos personifica, neste caso, um transtorno sintomático: como cristão, já acolheu o seu Messias; como sionista, continua à espera do Messias. Não é provável que haja caminho mais célere para a esquizofrenia.

Existe, porém, uma causa bem mais terrena para estes devaneios escatológicos de Joseph Biden. Nos idos de 1986, o então senador Biden desabafou que, «se não houvesse Israel, os Estados Unidos teriam de inventar uma para defender os seus interesses». Percebemos assim que as reticências, mesmo sumidas, da Casa Branca em relação à limpeza étnica em curso se extinguirão completamente se Israel, como tudo o indica, a considerar indispensável para a sua nova etapa de existência, a da implantação na totalidade da Palestina. Afinal, são os «interesses dos Estados Unidos» que estão em jogo e para isso vale tudo, incluindo dar mãos livres a hordas de sociopatas movidas por um qualquer direito divino.

«Nos idos de 1986, o então senador Biden desabafou que, "se não houvesse Israel, os Estados Unidos teriam de inventar uma para defender os seus interesses"»

O mais recente passo da desengonçada dança em Washington é a declaração do presidente norte-americano segundo a qual passou a defender agora a extensão de uma «autoridade palestiniana renovada» a todos os territórios ocupados, em direcção à solução de dois Estados. Neste súbito acesso maximalista, desligado de tudo quanto tem sido o objectivo da actuação das administrações norte-americanas desde o início do século – a inviabilização do Estado palestiniano como Israel deseja –, pode ler-se a vulnerabilidade de Washington perante o  comportamento da esmagadora maioria dos Estados árabes e islâmicos, entre eles alguns aliados estratégicos dos Estados Unidos, como a Arábia Saudita e outras petromonarquias do Golfo, a Jordânia, a Turquia da NATO, o próprio Egipto. Nenhum deles tem mostrado contemplações com a chacina e a limpeza étnica em Gaza; nenhum deles iliba os Estados Unidos das suas responsabilidades na catástrofe. Coincidindo estes desencontros com uma fase em que a maior parte dos países citados parece tentada pela nascente ordem internacional multipolar, em que outros actores como a China e a Rússia reforçam influência no Médio Oriente, o pesadelo norte-americano torna-se ainda mais assustador.

As circunstâncias reais, no entanto, degeneraram de tal maneira, também por responsabilidade dos Estados Unidos, que a criação do Estado palestiniano parece quase impossível, a não ser que o regime de Israel se submeta ao direito internacional. Até ver, como padrão de análise continua a prevalecer o peso da «indissolúvel aliança entre os Estados Unidos e Israel», o que deixa claro o irrealismo da última declaração de Biden quando encarada na perspectiva do comportamento estratégico dos Estados Unidos.

A inconsequente declaração do presidente norte-americano provavelmente não incomodará Benjamin Netanyahu, que pode até reforçar a sua posição de vítima, de «sozinhos contra o mundo». Também neste caso há uma picuinha na relação entre o criador do monstro e a criatura, mas Israel sabe que, pela teia de interligações entre os dois Estados, Washington está nas suas mãos. E, mesmo que assim não fosse, Benjamin Netanyahu continuaria confiante porque, segundo costuma dizer, «eu sei o que é a América; a América é algo que pode ser facilmente movido. Movido na direcção certa».

O inferno é o limite?

E até onde o regime israelita estará disposto a ir para tornar infalível o dogma existencial do «direito inquestionável» à terra de Israel? Revisitemos o então primeiro-ministro Ariel Sharon, citado em 2003 por David Hirst em The Guardian, na altura do chamado «Segundo Intifada», respondendo a uma pergunta sobre se o mundo «permitiria nova limpeza étnica: «Isso depende de quem a faz e da rapidez com que a faz acontecer», explicou. «Possuímos várias centenas de ogivas atómicas e foguetes e podemos lançá-los em todas as direcções, talvez até em Roma. A maioria das capitais europeias são alvos da nossa força aérea. Permitam-me que cite o general Moshe Dayan: "Israel deve ser como um cão enlouquecido, suficientemente perigoso para incomodar". Considero que tudo é desesperador neste momento. Teremos de evitar que as crises cheguem a isso, se possível. As nossas forças armadas, no entanto, não são as trigésimas mais fortes do mundo, mas sim as segundas ou terceiras. Temos a capacidade de destruir o mundo connosco. E posso garantir-vos que isso acontecerá antes de Israel se afundar.»

«Temos a capacidade de destruir o mundo connosco. E posso garantir-vos que isso acontecerá antes de Israel se afundar.»

Ariel Sharon, em 2003

Ariel Sharon não era homem para brincar com as palavras nem fazer bluff, muito menos para se preocupar com vidas humanas. Vivi in loco as consequências das suas façanhas terroristas quando, no Verão de 1982, como chefe das forças armadas, transformou Beirute Ocidental num cenário de horror que podemos comparar com o de agora em Gaza. Apenas as tropas terrestres não tiveram a coragem de entrar, sabendo que não seria escasso o número de vítimas mortais entre os soldados invasores. Sharon e os seus subordinados esperaram um mês para então se vingarem da maneira mais cobarde por terem sido impedidos militarmente de atingir os seus objectivos: permitiram e incentivaram a chacina a sangue-frio dos habitantes dos campos de refugiados palestinianos de Sabra e Chatila, sobretudo mulheres, crianças, e idosos, quando já não tinham oposição armada. Uma solução mediada pelos Estados Unidos tinha supostamente posto termo ao cerco de Beirute, mas para Israel, ontem como hoje, não existem acordos a respeitar. As suas leis não são deste mundo. E nos escombros de Sabra e Chatila ficaram aproximadamente mais três mil mortos.

Não é difícil encontrar elementos significativos de que, para atingir os objectivos sionistas, o «cão louco» pode até nem poupar os seus. Tuval Escapo, membro da equipa de segurança do kibutz Beeri, atacado pelo Hamas em 7 de Outubro, revelou que «os comandantes tomaram decisões difíceis, incluindo bombardear casas e os seus ocupantes para eliminar os terroristas, juntamente com os reféns». Situação confirmada por Yasmin Porat, uma residente mãe de três filhos: «Eles (tropa israelita) eliminaram tudo, incluindo os reféns.» Seguindo, desta maneira, os incitamentos proferidos anteriormente pelo ministro das Finanças Smotrich: as forças militares (IDF) devem «atingir brutalmente o Hamas e não ter consideração significativa pelos cativos» israelitas.

Um exemplo prático: Avi Rosenfeld, brigadeiro-general israelita comandante da divisão de Gaza, revelou ao Haaretz que a sua unidade «foi obrigada a pedir à força aérea que fizesse bombardeamentos sobre a própria base para repelir os terroristas».

Os amigos incondicionais do regime sionista estão, deste modo, suficientemente informados sobre as várias abordagens ao conceito do «direito de Israel a defender-se». Seguindo a declaração de Sharon à letra, percebe-se que o inferno é o limite para o Estado sionista.

Neste quadro do pensamento e da acção do regime israelita, o ministro da Herança de Israel, Amichai Eliyahu, sugeriu que o seu país «pode lançar uma bomba nuclear sobre Gaza», o que seria realmente a verdadeira «solução final» para o problema, dispensando até as complicações logísticas de uma limpeza étnica. O primeiro-ministro disse tranquilamente que os comentários do seu ministro «estão divorciados da realidade» e limitou-se a suspendê-lo do cargo.

Amichai Eliyahu pode ser uma aberração para o conjunto dos mortais, talvez o «cão louco» de que falava Moshe Dayan citado por outro criminoso, o falecido Ariel Sharon. Acontece que esse «louco» é um ministro do governo do Estado de Israel, uma entidade que, como agregadora do «povo escolhido», se considera acima de todas as leis humanas e, na sua deriva escatológica, responde e responderá apenas perante o seu Deus e o Messias que há-de vir.

Amichai Eliyahu não é uma caricatura cinematográfica à maneira do inesquecível Dr. Strangelove, de Stanley Kubrik, representado pelo fabuloso Peter Sellers. É um desequilibrado, um psicopata, porém com muito poder; integra o governo de um Estado que, repescando as palavras de Sharon no início deste século, poderá acabar com o mundo antes de se afundar. Aconselha-se que o levemos a sério. Pode não ser um caso de delírio de arrogância ou de uma cabeça «divorciada da realidade».

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