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Tribunal francês mantém acusação contra cimenteira Lafarge por «crimes» na Síria

O Tribunal de Apelação de Paris confirmou, esta quarta-feira, o processo contra a multinacional Lafarge, acusada de «cumplicidade em crimes contra a humanidade» na Síria.

Créditos / redaction.media

A cimenteira Lafarge, que agora faz parte do conglomerado suíço de construção Holcim, terá pago, através de subsidiárias, mais de 13 milhões de euros a diversos grupos armados jihadistas, incluindo o Daesh ou Estado Islâmico, para poder manter a funcionar a sua fábrica de cimento na província síria de Alepo em 2013 e 2014.

Organizações não governamentais e de defesa dos direitos humanos esperam que o caso sirva como um «guia» para indiciar multinacionais acusadas de fazer vista grossa ao terrorismo em troca de poderem continuar a operar em países devastados pela guerra.

«É uma decisão exemplar e esperamos que os juízes de instrução possam levar a cabo o seu trabalho», disse à AFP um representante do Centro Europeu de Direitos Constitucionais e Humanos – uma das organizações que lançaram o processo.

Por seu lado, o advogado Joseph Briham, representante de cerca de cem ex-funcionários sírios da empresa, disse que «se trata de mais um passo contra a impunidade dos perpetradores dos piores crimes dos agentes económicos».

Também Mathieu Pagar e Elise Lugal, advogados de 50 ex-funcionários sírios no caso, manifestaram a sua satisfação com a decisão, classificando-a como um passo importante, refere a agência SANA.

A queixa foi apresentada em 2016 e, dois anos depois, a empresa foi acusada. Alegando que não era responsável pelo facto de o dinheiro que entregava a intermediários ir parar às mãos de grupos terroristas, recorreu da decisão e, em 2019, um tribunal retirou a acusação de «cumplicidade em crimes contra a humanidade».

No entanto, em Setembro do ano passado, o Supremo Tribunal francês anulou tal decisão e ordenou uma nova investigação do caso. Com a decisão de ontem, um juiz de instrução pode julgar a Lafarge e os seus responsáveis, incluindo o seu antigo director-executivo Bruno Lafont, indica a AFP.

O tribunal deu razão à acusação, que disse que a Lafarge «financiou, através das suas subsidiárias, as operações do Estado Islâmico com vários milhões de euros com pleno conhecimento das suas actividades».

Também confirmou as acusações de financiamento do terrorismo e de pôr em risco a vida de terceiros – os seus trabalhadores sírios –, quando o Daesh ocupou uma grande parte do país, antes de a Lafarge abandonar a fábrica de cimento que tinha em Jalabiya, perto de Alepo, em Setembro de 2014.

Num comunicado emitido ontem, o grupo suíço Holcim, em que a Lafarge está integrada, disse que vai recorrer da decisão judicial.

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