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|Venezuela

Roma não paga a traidores

Afinal, depois de tantos anos a recorrer a Corinas, Guaidós e outros oposicionistas apátridas, parece que Trump e Rubio descobriram o caminho das pedras: bastava-lhes raptar o presidente para decapitar o inimigo.

Donald Trump Créditos Olivier Douliery / POOL/EPA / Agência Lusa

Revelou a rádio Cadena SER espanhola, entre outras fontes – e não existem razões para duvidar da autenticidade da notícia – que a «presidenta encarregada» da Venezuela, Delcy Rodriguez, agradeceu de viva voz ao presidente norte-americano Donald Trump, e ao seu secretário de Estado, Marco Rubio, «o apoio e cooperação» que  prestaram ao país «neste momento difícil», isto é, a tragédia provocada pelos recentes terramotos.

Acrescentam os meios de comunicação que, nessa conversa telefónica com a Casa Branca, a actual máxima responsável pelo Estado venezuelano dá conta de que o comportamento da chefia norte-americana demonstrou «amizade e cooperação» de cariz humanitário num momento de emergência.

Penso não haver reservas quanto ao facto de estarmos perante um episódio chocante que se destaca, de maneira muito especial, em tempos nos quais os episódios chocantes são triviais. Mas este não é. Pode até dizer-se que significa a terceira tragédia que desaba sobre o povo venezuelano na história recente do país. 

Se as sanções internacionais, impostas num quadro de obediência de grande parte do mundo a sucessivos presidentes dos Estados Unidos – Clinton, Bush, Obama, Biden e Trump – hipotecaram o passado e o presente da Venezuela, ainda com repercussões no futuro; se os recentes terramotos agravaram, e muito, os efeitos das criminosas sanções, pondo em causa, de maneira muito séria, o presente e o futuro dos venezuelanos; a declaração conciliatória (no mínimo), ou mesmo de reverência, dirigida aos dois maiores inimigos da Venezuela, no fundo altos responsáveis pela situação dramática em que o país há muito está mergulhado, devasta o presente e será talvez o episódio que determinará um futuro ainda mais negro. Principalmente para os venezuelanos mais pobres e desapoiados, isto é, a esmagadora maioria da população.

Não parece provável que a presidenta, que só é presidenta porque o presidente legítimo, Nicolás Maduro, foi raptado e preso através de uma manobra golpista do regime norte-americano, tenha feito a declaração com o objectivo de apaziguar os inimigos que há muito roubam os bens do país e tudo têm feito para liquidar o regime progressista bolivariano, substituindo-o por uma outra versão que não escape às malhas coloniais ocidentais.

Custa também a crer que a presidenta Delcy Rodriguez tenha dado sinal de uma alma cheia de gratidão para com os maiores inimigos do seu país ao confundir hipocrisia e propaganda com generosidade. Há tanto tempo na política, e com obrigação de conhecer, ao pormenor, as manhas e a violência dos inimigos, a presidenta não ia ter um acesso de ingenuidade como este ao branquear uma guerra de décadas em troca de meia dúzia de equipas de socorro e uns míseros dólares, ínfimos perante os milhares de milhões roubados ao povo da Venezuela. Roubos que o deixaram à míngua, à fome e à doença. 

Não por «culpa do regime», como recitam os gurus da «civilização ocidental», que conhecem muito bem as causas reais da penúria e das dificuldades do país; mas porque as sanções terroristas, os golpes políticos, militares e as sucessivas tentativas de golpe, o banditismo nas ruas, os apagões e a falta de água provocada de maneira artificial, o roubo do ouro, do petróleo e dos fundos nacionais depositados no estrangeiro são componentes de uma estratégia central: o fim do regime bolivariano e a sua base de independência nacional.

O golpe fatal contra os venezuelanos

Donald Trump e Marco Rubio, o seu secretário de Estado fascista e terrorista, um gusano raivoso contra tudo o que não seja rastejar em Washington, são inimigos jurados da Venezuela, do seu povo e do regime bolivariano. Eles, e também os seus antecessores, tentaram assassinar várias vezes o dirigente revolucionário e carismático Hugo Chávez. Organizaram sucessivas tentativas de golpe, chegaram a tê-lo preso, com a conivência interna de sectores militares, associações patronais e o topo da hierarquia católica. Dessa feita, porém, uma impressionante mobilização popular nas ruas derrotou o golpismo e recolocou o presidente no seu lugar.

Não é novidade que os Estados Unidos, com muito destaque para Trump, nos seus dois mandatos, montaram operações para liquidar Nicolás Maduro, organizaram tentativas de golpe e infiltrações terroristas, algumas delas desmascaradas ao pormenor, com nomes, lugares e metodologia para o derrubar. E transformaram as águas territoriais da Venezuela em ninhos de pirataria norte-americana que, a pretexto do combate ao tráfico de droga – nunca comprovado – criaram o ambiente de guerra que culminou no sequestro e rapto do presidente Nicolás Maduro e a esposa. Que estão agora submetidos à violência, arbitrariedade e humilhação – a essência do sistema prisional norte-americano.

«Não parece provável que a presidenta, que só é presidenta porque o presidente legítimo, Nicolás Maduro, foi raptado e preso através de uma manobra golpista do regime norte-americano, tenha feito a declaração com o objectivo de apaziguar os inimigos que há muito roubam os bens do país e tudo têm feito para liquidar o regime progressista bolivariano (...).»

Trump, Rubio e as administrações norte-americanas em geral conspiraram, sem descanso, contra a Venezuela livre e independente desde que foi adoptado, por via eleitoral democrática, o sistema político bolivariano. Criaram, financiaram e treinaram os grupos de oposição fascistas que, sobretudo a partir de Miami, atacaram, minaram e desestabilizaram a Venezuela revolucionária. 

O apátrida Juan Guaidó foi transformado em «presidente interino» da Venezuela através de um golpe com máscara institucional, organizado com a colaboração do regime narcotraficante de então na Colômbia. Guaidó, que não se submeteu a qualquer consulta eleitoral, foi reconhecido como presidente por grande número de governos ocidentais, como por exemplo o regime de António Costa/Santos Silva em Portugal.

No entanto, a Venezuela foi o país do mundo que organizou maior número de consultas populares nos últimos 30 anos, fiscalizadas ao nível internacional por observadores independentes e não por aqueles que levam a lição bem estudada para descobrir fraudes onde não existem. E que, por sinal, ignoram fraudes grosseiras em países vizinhos para que ali se mantenha a conveniente «ordem ocidental».

Tais factos nunca suscitaram a atenção dos «verificadores de factos», os «fact checkers» em português anglo-saxónico, por certo por não corresponderem aos requisitos das suas almas censórias. No entanto, mesmo que isso não faça parte da cartilha que guia a informação oficial, a direcção bolivariana nem sempre venceu os actos eleitorais e as consultas populares, designadamente um referendo sobre alterações constitucionais, mas aceitou sempre os resultados e submeteu-se democraticamente a eles.

Apogeu dos apogeus conspirativos foi a entrega do Prémio Nobel da Paz à terrorista profissional e apátrida Maria Corina Machado, a tutora de Guaidó, ideologicamente fascista e que foi sempre uma das figuras da mobilização permanente contra a democracia em Caracas. Corina Machado pediu por escrito e verbalmente, vezes sem conta, a invasão militar daquilo que diz ser o seu país por tropas norte-americanas e o recurso ao terrorismo para derrubar os dirigentes legítimos de Caracas. Esses comportamentos, característicos das altas traições, foram reconhecidos como actos de paz pelo Comité Nobel, uma das atitudes mais vergonhosas deste grupo, mais própria de uma organização mafiosa. Como o Comité Nobel, apesar de tudo, não atribuiu o prémio a Donald Trump, num patético gesto de gratidão Corina Machado entregou-lhe o seu.

Agora, a gratidão ao energúmeno que está na Casa Branca foi retomada pela «presidenta encarregada», que deveria estar exactamente nos antípodas de Corina, cuja única missão é vender a Venezuela aos predadores das suas riquezas.

Alguma clarificação

A operação terrorista contra Nicolás Maduro e a esposa não surpreendeu o mundo, que já se vai habituando ao desaforo das actuações imperiais e ocidentais.

Meia dúzia de comandos, ao estilo de Hollywood, raptaram um chefe de Estado de um país soberano, que não é sequer Grenada ou qualquer outra nação indefesa. E fizeram-no com toda a limpeza, circunstância que, numa interpretação lógica, tornou legítimas as dúvidas sobre a fidelidade patriótica e institucional do mais alto círculo de poder bolivariano em relação ao seu presidente.

A passagem de testemunho para a vice-presidente Delcy Rodriguez como que pretendeu transmitir ao mundo a ideia segundo a qual as estruturas dirigentes bolivarianas resistiram à mudança de regime; mas cedo se percebeu que Trump, o imperialismo e o colonialismo ocidental estavam agradados com este «bolivarianismo», incapaz de mexer um dedo para impedir que o seu presidente fosse raptado.

Apesar de se tratar de um crime que viola, de maneira grosseira, o Direito Internacional e decorre do conceito ilegal e imperial da «ordem internacional baseada em regras», não consta que Delcy Rodriguez tenha recorrido do rapto de Maduro para as Nações Unidas ou para qualquer instituição agregando países americanos; por exemplo, a própria Organização dos Estados Americanos – apesar de subserviente aos Estados Unidos; ou mesmo procurado a solidariedade de países da América e Caraíbas cientes de que o mesmo lhes poderá acontecer, ou já aconteceu, quando desafiam ou desafiaram o patrão do Norte.

Com esta inércia, a «presidenta encarregada» da Venezuela acabou por «legitimar», no quadro do direito penal, o sequestro do presidente do seu país.

«A operação terrorista contra Nicolás Maduro e a esposa não surpreendeu o mundo, que já se vai habituando ao desaforo das actuações imperiais e ocidentais.»

Ora, Delcy Rodrigues sabe, como qualquer cidadão do mundo medianamente informado, que o combate ao narcotráfico é apenas mais um dos pretextos para a actuação do terrorismo internacional comandado pelos Estados Unidos. Nunca o tráfico de ópio foi tão volumoso e rentável como no período de 20 anos em que a NATO ocupou o Afeganistão.

E se o regime mafioso dos Estados Unidos estivesse interessado em combater a maior rede de narcotráfico nas Américas bastar-lhe-ia actuar não na Venezuela mas no Equador, onde o próprio presidente, o multimilionário Daniel Noboa, comanda o negócio. Nos últimos meses, os Estados Unidos enviaram tropas para o Equador com a promessa de combater o narcotráfico, mas a operação decorre em conjunto com o aparelho estatal chefiado por Noboa: tal como no Afeganistão, o verdadeiro objectivo desta acção não é segredo. 

Afinal, depois de tantos anos a recorrer a Corinas, Guaidós e outros oposicionistas apátridas, parece que Trump e Rubio descobriram o caminho das pedras: bastava-lhes raptar o presidente para decapitar o inimigo. Washington atingiu os seus objectivos sem desmantelar de modo formal o regime bolivariano. Apenas «extirpou» o mal e tudo regressou à normalidade democrática, agora reconhecida por Trump, sem que fossem necessárias alterações institucionais golpistas. Entretanto, gigantes da energia apropriam-se já do petróleo da Venezuela, o país do mundo com maior potencial do mundo nessa matéria prima, uma vez que a «encarregada» definiu como uma das suas primeiras medidas a privatização dessa riqueza nacional. Outras se seguirão, com certeza.

A reverência de Delcy Rodriguez a Trump e Rubio fez-se em poucas palavras, mas o seu conteúdo e significado ajudam-nos a compreender melhor todo o alcance da manobra das máfias dos Estados Unidos, sob o aplauso da europeia. De notar que nunca se ouviu uma palavra de agradecimento da «encarregada» ao apoio real, e esse sim humanitário, de Cuba ao povo venezuelano. Uma solidariedade internacionalista sem paralelo nos sectores da saúde, da educação e serviços sociais. Alguns destes cidadãos cubanos perderam a vida durante as suas missões, por serem alvos do terrorismo de matriz norte-americana. Entre os actuais dirigentes de Caracas não há qualquer expressão de gratidão pelo apoio de um país também acossado – e de que maneira – pelos gangues do poder imperial e colonial.

Os venezuelanos parecem condenados a sofrer a sua terceira grande tragédia, depois das sanções e o assédio terrorista e dos terramotos: o regresso a um futuro em que o país é devastado pelos predadores internacionais, enquanto a esmagadora maioria do povo volta a mergulhar na miséria extrema em que penou durante gerações consecutivas, até que Hugo Chávez e o voto popular tiveram a ousadia de desafiar o império. Chávez morto e Maduro raptado, eis que o voto popular venezuelano passa a significar tanto como o dos cidadãos das democracias liberais: contados aos milhões, pouco mais valem do que nada.

Conta a história, o mito ou a lenda que os assassinos do chefe lusitano Viriato, corrompidos durante longas negociações de paz com os romanos, terão ido ao encontro do mais alto dignitário ocupante pedir a recompensa que lhes fora prometida pela execução do crime. E que o general representante do Império lhes respondeu: «Roma não paga a traidores».

Originária ou não da Lusitânia ocupada no séc II a.C., a frase adquiriu âmbito internacional e terá chegado agora à Venezuela. As sementes do recrutamento rentável e da traição parecem ter dado frutos em Caracas. E Caracas declarou-se grata aos seus maiores inimigos por terem fingido uma compaixão que lhes custou alguns patacos, talvez 30 dinheiros; mas não tardará a perceber que as suas recompensas serão as mesmas de que auferiram os assassinos de Viriato.

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