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Putin avisa Trump

Em termos geopolíticos, a severa advertência russa acontece quando os EUA pressionam os aliados europeus para novas sanções contra a Rússia e ameaçam aumentar a sua presença militar no Mar Negro.

Vladimir Putin. Foto de arquivo.
Vladimir Putin. Foto de arquivo. Créditos / wearechange

Na semana passada Vladimir Putin voltou, no espaço de duas semanas, a confrontar a administração norte-americana com as suas políticas contra a Rússia e a preparação desta para as defrontar. Desta vez foi numa reunião ampliada da Junta do Ministério da Defesa, onde começou por sublinhar a discrepância entre os gastos militares dos EUA e da Rússia, que para 2019 são de 725 mil milhões de dólares dos EUA contra 46 mil milhões da Rússia, mas alertou que os americanos não devem tirar conclusões precipitadas disso.

O discurso do presidente russo, em reunião ampliada da Junta do Ministério da Defesa em Moscovo, em 18 de Dezembro1, destaca-se como um tour de force no horizonte do equilíbrio estratégico global.

A sua mensagem desenvolveu-se em três considerações:

1.ª) a modernização das Forças Armadas russas tem sido bem-sucedida e a sua prontidão de combate está ao nível mais elevado de todos os tempos;

2.ª) a Rússia desenvolveu novas armas hipersónicas de imenso poder destrutivo, que estão a começar a ser produzidas em série para serem entregues às forças nucleares estratégicas, armamento para o qual os EUA não têm, de momento, resposta;

3.ª) a Rússia está determinada a garantir que quaisquer tentativas dos EUA de alterar o equilíbrio estratégico a seu favor serão efectivamente contrariadas.

Putin afirmou que as forças aéreas, navais e terrestres russas com capacidade nuclear já atingiram o alto nível de modernização de 82%. E que, entre essas armas, estão algumas de última geração, como o sistema de mísseis Avangard, o míssil Sarmat, o míssil balístico hipersónico lançado por ar, o Kinzhal, armas a laser de combate Peresvet, etc., que iriam multiplicar o potencial do Exército e da Marinha, garantindo assim, de forma fiável e absoluta, a segurança da Rússia nas próximas décadas. Para Putin, essas armas estão a consolidar o equilíbrio de forças e, portanto, a estabilidade internacional. Aos EUA, mandou um recado, não explícito, de que estes novos sistemas contribuem para melhorar o pensamento daqueles que «estão acostumados à retórica militarista e agressiva».

Para o jornal digital Russia Insider, a intervenção de Putin «deve ser vista no contexto da grave queda nas relações EUA-Rússia, nomeadamente com a construção de infra-estruturas da NATO nas fronteiras ocidentais da Rússia e as declarações do governo Trump sobre os EUA se retirarem do Tratado de 1987 sobre as Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF)».

Sobre esta questão, «tal medida terá as mais negativas consequências e enfraquecerá visivelmente a segurança regional e global. De facto, a longo prazo, pode resultar na degradação e até colapso de toda a arquitectura de controle de armas e não-proliferação de armas de destruição em massa. […] No caso de os Estados Unidos violarem o tratado – eu já mencionei isto publicamente e acredito que é importante afirmar mais uma vez, directamente para este público – nós seremos forçados a tomar medidas adicionais para fortalecer a nossa segurança».

Putin avisou que os novos mísseis hipersónicos Kinzhal da Rússia (com velocidade superior a Mach 10 e um alcance intermédio de 2000 quilómetros), actualmente instalados em caças Mig-31, também podem ser modificados «e colocados [...] no solo, se necessário.

Em termos geopolíticos, esta severa advertência russa acontece no momento em que os EUA estão a pressionar os aliados europeus para imporem mais sanções contra a Rússia e a ameaçar aumentar a sua presença militar no Mar Negro, após o incidente do Estreito de Kerch, no mês passado. As tensões estão a aumentar na Ucrânia, que se encontra historicamente no primeiro perímetro da defesa nacional russa.

A Rússia terá colocado jactos de combate Sukhoi Su-27 e Su-30 na base aérea de Belbek, na Crimeia. O ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov disse, com base em informações recolhidas, que a Ucrânia pode realizar movimentos militares provocatórios na fronteira da Crimeia no final deste mês e que as forças armadas ucranianas acumularam cerca de 12 mil soldados e uma grande quantidade de equipamento militar na linha de contacto com a região insurgente do Donbass. Para onde, aliás, seguiam os três barcos interceptados pela Marinha russa. Lavrov revelou que instrutores dos EUA, da Grã-Bretanha e de outros países estão ajudando activamente o desenvolvimento militar ucraniano, enquanto a agência Xinhua referiu que um avião não tripulado dos Estados Unidos está constantemente a sobrevoar a região.

Com a quase certeza de as possibilidades do pró-americano Piotr Poroshenko ganhar um novo mandato nas eleições presidenciais de Março serem virtualmente nulas, um casus belli serviria aos EUA para preparar o terreno para a entrada da Ucrânia na NATO. Putin apenas tocou brevemente no tema da Ucrânia, dizendo que o conflito na região Sudeste «continuou inabalável».

No dia anterior à intervenção de Putin, o comandante do Comando de Mísseis Estratégicos da Rússia, citado pela Inside Russia, coronel-general Sergei Karakayev, disse numa entrevista ao jornal Krasnaya Zvezda que o primeiro sistema de mísseis hipersónicos Avangard, atrás referido, entrará em combate em 2019 na divisão de mísseis Dombrovsky, na região de Orenburg, no Sul dos Urais. De acordo com um relatório da TASS, o Avangard é um sistema estratégico de mísseis balísticos intercontinentais equipado com um veículo capaz de voar a uma velocidade hipersónica nas densas camadas da atmosfera, manobrando a sua trajectória de voo e a sua altitude e fugindo a qualquer defesa anti-míssil.

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