|Imperialismo

A demência nos uivos da guerra

Para servir os interesses dos EUA, nomeadamente para reduzir as suas dívidas e os seus deficites comerciais, Trump vai inventando inimigos.

Donald Trump
Donald TrumpCréditosJim Lo Scalzo / EPA

Nos últimos quinze dias Trump desencadeou um novo surto de atitudes que contrariam intenções de regulação de conflitos internacionais em que os EUA mostraram antes estarem em condições de participar e que, por outro lado, confrontam a tradicional vassalagem de bom número de países europeus com afirmações de chantagem rasteira, dignas de um capo de famiglia e com sinais de demência nas sucessivas proclamações.

Tudo preocupante, muito preocupante.  

Foram, sucessivamente, as manobras aeronavais nas costas da Coreia do Norte, a tentativa de reduzir a «desnuclearização» da península coreana à desnuclearização exclusiva e integral da Coreia do Norte, apesar do respeito dos compromissos assumidos de destruição das bases de testes nucleares, e agora o golpe de teatro do cancelamento por Trump da reunião de 12 de Junho com Kim Jong-un.

A embaixada dos EUA em Israel passar para Jerusalém e a contemporização com o massacre simultâneo de dezenas de palestinianos pelas forças de Netanyahu. A chantagem sobre países europeus para adoptarem sanções reais contra o Irão e saírem do acordo multinacional obtido há poucos anos com Teerão.

A crítica à Alemanha e a outros países que importam petróleo da Rússia, violando a sanções contra este país, com ameaças explícitas em ambos os casos aos «aliados desleais».

A exigência aos membros da NATO que cumpram com o objectivo de contribuição para a Defesa de 2% dos respectivos PIB dos seus países para o orçamento da aliança (leia-se para comprarem mais armamento militar fabricado nos EUA).

A permanência da guerra das taxas de importação para com produtos oriundos da China e de países europeus, que foi motivo de negociações com a China no que a ela respeita, mas logo seguido da insinuação de Trump que a China estaria a fazer a Coreia do Norte reduzir a flexibilidade de Kim Jong-un em negociar a desnuclearização da península coreana.

Nos dias que estão a decorrer, a elaboração de acordos obtidos com a Arábia Saudita onde a troco de volumosos investimentos desta nos EUA, os EUA venderão ainda mais material de guerra sofisticado aos sauditas, acordando instalações nucleares próprias pela primeira vez.

A tentativa de golpe militar na Venezuela conduzido pela embaixada americana na véspera das eleições presidenciais e na proibição a cidadãos venezuelanos residentes nos EUA em votarem nessas eleições.

Na quinta-feira passada, aviões da coligação liderada pelos EUA bombardearam instalações militares sírias na região de Deir Ezzor mas os seus mísseis acabariam por ser destruídos pelo sistema antimíssil sírio.

É claro que por detrás da limpidez arruaceira de Trump, outros actores procuram posicionar-se melhor em diferentes tabuleiros geoestratégicos, não podendo disfarçar-se com máscaras de beatitude (Macron a querer posicionar-se como líder da Europa disputando com Merkl esse pódio, Erdogan projectando maior protagonismo no Médio Oriente, Netanyahu querendo alargar as suas fronteiras, arrasando palestinianos e libaneses, etc.).

Neste ano registou-se a terceira tentativa de reunificação das duas Coreias, separadas entre si após a Guerra da Coreia de 1950-1953 e a intenção da desnuclearização total da península coreana. Nos dois casos anteriores, a influência e chantagem dos EUA sobre o Sul e o acomodamento de governos conservadores a elas foram decisivos para derrubar as esperanças de reunificação de ambos os lados do «paralelo 38» e congelar projectos muito concretos no plano político e institucional que então tinham sido feitos entre negociadores de ambas as partes.

Neste ano, com a ajuda do ambiente criado pelos Jogos Olímpicos de Inverno, foi possível nova tentativa, desta vez protagonizada pelo Presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-un e pelo novo primeiro-ministro sul coreano Moon Jae-in, num gesto de grande coragem de ambos, que semanas antes seria impensável.

Há cerca de um mês, com um prolongado aperto de mão e um abraço caloroso ambos os dirigentes iniciaram o caminho no lado sul-coreano da zona desmilitarizada da Coreia (ZDC), com a assinatura de um acordo onde ambos firmaram o seu compromisso com «uma nova era de paz» e com a «desnuclearização da Península da Coreia».

E Moon Jae-in afirmaria então: «Vamos transformar as relações da Península da Coreia em terra, no mar e no ar. Vamos suspender todas as formas de hostilidades», sublinhando ainda que «não vamos voltar atrás no tempo».

É certo que as negociações foram acompanhadas antes quer pela China, quer pelos EUA, países que declarariam no dia seguinte o seu acordo e esperança que viesse a consolidar-se. Dias depois ficou aprazado, com data marcada para 12 de Junho, a reunião entre Donald Trump e Kim Jong-un em Singapura e, apesar de abalada pelas manobras militares, ambos os líderes mantiveram essa marcação apesar de chantagens de última hora por parte de Trump, que acabou por a desmarcar exactamente quando a Coreia do Norte procedia à destruição, testemunhada pela imprensa internacional, dos locais dos testes nucleares anteriores.

Não é segredo de polichinelo que os EUA têm grande influência sobre os dirigentes militares do Sul mas também é certo que as forças armadas obedecem ao primeiro-ministro por imperativo constitucional. É, por isso incompreensível que, após esta dinâmica de reconciliação, se tenham realizado poucos dias depois do anúncio da visita do dirigente norte-coreano aos EUA, manobras das Marinhas e Forças Aéreas da Coreia do Sul e dos EUA, adiadas em virtude dos Jogos em Seul, mas em que os EUA usaram um novo caça e um B-52, próprios para ataque e invasão de  território «inimigos».

E como se isto não bastasse, Trump nomeou como novo embaixador em Seul um ex-comandante da Base de Guantánamo e chefe do bombardeamento marítimo, liderado pelos EUA na Líbia, em 2011, e que actualmente era responsável por todas as operações da Marinha dos EUA na Ásia. 

Ao mesmo tempo, John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, ameaçou que o governante norte-coreano Kim Jong-un seguiria o destino de Kadhafi se «não fizesse o acordo» sobre a desnuclearização. O vice-presidente Mike Pence assinaria por baixo. Para mais tarde Bolton rectificar, dizer que «o modelo da Líbia» não fazia parte dos planos para lidar com Pyongyang… se ele não chegasse a um acordo com os EUA. 

«Ao mesmo tempo, John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, ameaçou que o governante norte-coreano Kim Jong-un seguiria o destino de Kadhafi se "não fizesse  o acordo" sobre a desnuclearização.»

O regime em Pyongyang reagiu fortemente contra as declarações no fim-de-semana anterior a isso e a que a Coreia do Norte teria que desmantelar o seu arsenal nuclear completa e imediatamente. Um porta-voz da RPDC disse então que Kim não participaria numa cúpula com objectivos tão «unilaterais» mas estava empenhada em realizá-la.

A rejeição das declarações de Bolton e Pence levaram a que Trump suspendesse a cimeira com Kim Jong-un, com a manifestação de desacordo com essa atitude por parte da Coreia do Sul, da Rússia e da China.

E como se isto não bastasse, Trump nomeou como novo embaixador em Seul um ex-comandante da Base de Guantánamo e chefe do bombardeamento marítimo, liderado pelos EUA na Líbia, em 2011, e que actualmente era responsável por todas as operações da Marinha dos EUA na Ásia. 

A cimeira europeia na Bulgária, na passada semana, confrontou-se com as chantagens e humilhações que Trump tem tido para com vários países europeus, a propósito das suas relações exteriores e parcerias comerciais.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk criticou a administração Trump por ser de «assertividade  caprichosa», glosando  a frase célebre «com amigos assim quem precisa de inimigos?». E disse «pensar que o verdadeiro problema geopolítico não é ter um opositor imprevisível, ou inimigo ou parceiro, o problema é quando o nosso melhor amigo se torna imprevisível», afirmou Tusk.

Por seu lado, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, referindo-se à discussão sobre as relações externas da União Europeia, sublinhou que «não vamos negociar com uma espada de Dâmocles pendurada sobre nossas cabeças».

Entretanto, ao mesmo tempo, Trump usava uma reunião com membros da NATO na Sala Oval da Casa Branca para verberar os membros da Aliança por uma «injusta partilha de encargos» e «deslealdade», procurando atingir em particular a Alemanha por ser um contribuinte deficitário para ela «de longa data» e por «comprar enormes quantidades de gás à Rússia na ordem de milhares de milhões de dólares», isso era «algo que vamos discutir» até porque a NATO, ao abrigo da Enhanced Forward Presence, tem aumentado as instalações militares ao longo da fronteira ocidental da Rússia que lhe confere acrescida capacidade ofensiva.

Nessa reunião, virando-se para o secretário-geral da NATO, o ex-ministro norueguês da Defesa, Jens Stoltenberg, Trump ordenou: «Penso que você saberá tratar dos que não contribuíram, certo?»

Trump, por razões comerciais, apaga os compromissos eleitorais que teriam estado na base da vontade expressa de se «dar bem com a Rússia». Afinal, a Rússia seria inimiga porque a Alemanha é particular beneficiária do fornecimento de gás do Báltico à Europa através do Nord Stream da Gazprom e, talvez por isso, ela e outros países não estarem a cumprir com os 2% para a NATO.

Trump chegou mesmo a referir-se às relações comerciais normais com a Rússia como um sinal de «traição». Para servir os interesses dos EUA, nomeadamente para reduzir as suas dívidas e os seus deficites comerciais, Trump vai inventando inimigos, mandando às urtigas os princípios da livre concorrência nas relações internacionais que, no início do processo de globalização capitalista, eram sagrados para os EUA. E como os amigos do seu inimigo, para além dos mais «relapsos» nas contribuições para NATO, serão tudo menos seus amigos, Trump atirou-se aos velhos aliados europeus – «países  desleais» –  como gato a bofe, com algumas excepções1.

Os EUA, que criaram a NATO, no final da 2.ª Guerra, para combater a «ameaça» dos então países socialistas, serviram-se dela – e os restantes «aliados» também se serviram ou deixaram servir para uma série de intervenções militares verdadeiramente criminosas. A começar na própria Europa, com o esfrangalhar da ex-Jugoslávia e do genocídio que permitiu.

Para intervenções não cobertas pela ONU em países como a Líbia, em que a destruição dum estado moderno, o assassinato, gravado para televisões de todo o mundo do seu líder Kadhafi, e a transformação deste país numa federação de gangues mafiosos, inclusivamente pela tragédia de imigrantes subsaarianos, recrutados por «negreiros», dos quais uma boa parte jaz nas águas mediterrânicas. Ou do ataque ao Iraque com estilos e consequências idênticas. 

Jorge Cadima referiu há dias no Avante!  que «Todas as guerras dos EUA/NATO no último quarto de século violaram a legalidade internacional. A Resolução da ONU (1244) que pôs fim aos bombardeamentos da Jugoslávia pela NATO (com Clinton) reafirmava «a soberania e integridade territorial da República Federativa da Jugoslávia», que foi de seguida desmembrada. O Iraque e a Líbia assinaram acordos de desarmamento mas foram atacados pelos EUA/NATO, e os seus dirigentes assassinados (com Bush e Obama). Para o imperialismo norte-americano, acordos e o desarmamento de terceiros são meros passos que facilitam futuras agressões»2.

Que autoridade moral assiste então aos EUA, para exigir que os países europeus alimentem os lucros do seu complexo militar-industrial, com a aquisição com os tais 2% de cada vez mais armas, que anualmente já se juntam a mais de 3% do seu PIB, verbas da ordem dos 700 milhares de milhões de dólares para o orçamento federal.

«De facto, à semelhança da lógica da criação de forças de paz noutros pontos do mundo, o actual secretário-geral da ONU e os seus antecessores tiveram medo de suscitar esta questão em relação aos sucessivos massacres de palestinianos.»

Valores que a administração americana mantém e não pode impor a outros porque isso corresponde a uma opção de fundo de porem esse complexo a sustentar a economia. Sendo que, seguramente é, em opções como essa, que a economia norte-americana sofre distorções.

Nesta dinâmica de algum distanciamento da administração norte-americana, Macron e Putin aproveitaram o Fórum Económico Internacional de S. Petersburgo para uma troca de impressões sobre como solucionar a crise na Síria, na Líbia e no processo de paz no Médio Oriente, bem como sobre a situação no leste da Ucrânia. Por sua vez, Angela Merkl avistou-se em Pequim com o presidente chinês para o desenvolvimento das relações bilaterais.

Ainda na referida reunião da Sala Oval, Trump disparou de novo contra o Irão para uma vez mais chantagear países europeus «desleais». A associação do Irão à disseminação do «terrorismo» seria um desafio que a NATO teria de defrontar.

Trump quis que a NATO subscrevesse que o Irão é um estado inimigo que deve ser confrontado pela aliança, em todo, afirmou com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, sentado ao seu lado.

Depois de Trump ter saído do acordo nuclear multilateral com o Irão na semana anterior, a União Europeia quis mostrar um «cerrar de fileiras» na Bulgária para apoiar o acordo, tendo os seus dirigentes nesta cimeir​​​a assente apenas que as empresas europeias que fazem negócios com o Irão têm de estar protegidas das sanções impostas pelos EUA a Teerão.

Tusk referiu que «Quanto ao acordo nuclear com o Irão, concordámos em como a União Europeia se manterá no acordo enquanto Teerão mostrar empenho em prosseguir na mesma via». 

Os EUA e a UE deveriam ter em conta que novas sanções contra o Irão poderão tornar o yuan preferível ao dólar no mercado de petróleo. Desde o seu lançamento em Maio, o interesse nos contratos de petróleo apoiados no renminbi têm subido constantemente.

Os volumes diários negociados atingiram o recorde de 250.000 lotes na última quarta-feira, e a participação dos contratos em yuan no comércio global saltou de 8% em Março para 12%.

«Os contratos disparam», segundo Stephen Innes, director de operações para a Ásia/Pacífico da corretora de futuros OANDA, em Singapura, citado pela Reuters. «Faz sentido para o Irão começar a vender petróleo em contratos baseados em yuans em vez de dólares.» 

A China é o maior consumidor de petróleo do mundo e também compra boa parte do petróleo do Irão, que é um grande produtor da OPEP. Pequim recebe 25% das exportações de petróleo do Irão, o que representa oito por cento de suas necessidades.

A China está a ganhar economicamente. Enquanto os EUA deixam o acordo, Pequim pode atrair empresas europeias para trabalhar com a China no Irão, isolando Washington e preenchendo o vácuo dentro do imenso mercado iraniano.

Ao usar mais yuans no comércio de petróleo, Pequim economiza os custos da troca em dólares e promove o renminbi como moeda global, dizem os analistas. Na semana passada, as cotações em Xangai subiram para um recorde em alta de 75,40 dólares por barril, crescendo mais rapidamente do que os benchmarks Brent e WTI.

Um dos maiores prejudicados com o retomar das sanções será a Boeing, a multinacional norte-americana que detém a maior empresa aeronáutica mundial, que irá perder um lucrativo contrato de 20 mil milhões de dólares.

A França e a Inglaterra seriam particularmente atingidas pelas consequências de retomarem sanções ao Irão. Como no comércio com a Rússia, cujas sanções os EUA decretaram levando os seus vassalos europeus à arreata, isso significaria que os membros europeus da NATO que continuem a procurar investimentos e negócios no Irão estão a «colaborar» com o inimigo.

Os EUA não têm autoridade moral para esperar que os outros obedeçam às suas ordens quando são os EUA a desconsiderar as resoluções das Nações Unidas e a legislação internacional, escolhendo quais regras que se lhe aplicam e quais regras que não, dependendo dos seus próprios interesses ou de interesses de aliados «leais».

Israel prepara um ataque nuclear contra o Irão há muitos anos. Israel dispõe de centenas de bombas nucleares. O Irão não tem nenhuma, tendo apenas um programa nuclear para fins civis.

Não pode passar no desconhecimento geral que toda esta campanha contra o programa nuclear iraniano (civil e não militar), que levou ao Acordo, de que os EUA se afastaram agora, pretende esconder que há cerca de meio século Israel tem criado um arsenal de armas nucleares em Dimona, com o apoio dos EUA e da França, que nunca quis reconhecer, e que dispõe da capacidade de ter 200 ogivas nucleares prontas para disparar contra o Irão, conforme mensagem escrita por Colin Powel em 3/3/2015, já tornada pública.

Hoje em dia, segundo o analista Manlio Dinucci, Israel dispõe de um arsenal nuclear de entre 100 e 400 armas atómicas, que incluem bombas nucleares tácticas e bombas de neutrões de nova geração. Israel produz plutónio e trítio em quantidades suficientes para construir centenas de armas atómicas. As ogivas nucleares israelitas encontram-se prontas a serem usadas, tal como os mísseis balísticos como o Jericó 3.

Para usar estas armas nucleares, Israel dispõe de outros vectores como os aviões F-15 e F-16, fornecidos pelos EUA, a que se juntaram agora os F-35, também fabricados nos EUA.

Entretanto, as numerosas inspecções da Organização Internacional da Energia Atómica (OIEA) têm confirmado que o Irão não tem armas atómicas e que está a submeter-se pontualmente aos controlos internacionais previstos no Acordo.3.

É evidente que EUA, Israel e agora Arábia Saudita se preparam para dispor de armas nucleares contra o Irão. O invocado apoio ao Hezbollah e à defesa da Síria por parte do Irão, são pretextos grosseiros para esconderem essa realidade.

A atitude de Trump, ao deslocar a embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém desencadeou uma tempestade no povo palestiniano, oprimido e preso dentro do seu próprio território, no decurso da sua Marcha do Regresso. Dezenas de mortos, assassinados pela soldadesca israelita, foram com naturalidade aceites por Trump que, uma vez mais quis fazer do massacre uma expressão do combate ao terrorismo de origem iraniana…

Esta atitude é apenas mais uma das que os EUA têm tido ao longo de 70 anos desde a criação do estado sionista de Israel, numa dramática sucessão de massacres, invasões, inviabilização do estado palestiniano pela desintegração física e bloqueio à circulação, atentados e liquidações de dirigentes e activistas por snipers e drones.

A abertura da embaixada dos EUA em Jerusalém no 70.º aniversário da fundação do Estado de Israel ou, como os palestinianos a vêem, o Dia Nakba –  quando 700 mil árabes fugiram ou foram expulsos de suas casas durante a guerra de 1948 –  provou ao mundo o desinteresse dos EUA em promoverem verdadeiras e genuínas soluções pacíficas para o conflito de Israel com a Palestina.

A moral de alguns diplomatas norte-americanos terá sido afectada, pelo que o novo Secretário de Estado Mike Pompeo se veio gabar da «integridade essencial» que os EUA têm na abordagem de questões globais.

O Departamento de Estado divulgou passagens de comentários seus, exortando os diplomatas desmoralizados dos EUA a agir com firmeza e agressividade enquanto conduzem as políticas externas do governo Trump, assegurando-lhes que a causa dos EUA é justa.

Depois do banho de sangue de Gaza, a maioria dos governos árabes reagiu condenando o comportamento do exército israelita. Os países muçulmanos queriam ir mais longe na cimeira de Istambul convocada pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Os representantes dos cinquenta e sete países, agrupados na Organização da Cooperação Islâmica (OCI), pediram no dia 18 de Maio, «protecção internacional para o povo palestiniano, inclusive com o envio de uma força de protecção internacional», de acordo com o comunicado final da cimeira.

De facto, à semelhança da lógica da criação de forças de paz noutros pontos do mundo, o actual secretário-geral da ONU e os seus antecessores tiveram medo de suscitar esta questão em relação aos sucessivos massacres de palestinianos.

É o que vale Israel dispor de armas nucleares, mesmo ao arrepio de qualquer comunicação à AIEA e à não autorização de qualquer investigação no complexo nuclear militar de Dimona.

A abertura decidida pelo Presidente Sissi da fronteira de Gaza com o Egipto durante 30 dias consecutivos para o Ramadão, que está a decorrer, constituiu algum alívio para os palestinianos.

E quem foi o «democrata» que se seguiu a instalar embaixada em Jerusalém? O presidente corrupto da Guatemala, que ao mesmo tempo exigira a mudança dos Embaixadores da Suécia e da Venezuela. Porque ambos os diplomatas apoiaram muito activamente a Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala, CICIG).

Este organismo, criado pelas Nações Unidas e aprovado pela Assembleia guatemalteca, está encarregue de auxiliar o Ministério Público e a Polícia do país. O Presidente Jimmy Morales já tentara expulsar o Presidente da Comissão depois de esta ter iniciado uma investigação sobre o financiamento da sua campanha eleitoral. Trump e Nethanyau ficaram muito bem acompanhados da fotografia…

E quem são os vassalos seguintes? Os governos de direita do Panamá e do Chile, agradecidos aos massacres que, directa ou indirectamente os EUA promoveram através do derrube de presidentes e maiorias legislativas de esquerda, democraticamente eleitos pelos respectivos povos.

A repressão do protesto civil da população de Gaza com armas militares valeu a Israel a abertura de uma investigação, aprovada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, e que se debruçará também sobre as acções na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Votaram a favor 29 países, 14 abstiveram-se, sendo os únicos votos contra os dos EUA e da Áustria. Claro, da Áustria que tem um governo de extrema-direita…

Invocando o receio de violência durante o Ramadão, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu sustentou que «os meios não-letais não funcionam» e ameaçou reactivar a política de assassínios selectivos contra dirigentes do Hamas se as manifestações de protesto continuarem.

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Reflecti há dias no Facebook sobre como lidar com Israel na complexa negociação para a paz no Médio Oriente para que esta conduza a resultados efectivos.  Israel saiu de Gaza em 2005 mas a faixa está cercada há mais de dez anos. Ali a ONU prevê que ninguém consiga viver dentro de uma década.

Rússia, China e alguns grandes países desempenham hoje um importante papel para atenuar tensões regionais e de impacto global, para encontrar solução para os conflitos através de negociações entre partes, em que necessariamente como em qualquer processo negocial existem cedências de parte a parte, para reduzir a margem de manobra e tentar acabar com o terrorismo, para associar a todos estes esforços diplomáticos meios de desenvolvimento dos países mais desprovidos de quase tudo.

Esta é uma realidade que convive com o papel negativo dos EUA, da União Europeia e de Israel. A operação da instalação da embaixada americana em Jerusalém que, de acordo com as decisões da ONU é capital simbólica de dois estados – o palestiniano e o israelita – é uma machadada forte nos esforços de paz.

O isolamento internacional dos protagonistas deste acto e o massacre de dezenas de palestinianos hoje, que se somam a mais outras dezenas nos meses anteriores, exigem uma clarificação das relações com Israel. Há dias, Israel voltou a enviar mísseis contra a capital síria de Damasco.

O correspondente do Expresso em Gaza, Julio de la Guardia, descrevia há dias a situação naquele território, através do relato de uma habitante ocasional daquela faixa da Palestina: «Gaza está sitiada há mais de dez anos. Nem sequer há água. A única que existe é salgada. Apenas água do mar. Uma pessoa sente-se pegajosa todo o dia. Todos os dias, há anos. E, de vez em quando, um F-16 aparece e lança bombas. De vez em quando, de repente, morre-se. Já nos habituámos aos números brutais de Gaza. Quase dois milhões de palestinianos vivem aqui e 80% vivem da ajuda humanitária: 50% sofrem de “insegurança alimentar”, segundo o jargão da ONU, 50% passam fome e 45% têm menos de 15 anos. 
Em Gaza só se tem electricidade quatro horas por dia. O que significa que, durante as outras 20 horas, os hospitais não têm ventiladores, não têm incubadoras. Não têm luz nas mesas de operação. E, contudo, há uma palavra em Gaza que diz mais do que todos estes números: Tramadol. Que é um analgésico. Um analgésico para cães. E é a droga mais popular aqui. 
Muitos jovens de todo o mundo usam ecstasy, cocaína, metanfetaminas para se sentirem despertos até ao amanhecer. Em Gaza, contudo, quem está na faixa dos 20 anos só quer adormecer e esquecer. A cada dois ou três dias, há uma tentativa de suicídio. Nos últimos dez anos, Israel proibiu até a entrada de lápis, brinquedos, instrumentos musicais, bolachas e batatas fritas. Calculou que, para se manterem vivos, os palestinianos precisavam de 2279 calorias cada: e proibiu tudo o resto».

O presidente Putin levou Netanyahu e o presidente da Sérvia para o seu lado, no desfile da vitória no início deste mês em Moscovo, e os contactos entre responsáveis de ambos os países tem-se traduzido num fechar de olhos ou aquiescência por parte da Rússia a ataques contra instalações de brigadas militares de origem iraniana e do Hezbollah em território sírio. 

Entretanto as negociações para a paz na Síria prosseguiram em Astana, capital do Cazaquistão, promovidas pela Síria, Rússia e Irão, com a ONU e a Turquia como observadores e a participação da oposição síria, que não inclui os grupos terroristas, entretanto derrotados e removidos das zonas de influência, que nelas não quiseram participar por uma questão de princípio de não-aceitação da negociação que reconhecesse as instituições do Estado Sírio.

E deixaram as portas abertas a acordos de aceitação internacional mais vastos, que possam incluir os EUA e a UE nomeadamente. É certo que é difícil para tais protagonistas reconhecerem a derrota, que custou centenas de milhares de vidas humanas numa luta que levou à derrota dos grupos terroristas que armaram durante anos e que nunca partilharam com Damasco a ideia de negociar uma paz para o conflito.

É certo que são complexos os compromissos a obter até uma paz promissora mas isso não pode levar à aceitação das já referidas atitudes de Israel nem ao abandono do direito dos palestinianos a terem o seu estado, que não o campo de concentração em que hoje a Cisjordânia e, particularmente, a faixa de Gaza vivem. A Rússia e também a China terão que ter isto em linha de conta.

Há dias, em entrevista à RussiaToday, a ex-candidata republicana independente às últimas eleições presidenciais norte-americanas, Souraya Faas, declarava: «A única maneira de estabelecer a paz mundial é os Estados Unidos pararem de se intrometer noutros países e concentrarem-se no que realmente importa para o povo americano – "Tornar a América Grande Outra Vez"».

Para esta republicana desassombrada hoje em dia, a política externa americana reflecte apenas os interesses de alguns dos seus aliados e não os interesses do povo americano, como Trump tinha prometido em matéria de política externa. E que nunca existirá paz verdadeira e genuína no Médio Oriente quando os EUA estiverem a fazer o contrário do que importa fazer.

E vai mais longe ao afirmar que «Não por culpa própria, o povo do Médio Oriente se vê envolvido em rivalidades políticas e tensões religiosas e étnicas alimentadas pelos países ocidentais, cujos constantes jogos de cabos-de-guerra se concentram apenas no garantir dos seus próprios interesses».

  • 1. Reino Unido, Polónia, Grécia, Roménia, Lituânia, Letónia e Estónia – os «amigos leais»…
  • 2. Jorge Cadima, «A pútrida classe dirigente dos EUA só conhece a violência», 17 Maio 2018, Avante!
  • 3. voltairenet.org/article201175.html, Manlio Dinucci «200 armas nucleares apontadas ao Irão»

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