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«As nossas vidas, os lucros deles»: esquerda mobiliza-se contra Cimeira da Saúde

Várias organizações em Itália fizeram um apelo à mobilização em defesa da Saúde pública e do acesso equitativo às vacinas, quando se aproxima a Cimeira Mundial da Saúde, em Roma.

Organizações itaçlianas vão protestar a 21 e 22 de Maio, durante a Cimeira Mundial da Saúde, organizada pelo G20 e a Comissão Europeia. Na imagem, um protesto, em Abril, em defesa das vacinas como bem público comum 
Organizações itaçlianas vão protestar a 21 e 22 de Maio, durante a Cimeira Mundial da Saúde, organizada pelo G20 e a Comissão Europeia. Na imagem, um protesto, em Abril, em defesa das vacinas como bem público comum Créditos / Peoples Dispatch

No dia 21 de Maio, caberá ao ministro italiano da Saúde, Roberto Speranza, fazer a abertura da Cimeira Mundial da Saúde, co-organizada pela Comissão Europeia e pelo G20, grupo das maiores economias mundiais, a que Itália preside este ano. Em resposta ao evento, diversas organizações sociais e partidos lançaram um apelo à mobilização para 21 e 22 de Maio. O Potere al Popolo! agendou uma manifestação nacional na capital para o próximo sábado.

Giuliano Granato, porta-voz nacional recentemente eleito desta coligação de esquerda, explicou ao Peoples Dispatch as razões da mobilização: «Já sabemos o que vai ser dito nestas reuniões do G20: muitas frases vazias sobre a necessidade de acelerar a campanha de vacinação, alguns fundos para a iniciativa Covax, que redistribui uma escassa quantidade de vacinas – sobretudo restos – ao Sul Global, mas nada de concreto será feito para abordar a verdadeira questão: a produção insuficiente de vacinas.»

A razão por trás desta falta é bastante conhecida: para manter margens de lucro extremamente elevadas, as multinacionais farmacêuticas mantêm as patentes sobre as vacinas, garantindo assim o monopólio e excluindo da produção laboratórios da maior parte do mundo, destaca o portal, accrescentando: «É espantoso que, no meio de uma pandemia, as vacinas e outros medicamentos produzidos através da investigação pública e pagos com os impostos de todos tenham o acesso restrito por patentes privadas.»

O Peoples Dispatch afirma que a opinião pública mundial é favorável a que as patentes se tornem do domínio público, e lembra que a Índia e a África do Sul apresentaram uma moção na Organização Mundial do Comércio, apoiada por mais de 100 países, a favor da suspensão da legislação das patentes – tal como o fez o director-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, mais de cem vencedores do Prémio Nobel e 75 antigos dirigentes mundiais. Em Itália, uma petição a solicitar o fim das patentes sobre as vacinas já obteve quase 50 mil assinaturas.

O lucro à frente do interesse público

Para alguns políticos, defender os interesses de umas quantas  multinacionais farmacêuticas está acima do interesse público mundial de controlar a pandemia o mais rapidamente possível. Enquanto essas grandes empresas lucram milhares de milhões, o Banco Mundial estima que, só em 2020, mais 100 milhões de pessoas tenham caído para o nível da pobreza extrema (menos de 1,9 dólares por dia).

O posicionamento neoliberal condena os países mais pobres e põe em risco as próprias populações no Ocidente. Giuliano Granato afirma: «Se não interviermos imediatamente, garantindo o aumento da capacidade de produção, existe o risco de novas vagas de coronavírus resistentes aos medicamentos actuais.»

O vírus pôs em causa os modelos da Saúde privada há muito alimentados pelo neoliberalismo, uma vez que a sua lógica de lucro máximo se mostrou inteiramente ineficaz na prevenção da doença. Países ricos, grandes potências económicas viram-se à mercê de pequenos países como Cuba, sem grandes recursos económicos, mas cujo modelo de desenvolvimento assenta na defesa da saúde e da investigação públicas, e que é direccionado para a melhoria das condições de vida das populações.

Nos países ricos, os recursos para construir um sistema de Saúde público e eficaz existem em abundância, sublinha o Peoples Dispatch, mas dispersam-se num modelo – capitalista – que distribui os fundos pelos accionistas das multinacionais. Aqui, acumula-se a riqueza dos multimilionários, que maior ficou em tempos de pandemia, de crise sanitária e de outras crises.

Em Roma, é tempo de luta pelo público

«Confrontados com um sistema que é injusto e ameaça a nossa sobrevivência, temos de o reverter, começando por tornar as patentes sobre vacinas inteiramente públicas. Com o festival poderoso do G20 em Roma, temos de nos unir para garantir que os nossos interesses são ouvidos», acrescentou Granato, que apelou à mobilização nos dias 21 e 22 de Maio.

As organizações e partidos aderentes fazem três exigências fundamentais. A produção das vacinas em larga escala sob controlo dos trabalhadores e o fim da privatização das patentes, bem como a produção massiva de testes e a testagem em massa, a começar pelos mais vulneráveis e mais expostos.

Um sistema de Saúde inteiramente público, assente na prevenção e na intervenção comunitária, contra a privatização deste sector – que bem mostrou ser ineficaz a defender a Saúde de todos.

Uma redistribuição radical da riqueza, que passa por um sistema tributário mais justo e pela taxação das grandes fortunas, especialmente dos super-ricos; a criação de um rendimento único de emergência que proteja as pessoas dos efeitos desta pandemia; o aumento geral dos salários – contra aqueles que querem que os trabalhadores paguem os custos da pandemia.

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