|Síria

A libertação de Raqqa foi «varrê-la» do mapa

O Ministério da Defesa russo acusou este domingo a coligação liderada pelos EUA de ter dado à cidade síria o mesmo «destino de Dresden, em 1945». Entretanto, os curdos parecem querer estabelecer-se como poder na cidade.

A cidade de Raqqa, destruída pelos bombardeamentos da aviação e da artilharia, após intensos meses de combate
A cidade de Raqqa, destruída pelos bombardeamentos da aviação e da artilharia, após intensos meses de combateCréditos / The Independent

A cidade de Raqqa, capital da província homónima, tornou-se conhecida por ser na Síria o bastião do Daesh, desde o início de 2014. Na semana passada, as Forças Democráticas Sírias (FDS), curdas na sua maioria, anunciaram a libertação da cidade, ao cabo de um mês de assalto no terreno e de anos de intensos bombardeamentos por parte da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos da América.

A administração norte-americana e alguma imprensa ocidental vieram a terreiro louvar «o fim do Califado» ou sublinhar como a libertação deixava a nu «os anos terríveis da dominação do Daesh», mas a questão assume outros cambiantes quando outros meios de comunicação social – alguns ocidentais – recordam que, da cidade onde chegaram a viver mais de 200 mil pessoas, restam escombros.

«o número de civis mortos pelos bombardeamentos da coligação internacional em Raqqa é superior ao registado em Mossul»

E há registos, acessíveis, de vários comunicados em que o governo de Damasco reiteradamente denuncia os «massacres» e «crimes» perpetrados contra os civis da cidade pela coligação internacional, que desde o início agiu sem autorização do governo sírio e sem mandato das Nações Unidas, com o pretexto de estar a combater o Daesh [o chamado Estado Islâmico].

De acordo com a RT, o número de vítimas civis provocado pelos bombardeamentos da coligação internacional liderada pelos EUA em Raqqa é superior ao registado em Mossul, no Iraque, onde a coligação também foi acusada de arrasar a cidade e de provocar inúmeros «danos colaterais».

«Varrida da face da terra»

Num comunicado emitido ontem, o Ministério russo da Defesa levantou várias questões a propósito da libertação anunciada, acusando os EUA de terem varrido Raqqa da «face da terra», tal como aconteceu com «Dresden em 1945, que foi varrida do mapa pelos bombardeamentos anglo-americanos», indica o The Independent.

Em representação do ministério, o major-general Igor Konashenkov disse que a Federação Russa considerava bem-vindas as promessas feitas por vários países ocidentais de ajuda à reconstrução de Raqqa. Sublinhou, no entanto, a disparidade de critérios existente, tendo em conta que «inúmeros pedidos de ajuda humanitária aos civis sírios noutras partes do país», feitos pela Rússia, ficaram sem resposta por parte dos países ocidentais.

«a ONU estima que 80% dos edifícios em Raqqa não possuam condições de habitabilidade»

Neste sentido, Konashenkov acusa o Ocidente de se apressar a ajudar Raqqa «para encobrir os seus próprios crimes». Por trás desta «pressa das capitais ocidentais em dar apoio financeiro» apenas a Raqqa, «só há uma explicação – o desejo de esconder, o mais depressa possível, as provas dos bombardeamentos bárbaros realizados pela aviação dos EUA e da coligação, e enterrar os milhares de civis "libertados" do Daesh nestas ruínas», disse, citado pelo The Independent.

O sarcasmo do general aponta para factos concretos. Depois de anos de bombardeamentos, intensificados nos últimos meses, as Nações Unidas estimam que 80% dos edifícios em Raqqa não possuam actualmente condições de habitabilidade. A RT refere, com base em informação de repórteres no terreno, que todas as casas da cidade foram atingidas pelos combates. Dos cerca de 250 mil habitantes que Raqqa chegou a ter restam hoje 45 mil.

Da «aniquilação» ao acordo, e os curdos

O secretário norte-americano da Defesa, James Mattis, já tinha anunciado que «a aniquilação do Daesh» iria provocar baixas entre a população civil ou «danos colaterais», e não fugiu à verdade.

Já em Junho um representante das Nações Unidas afirmava que «a intensificação dos ataques aéreos, que prepararam o terreno para o avanço das [chamadas] Forças Democráticas Sírias (FDS), não só provocou uma espantosa perda de vidas civis, mas levou também a que mais de 160 mil civis fugissem de suas casas, tornando-se deslocados internos».

Se Mattis acertou nos elevados «danos colaterais», já não parece ter sido tão certeiro quanto à «aniquilação do Daesh», uma vez que os combates terminaram na sequência de um acordo entre as FDS (os homens no terreno do Pentágono) e os terroristas do Daesh, permitindo que estes últimos fossem evacuados para a província de Deir ez-Zor.

«os combates terminaram após um acordo que permitiu a evacuação dos terroristas do Daesh»

Dmitry Frolovsky, analista político russo e especialista no Médio Oriente, lembra ainda, em declarações à RT, que, durante o cerco a Raqqa, vários contingentes do Daesh puderam sair, armados, da cidade com destino a outros pontos da Síria, sobretudo Deir ez-Zor, onde havia combates intensos com o Exército Árabe Sírio (EAS).

No entender de Frolovsky, o acordo alcançado em Raqqa, a «libertação» da cidade, faz aumentar a probabilidade de choques entre as FDS e o EAS e seus aliados. Outra questão que se coloca é a do poder em Raqqa, com os curdos a reivindicarem o governo para si numa região que sempre teve maioria árabe, por entre acusações de limpeza étnica e impedimento do regresso dos refugiados (árabes) às suas casas – algo semelhante ao que ocorreu no Norte do Iraque.

No que se refere à Síria, o Pentágono não esconde a missão de alimentar as divisões e fazer frente ao governo de Damasco.

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