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A inflação multiplica lutas pelos aumento dos salários

Todas as semanas surgem conflitos em empresas, desde PMEs a multinacionais, em todos os sectores de actividade. A inflação atingiu o seu nível mais alto durante 37 anos em Maio. Os salários marcam passo.

Manifestation de trabalhadores do aeroporto Paris-Charles-de-Gaulle em greve por aumento dos salários. 
Manifestation de trabalhadores do aeroporto Paris-Charles-de-Gaulle em greve por aumento dos salários. CréditosGEOFFROY VAN DER HASSELT / AFP

Para assinalarem o início da sua terceira semana de greve, os 67 trabalhadores da fabrica de materiais eléctricos Pommier marcharam pelas ruas de Bagnères-de-Bigorre (Altos Pirinéus) nesta terça-feira, 14 de Junho, «para fazer algum barulho»: estão a exigir um aumento salarial de 5%, a manutenção do subsídio de férias de 400 euros e um aumento do subsídio de refeições.

«Eu já não saio. Já não vou à esteticista ou cabeleireira. E não ponho os meus pés na prais há dois anos", resume uma trabalhadora, divorciada e mãe de três filhos ao diário Le Monde. «Ganho 1 400 euros líquidos, incluindo a antiguidade, mas mil euros vão para despesas fixas. Tenho de apanhar legumes na horta dos meus pais. Porque aqui trabalha-se mais para ganhar menos, e nunca se é aumentado».

Tal como em Pommier, todas as semanas surgem em França mobilizações para aumentos salariais. Apoiados pelos sindicatos, afectam pequenas e médias empresas (PMEs), bem como multinacionais, em todos os sectores de actividade. Exemplos incluem greves na Gerflor, perfumista Marionnaud, empresa de energia RTE, seguradora AG2R La Mondiale e especialista em obras rodoviárias Eurovia.

As greves de três semanas, como em Pommier, são raras. E as mobilizações são desigualmente bem sucedidas. No final de Maio, 550 dos 700 empregados do fabricante de artigos de couro de luxo Arco, que fabrica bolsas Vuitton em Châtellerault (Vienne), pararam de trabalhar durante três dias. Obtiveram, para todos eles, um extra de 100 euros líquidos por mês e um aumento de 25% nos turnos nocturnos.

Um parlamento dos ricos em que o poder prefere a extrema-direita

A situação dos trabalhadores com salários congelados durante anos -  multiplicam-se as crises, em que apesar dos rendimentos do trabalho baixarem, os lucros não deixam de subir - , não são alheias às instituições há muito dominadas pela direita liberal. A esse respeito, o escritor francês Eric Vuillard denuncia um poder cada vez mais ligado aos ricos, que se encosta à sombra do presidente Macron.

«A representação política é um procedimento de delegação de poder. Mesmo que não seja interpretado literalmente, mesmo que um membro do parlamento deva representar algo diferente da sua posição social e assumir uma vocação universal ao entrar no hemiciclo, o simples facto de haver apenas uma operária qualificada entre os membros da última legislatura para 27 chefes de empresas com mais de dez empregados, o facto de os chefes de empresas, executivos e profissões intelectuais superiores representarem mais de três quartos da Assembleia, é suficiente para lançar sérias dúvidas sobre todo o procedimento.»

Quando o verniz se dissolve, os ricos tomam a posição contra quem os ameaça mais. E parece claro que o actual presidente Macron prefere que sejam eleitos mais candidatos de extrema-direita que a esquerda possa ter condições para impedir as suas reformas neoliberais.

Eleições legislativas: apenas seis dos 61 candidatos da coligação que apoia Macron apelam para votar a favor dos candidatos da coligação de esquerda contra a extrema-direita, em círculos eleitorais que a segunda volta será decidida entre estas duas forças. Seguem a consigna do presidente, que a esquerda e extrema-direita são extremos iguais. Uns meses depois do mesmo ter apelado aos eleitores de esquerda a votarem nele, contra o ascenso da extrema-direita. É a luta de classes.

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