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A guerra contra a Síria, ou de como se falsifica a história

Na Síria não se trava qualquer guerra civil mas uma agressão externa através de nações vizinhas e grandes potências da NATO que pretendem derrubar o governo e retalhar o país em entidades submissas e dóceis para com os que se vêem como donos daquilo tudo: Israel e Arábia Saudita.

Janeiro de 2017. Em Aleppo libertada dos Jihadistas, o lento regresso a casa.
Janeiro de 2017. Em Aleppo libertada dos Jihadistas, o lento regresso a casa. CréditosMichael Alaeddin/Sputnik

Explica-nos a versão oficial da História, a única, a indiscutível, a que cabe na informação com chancela de legitimidade, que a «guerra civil» na Síria teria começado em Março de 2011, quando as hordas do «tirano» Assad esmagaram as manifestações populares «pró-democracia» inseridas na saga libertadora das «primaveras árabes».

À partida, todos concordaríamos que seria missão impossível contaminar um parágrafo de 50 escassas palavras com uma dose elevada de falsificações e distorções da realidade. Tratando-se, sobretudo, da história condenada a ficar para a História. Mas tal como são ínvios os caminhos do Senhor, também inesgotáveis são os dotes da propaganda; e assim o impossível se transforma em sentença comum, mesmo que em forma de fábula. Todas as asserções contidas nas primeiras orações deste texto correspondem a factos mistificados. Todas, sem excepção. Porém, todas elas correspondem também à realidade informativa que molda o nosso quotidiano.

A guerra americana contra a Síria e a «guerra civil» síria

Na Síria não se trava qualquer guerra civil. O conflito que continua a flagelar o território onde existia uma das sociedades mais tolerantes, inclusivas, produtivas e culturais do Médio Oriente e do mundo árabe é uma agressão externa em que, através de nações vizinhas, grandes potências da NATO pretendem derrubar o governo e retalhar o país em entidades submissas e dóceis para com os que se vêem como donos daquilo tudo: Israel e Arábia Saudita. Para tal, velhas e novas potências coloniais recorrem a interpostos exércitos, os bandos de mercenários que o mundo foi aprendendo a associar à chancela abrangente de «terrorismo islâmico» e a dois dos seus ramos dominantes, a Al-Qaida e o Daesh, ou Isis, ou Estado Islâmico.

Sobre os anseios de liberdade e democracia manifestados pelos cidadãos sírios e não-sírios que surgiram nas ruas, ali e acolá, nos primeiros meses de 2011, será essencial consultar outras fontes além das que nasceram puras e impolutas, tais como os «capacetes brancos» – apenas mais um heterónimo da Al-Qaida – ou o «Observatório Sírio dos Direitos Humanos», algumas dezenas de amanuenses contratados pelos serviços secretos britânicos e afins emitindo de um escritório em Londres as mensagens «em directo» da Síria que logo se transformam em manchetes de jornais e aberturas de telejornais em todo o mundo e numa babel de idiomas.

Quem procurar informar-se objectivamente sobre as realidades desses dias nas ruas de algumas localidades da Síria à luz das alegadas motivações populares na procura da democracia e dos direitos humanos, poderá sentir-se frustrado. As palavras de ordem, os panos e bandeiras reclamando «um presidente temente a Deus», exigindo «os cristãos para Beirute, os alauitas para a cova» ou «liberdade para a Charia», a lei islâmica ao estilo saudita, desmentem as romanescas versões dos acontecimentos constantes dos despachos chegados até nós.

Por ocasião dos acontecimentos iniciais, o presidente Bachar Assad recebeu os organizadores da maior manifestação, que decorreu em Hama e juntou cerca de cem mil pessoas; quis conhecer as reivindicações e, para início de conversa, foi informado da principal: «que os alauitas fossem impedidos de aceder a Hama». Os alauitas são um ramo da confissão islâmica xiita a que pertence a família Assad. Presume-se que a reunião tenha ficado por aí.

Quanto às interpretações sobre a chegada da «vaga libertadora» das «primaveras árabes» à Síria podem ser muitas e variadas, embora errando quase todas o alvo.

Em vez de falsas primaveras, um duro inverno

O que foram as «primaveras árabes» como réplicas da multiplicação das «revoluções coloridas» organizadas pela CIA, através de falsas «organizações não-governamentais», em países do Leste da Europa, é um tema a merecer tratamento próprio e muito brevemente. Por ora, é importante saber que múltiplas investigações independentes expuseram como objectivo comum dessa operação transnacional a substituição de regimes laicos e com vocação nacionalista por outros mais dóceis perante as ambições neoliberais e neocoloniais.

O principal instrumento manipulado para o efeito foi a confraria islamita da Irmandade Muçulmana, dependente da Arábia Saudita, sobretudo desde que nos anos cinquenta do século passado foi moldada por serviços secretos ocidentais quando planearam a instrumentalização estratégica do islamismo político, no âmbito da guerra fria. À luz desta interpretação é fácil deduzir as razões pelas quais o tão altruísta como libertador movimento primaveril não tenha tocado, sequer ao de leve, regimes reconhecidamente democráticos, transparentes e amigos dos direitos humanos como os da Arábia Saudita, do Qatar, do Koweit, dos Emirados Árabes Unidos e afins; ou tenha sido sumariamente desencorajado por uma sangrenta invasão das tropas sauditas – a coberto do Conselho de Cooperação do Golfo, um braço da NATO – quando se repercutiu no Bahrein.

A mãe de todas as mistificações deste processo, porém, é a da data do início da guerra contra a Síria. Para que fique associada a supostas matanças cometida pelos militares sírios contra os manifestantes movidos pela dinâmica das «primaveras árabes», foi fixada em Março de 2011, quando mercenários transferidos do Afeganistão e do Iraque para a cidade de Deraa se apropriaram de uma legítima manifestação de trabalhadores reivindicando aumentos salariais e saquearam o palácio da justiça. No mesmo dia, atacaram um centro dos serviços secretos nos arredores da mesma cidade, uma instalação que era utilizada para monitorizar a actividade do exército de Israel no território ocupado dos Montes Golã. A operação foi enquadrada por agentes dos principais interessados: os serviços secretos israelitas do Mossad.

Movimentações com as mesmas características provocatórias para as estruturas do poder de Damasco repetiram-se em algumas outras cidades, logo ecoadas pela estação Al-Jazeera do Qatar e repercutidas pelo «Observatório Sírio dos Direitos Humanos» de modo a transformar-se, mediaticamente, numa ideia de levantamento nacional «contra o regime de Assad». Contudo, entre os mais de cem mortos registados nas primeiras semanas de agitação o maior número era de polícias e militares, uma vez que, na generalidade dos casos, continuavam a respeitar as ordens governamentais de não disparar contra manifestantes. E o governo decidiu mesmo levantar o estado de emergência, que vigorava há muito, quando se previa a adopção de medidas mais restritivas.

Como tudo verdadeiramente começou

Porém, a guerra contra a Síria, a verdadeira guerra, há muito que estava anunciada e em andamento – nada tendo a ver com liberdade, a democracia e os direitos humanos.

Foi em 2002, com a proclamação da «guerra contra o terrorismo» na ressaca do 11 de Setembro de 2001, e com a invasão do Afeganistão em curso, que George W. Bush escreveu aos dirigentes sírio e líbio, Bachar Assad e Muammar Khaddafi, intimando-os a aniquilar as armas de destruição massiva que teriam em seu poder; caso contrário, sujeitar-se-iam às consequências. A metodologia era a mesma que estava a ser usada em relação ao Iraque. E os armamentos citados revelaram-se tão reais como os que nunca foram encontrados em território iraquiano.

No ano seguinte, novo desenvolvimento: Bush fez o Congresso aprovar o Syrian Accountability Act, lei que lhe dava mãos livres para lançar a guerra contra a Síria quando e como desejasse.

Em 2005, no discurso sobre o Estado da União proferido no início de Fevereiro, George W. Bush relembrou estrategicamente a existência dessa lei; duas semanas depois, o primeiro-ministro do Líbano, o saudita e libanês Rafic Hariri, foi vítima de um atentado – imediatamente atribuído ao Hezbollah e alegadamente cometido sob orientação do presidente libanês, Emil Lahoud, e do Presidente sírio, Bachar Assad.

O «nó» libanês resistiu à espada

Hoje, mercê das investigações feitas por diplomatas e jornalistas que não digerem facilmente as explicações imediatas dos atentados terroristas, sabe-se que o assassínio de Hariri significou o arranque da operação «Revolução dos Cedros», que deveria culminar com o desembarque de marines norte-americanos na Síria para derrubar o governo. Segundo a estratégia idealizada pelos responsáveis pelo atentado – círculos oficiosos ligando os Estados Unidos, França, Alemanha e Israel, conforme agora se sabe – as «manifestações populares» a organizar no Líbano contra o assassínio do chefe do governo deveriam ser reprimidas pelas tropas sírias estacionadas em território libanês, forçando o Pentágono a repor a ordem removendo militarmente o governo de Damasco.

Em vez disso, porém, o presidente sírio retirou rapidamente as suas tropas do Líbano e assim desmontou a provocação, frustrando a «revolução dos cedros» – que ficou no ovo.

Os conspiradores não desistiram. Montaram então a operação «Jasmim Azul», em 2006. No seguimento de uma legítima acção de resistência do Hezbollah contra soldados israelitas, que mais uma vez se tinham infiltrado no Líbano, Israel voltou a invadir em força este país. Quando se esperava que o grupo xiita, braço armado do terceiro maior partido político libanês, fosse dizimado por um dos mais fortes e bem equipados exércitos mundiais, David tramou Golias de novo. A Israel valeu o cessar-fogo imposto pelo Conselho de Segurança da ONU para aceder a um «empate técnico» no conflito, ainda assim humilhante e desconcertante. De qualquer forma, e ao contrário do que tinham previsto os estrategos da operação, as tropas sírias não foram socorrer o Hezbollah, que se desenvencilhou sozinho, e mais uma vez os planos de retaliação prevendo que os marines assaltassem Damasco e liquidassem o regime ficaram no papel.

O sonho imperial tropeça na resistência Síria

Já em 2010, em vésperas da euforia das «primaveras árabes» e no seguimento do acordo de Lancaster House entre David Cameron e Nicolas Sarkozy – que culminaria com a destruição da Líbia – a União Europeia entrou em cena. Propôs ao presidente sírio um acordo de associação com as seguintes contrapartidas, para pegar ou largar: liberalização total da economia; reconhecimento de que a ocupação israelita dos Montes Golã era um facto consumado; normalização das relações com Israel.

Como seria fácil de prever – e Bruxelas sabia-o muito bem – Assad não aceitou. A União Europeia voltaria a reactivar o engodo do acordo de associação para abrir caminho ao golpe de 2014 na Ucrânia, onde, a pretexto da democratização, organizações saudosistas dos tempos de Hitler chegaram ao poder em Kiev.

Seguiu-se então o início oficial da guerra contra a Síria, segundo o método das «primaveras árabes».

Como a Rússia, porém, informou Washington de que não voltaria a deixar-se enganar pela interpretação abusiva das decisões do Conselho de Segurança que permitiram à NATO desmantelar a Líbia, Obama pareceu levar a sério a advertência. As negociações de Genebra sobre a Síria, nas quais se envolveram apenas as duas grandes potências, terminaram em acordo no final de Junho de 2012, e a guerra poderia ter ficado por aí.

Surgiu então à boca de cena a secretária de Estado de Obama, Hillary Clinton, declarando que tinha sido forçada a assinar o entendimento de Genebra; e logo encontrou apoios nos governos de França, Reino Unido, Turquia, Arábia Saudita e demais petroditaduras do Golfo, a que outras nações se foram juntando. Os Estados Unidos sabotaram por um lado o acordo com Moscovo, que tinham estabelecido por outro. Se a diplomacia é a arte do possível, também pode ser a da trapaça.

Com «amigos» desses não são precisos inimigos

Nasceu assim o «Grupo de Amigos da Síria», que montou um sistema de «oposição» armada supostamente em torno de desertores das tropas governamentais, mas assente, em massa, nos exércitos de mercenários recrutados um pouco por todo o globo. Numa primeira fase, ainda em 2012, mais de 40 mil terroristas foram injectados na Síria a partir da Jordânia, sob enquadramento da NATO, depois de treinados pela CIA. Foi numa reunião desses «Amigos da Síria», realizada posteriormente em Marrocos, que o ministro francês dos Negócios Estrangeiros de Hollande, Laurent Fabius, saudou a Al-Qaida por estar a fazer «um bom trabalho».

A guerra contra a Síria prossegue. Oficialmente entrou no oitavo ano; na realidade decorre há 16 anos no âmbito de um processo amplo que nada tem a ver com a democracia, intuitos humanitários, liberdades ou direitos humanos.

O objectivo que está essencialmente em causa é o desenho de um novo mapa do Médio Oriente que passa pelo desmantelamento de países incómodos para Israel e a eliminação de correntes políticas, ideológicas e militares que possam mobilizar resistências ao pleno domínio colonial da região; uma estratégia para ser assegurada operacionalmente pelo eixo Israel-Arábia Saudita, cada vez mais oleado. A cooperação militar no desmantelamento do Iémen e a partilha de tarefas capazes de garantir o funcionamento das redes de mercenários «islâmicos» na Síria são disso exemplos flagrantes, mas não únicos. Israel enquadra actualmente sete grupos terroristas que actuam no Sul do território sírio tentando fomentar uma dinâmica separatista.

A «guerra contra o terrorismo» e o «novo Médio Oriente» do capital sem pátria

Uma leitura da guerra na Síria ou de qualquer outra na região que não tenha em conta estes dados será incompleta, distorcida e distante da realidade. A «guerra contra o terrorismo» nascida dos atentados contra as torres gémeas em Nova Iorque – cujas explicações oficiais são reconhecidamente uma fraude – é o principal instrumento para criação de um «novo Médio Oriente» constituído essencialmente por pequenos Estados, de preferência confessionais e sectários, incapazes de inquietar Israel.

Os grandes conglomerados mundiais sem pátria ambicionam que o «novo Médio Oriente» seja uma região colonialmente reestruturada que assegure, sem problemas, o controlo dos recursos energéticos e as rotas dos combustíveis fósseis em direcção aos principais centros nevrálgicos do poder financeiro, económico e tecnológico globalizante; e que não permita às poderosas nações do Oriente, sobretudo a China, a restauração do funcionamento pleno da chamada “Rota da Seda”, isto é, a mais estratégica via para o comércio terrestre global.

Na Síria, como em outras coordenadas do Médio Oriente, a concretização desta estratégia de domínio está entregue operacionalmente a organizações de mercenários recrutados entre os pobres e excluídos do mundo, por sinal os mesmos grupos que deveriam estar a ser alvos da «guerra contra o terrorismo» e se regeneram a si mesmos com uma assombrosa flexibilidade. Por aqui se entendem muitas das razões pelas quais o primeiro parágrafo deste texto consegue encaixar em apenas 50 palavras – num atrevido desafio às leis da Física – uma tão elevada dose de mistificações da realidade.
 

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