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Espanha vai extraditar para o Uruguai um médico torturador da ditadura

Carlos Américo Suzacq, radicado em Madrid há décadas, será extraditado para o Uruguai, acusado de participar na «aplicação de tormentos aos detidos» durante a ditadura (1973-1985).

Muitos milhares de pessoas aderiram à mobilização convocada pela associação Mães e Familiares de Uruguaios Presos Desaparecidos em conjunto com outras organizações 
A associação Mães e Familiares de Uruguaios Presos Desaparecidos é uma das organizações que mobilizam a população contra a impunidade do «terrorismo de Estado», no Uruguai CréditosErnesto Ryan / ladiaria.com.uy

Em 2021, o Uruguai reclamou a Espanha a extradição de Carlos Américo Suzacq Fiser, de 72 anos e com uma clínica em Madrid, que foi identificado por testemunhas como um dos médicos que participavam nas torturas cometidas aos detidos num centro de detenção em Montevideu.

Detido desde Julho do ano passado, na sequência de um mandado de captura internacional, accionado pela Justiça uruguaia, Suzacq recebeu ordem de extradição em Janeiro último, após um julgamento realizado na Audiência Nacional espanhola, mas a defesa recorreu.

Ontem, o tribunal espanhol confirmou a extradição, rejeitando o recurso. Os magistrados referiram que, embora o crime contra a humanidade não estivesse tipificado em Espanha até 2004, optam pela extradição devido à «extraordinária gravidade dos factos».

Argumentaram que – indica a EFE –, tendo em conta as circunstâncias, as da «extraordinária gravidade dos factos», estes são qualificáveis como «crimes contra a humanidade, cuja perseguição e castigo é do interesse de toda a comunidade internacional».

No recurso, a defesa do médico considerava, entre outros aspectos, que fora violado o princípio da legalidade, na medida em que a extradição se baseava em delitos que estariam prescritos.

Critério oscilante

Em Março do ano passado, o mesmo tribunal recusou-se a aprovar a extradição de Fleming Gallo, investigado no Uruguai num processo sobre torturas no centro clandestino de detenção do Corpo de Fuzileiros Navais (Fusna), onde cerca de 50 pessoas, na maioria militantes do Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros e do Grupo de Acção Unificadora, denunciaram ter sofrido torturas entre 1972 e 1985.

Então, a Audiência Nacional espanhola seguiu o critério do Ministério público segundo o qual a extradição não devia ocorrer porque o crime de torturas de que o cidadão uruguaio é acusado prescreveu, segundo a lei espanhola.

No que respeita ao crime contra a humanidade, a Procuradoria afirmou, há um ano, que era reconhecido em Espanha desde 2004 e que não devia ser aplicado retroactivamente. Ou seja, não reconheceu o carácter imprescritível dos crimes contra a humanidade. Agora, defendeu outro critério e aprovou a extradição.

O papel de Suzacq

O procurador uruguaio especializado em Crimes contra a Humanidade, Ricardo Perciballe, disse à imprensa que há testemunhos de cerca de quatro dezenas de vítimas que identificaram Carlos Américo Suzacq no regimento do Exército onde estiveram detidas, o Sexto de Cavalaria. Ali, Suzacq «controlava até onde se podia aplicar os tormentos aos detidos», refere o periódico argentino Página 12.

Localizado no bairro de Piedras Blancas, no Norte de Montevideu, o regimento funcionou entre 1972 e 1984 como centro de detenção e tortura de detidos sob custódia do Exército e do Organismo Coordenador de Operações Anti-subversivas (OCOA).

Elena Zaffaroni, actual dirigente da associação Mães e Familiares de Detidos Desaparecidos, foi presa juntamente com o seu marido, Luis Eduardo González González, militante do Partido Comunista Revolucionário e estudante de Medicina desaparecido desde Dezembro de 1974, e esteve presa naquele centro.

«O papel de Suzacq era, por exemplo, reanimar os detidos quando sofriam uma paragem cardíaca durante as torturas», disse Zaffaroni ao Página 12.

De acordo com a dirigente da associação de familiares dos 192 desaparecidos durante a ditadura, anos mais tarde uma outra vítima soube que Suzacq ia ao Uruguai todos os fins de ano para estar com a família e que residia em Madrid, onde tinha uma clínica de medicina.

Investigando na lista telefónica espanhola, procuraram médicos com o seu apelido e conseguiram dar com ele, que reconheceu ter estado no «Sexto de Cavalaria» na época, mas disse nada saber sobre o desaparecimento de González e desligou o telefone.

Esperando que se concretize a extradição, Zaffaroni sublinhou que «é muito importante que os envolvidos venham e prestem depoimentos no Uruguai, para tratar todas as questões que ficaram por resolver».

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