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Economia de vento em popa, mas para quem?

A crescente assimetria económica dos EUA nos rendimentos e riqueza acumulada tem sido um tema cada vez mais presente na conversa política.

Trabalhadores em greve, nos EUA, pelo aumento do salário mínimo nacional. Foto de arquivo
Trabalhadores em greve, nos EUA, pelo aumento do salário mínimo nacional. Foto de arquivoCréditos / Foreign Policy

Após a conclusão do processo de impeachment, no início de Fevereiro, o Presidente Trump pronunciou o seu discurso do Estado da Nação e inúmeros discursos de campanha em triunfo, louvando o estado da economia dos EUA, um dos factores redentores sobre a sua presidência. Por essa razão, os efeitos económicos do COVID-19 – as quedas da bolsa de valores e a desaceleração da economia, devido, entre outros factores, à sua dependência de componentes produzidas na China – têm sido vistos com grande preocupação por parte da Casa Branca, mais até que os cuidados de saúde pública a desenvolver.

Mas qual é efectivamente o estado da economia dos EUA, ou antes, quem está a beneficiar do actual estado da economia? A crescente assimetria económica dos EUA – nos rendimentos e riqueza acumulada, no acesso a cuidados de saúde, etc. – tem sido um tema cada vez mais presente na conversa política. Algo que encontra as suas raízes nos movimentos sociais, como o Occupy Wall Street, e na campanha para as primárias do Partido Democrata de Bernie Sanders em 2016, questão com centralidade para alguma das gerações mais novas e que conquistou um terreno seguro nas primárias do Partido Democrata em 2019, estando presente no discurso de vários candidatos. Claro que estas primárias também se pautaram pela presença de vários bilionários – Bill de Blasio, Tom Steyer e Michael Bloomberg, tendo este último gasto mais de 500 milhões de dólares em anúncios televisivos, tanto quanto todos os restantes candidatos – mas dada a diversidade de candidatos, a riqueza de alguns e sua fonte de contributos financeiros tornou-se em si uma temática.

Evolução percentual acumulada da produtividade e dos salários nos EUA, entre 1948 e 2018. CréditosAndré Levy /

Em 2019, a revista Forbes revelou que os 400 estadunidenses mais ricos possuíam uma riqueza acumulada de quase 3 biliões de dólares – os «biliões» à portuguesa, com 12 zeros. Três dos mais de 600 bilionários e os três homens mais ricos do mundo – Jeff Bezos, Bill Gates e Warren Buffett – possuem uma fortuna superior à da metade mais pobre do país. Nas últimas três décadas, a fracção de riqueza dos mais afluentes tem vindo a aumentar, enquanto a maioria empobrecida mergulha numa situação de riqueza negativa, isto é, onde as dívidas são superiores aos rendimentos. Este fosso agravou-se durante a presidência Trump, impulsionado em parte com as suas medidas de alívio fiscal, que visaram beneficiar sobretudo as grandes fortunas.

Claro que este processo vem de trás. Desde os anos 1980 que a produtividade da economia tem aumentado a um ritmo muito maior que os salários (69,6% vs. 11,6%, respectivamente). Por salários, entenda-se o dos trabalhadores, pois os rendimentos e bónus dos directores executivos (CEO) têm atingido níveis obscenos. Segundo a central sindical AFL-CIO, em 1980 o CEO de uma grande empresa ganhava em média 42 vezes mais que o trabalhador médio. Em 2018, esse hiato tinha aumentado 7 vezes, ganhando um CEO em média 287 vezes mais que um trabalhador (hiato que chegou a superar 500 vezes, no pico da bolha das dot-com). Em algumas grandes multinacionais, como a Tesla, McDonald’s, Disney, Estée Lauder, Ralph Lauren, etc., a diferença supera as mil vezes.

Mais riqueza porém, dirão alguns, só assinala que a economia está «em bom estado». Afinal, em 2019, a taxa de desemprego estava aos níveis mais baixos dos últimos anos, 3.5%; o valor rondava os 10% no início dos 2010s. Mas a par da existência de 13 milhões de trabalhadores com múltiplos empregos, muitos dos novos empregos são precários, de baixos salários e sem benefícios, como seguro de saúde. O Índice de Qualidade de Emprego no Sector Privado (JQI) analisa a qualidade dos empregos no sector privado de produção (82% dos trabalhadores do sector privado), onde a qualidade do emprego é avaliada pelo salário semanal face à média dos trabalhadores e um valor inferior a 100% indica que predominam empregos de baixa qualidade. Em 1990, o valor aproximava-se dos 100 (94.9%), em 2019 havia já caído para 79%, sendo que 63% de todos os novos empregos no sector de produção tinham baixos salários/poucas horas.

Motoristas da Uber durante um protesto sindical contra a exploração desenfreada naquela empresa, no bairro de Queens, em Long Island, Nova Iorque, durante a greve internacional realizada em Londres, Nova Iorque e outras cidades dos EUA, a 8 de Maio de 2019 CréditosJeenah Moon / Bloomberg

Segundo a Forbes, mais de um terço (57 milhões) dos trabalhadores nos EUA fazem parte da chamada economia gig (ou de biscate), ou seja, vendem a sua força de trabalho à Uber, Etsy, Amazon Mechanical Turk ou outras empresas e plataformas digitais, para pequenos trabalhos ao dia ou à hora. No prisma neoliberal, é o trabalhador independente, entre trabalhos a tempo inteiro, a tomar as rédeas de como e quando trabalha, com liberdade e flexibilidade para organizar a sua vida. Na perspectiva do trabalhador, é o sufoco de uma situação permanente de sucessivos desenrascanços, sem perspectivas de estabilidade ou realização de direitos laborais.

Esta é uma situação que atinge particularmente os negros e latinos, os imigrantes e mulheres, e os jovens. Cerca de 40% da Geração Y (do milénio), com idades entre os 26 e 35, nunca teve o «privilégio» de saber qual o seu horário de trabalho na semana seguinte. Uma geração que tendo frequentado a universidade, acumulou dívidas para cobrir os custos do ensino superior que rondam os 500 mil milhões de dólares, uma média de 33 mil dólares entre os 15 milhões de credores. (Esta questão vai muito além da Geração Y, até porque o tempo médio para pagar as dívidas universitárias é de 21 anos! O volume total destas dívidas rondavam, em 2018, os 1.6 biliões de dólares.) Uma geração sem perspectiva de comprar casa, mesmo nas zonas rurais (um dos elementos chave do «sonho americano»). Onde todas as famílias enfrentam crescentes custos com a saúde, pagando cerca do dobro por seguros de saúde e serviços médicos que outros países desenvolvidos. Estes custos que rondam os 25% do rendimento familiar, chegam a superar os 33% para as famílias de rendimento inferior.

Nas últimos anos, os trabalhadores e seus sindicatos têm respondido à situação de baixos salários e horários prolongados através de inúmeras lutas expressivas. Porém, e apesar da crescente opinião favorável sobre os sindicatos (em 2019, uma sondagem da Gallup indicava que 64% aprova o papel dos sindicatos, valor mais alto em 50 anos) e de quase metade dos trabalhadores não sindicalizados dizerem que se juntariam a um sindicato se tivesse oportunidade (número mais elevado nos últimos 40 anos), o número de trabalhadores sindicalizados permanece baixo (cerca de 1 em 10 trabalhadores; era 1 em 5, em 1983). Para tal contribuem várias medidas anti-sindicais, incluindo o caso Janus, decisão do Tribunal Supremo, em 2018, que veio impedir os sindicatos de recolher quotas de todos os funcionários públicos (ver artigo «Luta de classes nos EUA», em caixa).

Com salários de crescimento anémico e crescentes custos com casa, saúde e educação, as dívidas das famílias, mesmo da classe média, têm aumentado mais que os seus rendimentos, aumentando a fragilidade das economias familiares, o nível de pobreza de quem trabalha e sua insegurança. Condição que se reflecte numa regressão da esperança de vida, em níveis elevados de doença mental (segundo dados oficiais, 20% da população), uma grave crise de abuso de opióides e uma elevada taxa de suicídio na faixa entre os 10 a 34 anos de idade, a segundo causa de morte mais elevada para este grupo etário. Não será então de estranhar que camadas cada vez mais alargadas de pessoas, sobretudo jovens, aceitem favoravelmente a palavra «socialismo» no discurso político. É certo que temos de enquadrar o seu uso no contexto político dos EUA.

O «socialismo democrático» que Bernie Sanders subscreve corresponde, no contexto político europeu, e por explicação do próprio, ao modelo social-democrata escandinavo. Mas após décadas do mais feroz anti-comunismo, não deixa de ser significativo que um candidato com esse descritivo, com um discurso que sublinha questões de justiça económica e de classe social, consiga mais uma vez galvanizar um vasto movimento de base de carácter nacional, com largas camadas de jovens. Num país com campos políticos crescentemente entrincheirados, com profundas divisões entre o mundo rural e urbano, entre etnias e gerações, e onde o perfil demográfico do país está em mudança, há sinais de esperança para o futuro, para a agudização da luta ideológica e de classes.

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