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Assaltos militares a casas e detenções, as madrugadas na Cisjordânia ocupada

Com o fluxo mediático centrado no «conflito» de Gaza e nos «confrontos» de Jerusalém, a demolição de casas ou a acção dos colonos até pode vir à tona, mas os raides nocturnos quase passam despercebidos.

As incursões das forças israelitas nos territórios ocupados da Palestina ocorrem a um ritmo quase diário (foto de arquivo)
As incursões das forças israelitas nos territórios ocupados da Palestina ocorrem a um ritmo quase diário (foto de arquivo)Créditos / medium.com

No que respeita a esta madrugada, a agência WAFA dá conta de 11 palestinianos presos pelas forças israelitas de ocupação em vários pontos da Margem Ocidental – cinco em Nablus, três em Hebron (al-Khalil), dois em Belém e um em Salfit. Alguns eram ex-presos.

Na madrugada anterior, as forças israelitas invadiram quase duas dezenas de casas na cidade de Ni’lin, perto de Ramallah, viraram o interior das casas do avesso, interrogaram dezenas de pessoas e deitaram fogo a vários veículos, indica a mesma fonte.

O raide, que começou à 1h da madrugada e terminou por volta das 5h30, esteve na origem de intensos confrontos. Pelo menos dez pessoas foram presas.

Em Beit Ummar (distrito de Hebron), tropas israelitas deitaram abaixo as portas de uma dezena de casas, que revistaram. Prenderam nove palestinianos, incluindo três antigos prisioneiros e quatro adolescentes. Registaram-se ainda detenções em Hebron (uma), Jenin (duas) e Jerusalém Oriental (uma).

As forças israelitas levam a cabo estas operações de busca e captura num registo praticamente diário, quase sempre de madrugada. Alegando que «procuram» palestinianos, invadem as casas sem mandado de detenção onde e sempre que lhes apetece.

São frequentes os confrontos com os residentes palestinianos, os mais de três milhões que vivem na Margem Ocidental ocupada e que, lembra a WAFA, ficam completamente à mercê da autoridade militar que lhes é imposta pelos comandantes israelitas.

Assalto às casas: a violência da ocupação de Israel

Em Novembro do ano passado, estas invasões militares de casas, associadas à violência da ocupação de Israel, foram o tema de um estudo publicado pelas organizações de direitos humanos Yesh Din, Breaking the Silence e Physicians for Human Rights-Israel (PHRI).

Intitulada «Uma vida exposta: invasões militares de casas palestinianas na Cisjordânia», a investigação centrou-se em 158 testemunhos de palestinianos cujas casas foram invadidas nos últimos anos; em 31 entrevistas realizadas a famílias palestinianas afectadas, por especialistas na área da Saúde; e em entrevistas a 40 soldados israelitas e cinco oficiais que participaram nestas operações.

«As invasões militares a casas palestinianas [na Cisjordânia ocupada] são das operações mais comuns e rotineiras sob a ocupação israelita», disse Ziv Stahl, directora do departamento de investigação da Yesh Din, que trabalhou no relatório.

«Embora os israelitas tenham menos conhecimento deste fenómeno do que dos postos de controlo ou das demolições de casas, muitos palestinianos nascem e crescem numa realidade em que os soldados armados assaltam habitualmente as suas casas», continuou. «É um instrumento violento e repressivo que se tornou fundamental para o mecanismo de controlo de Israel sobre os palestinianos», disse.

Os objectivos declarados destas invasões militares são realizar buscas, detenções ou recolher informação (mapping), mas os testemunhos registados descrevem uma realidade muito diferente. De acordo com as declarações dos soldados, o objectivo implícito destas operações é o que se descreve em coloquialismo militar como «demonstração de força» e «criar um sentido de perseguição». Visam dissuadir as pessoas, comunidades inteiras, de participar em actividades políticas que se opõem à ocupação.

Um sargento israelita disse à Breaking the Silence que o «propósito principal é a dissuasão», sublinhando que a ideia é mostrar que o Exército israelita «está ali» e «pode entrar na sua casa a qualquer momento». Ao ser questionado se entravam em casas ao acaso, o soldado disse: «Absolutamente, é completamente um [jogo de] um-dó-li-tá».

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