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A África Oriental avança

Enquanto a China constrói estradas, ferrovias, oleodutos, aeroportos, portos marítimos e fábricas em toda a África, os EUA vendem armas e instigam conflitos internos e entre Estados africanos.

A linha férrea Nairobi-Mombaça é um investimento chinês de 3,3 mil milhões de dólares visando ligar o interior da África Oriental ao estratégico porto de Mombaça. Maio de 2017, Nairobi, Quénia.
A linha férrea Nairobi-Mombaça é um investimento chinês de 3,3 mil milhões de dólares visando ligar o interior da África Oriental ao estratégico porto de Mombaça. Maio de 2017, Nairobi, Quénia.Créditos / AFP

Os EUA e as potências ocidentais, com interesses económicos que já vêm de anteriores períodos coloniais, deparam-se com uma nova situação que decorre do grande crescimento interno da China, com uma intervenção sua crescente nas economias africanas, apesar da corrupção dominar o comportamento de dirigentes de alguns países.

Enquanto a China constrói estradas, ferrovias, oleodutos, aeroportos, portos marítimos e fábricas em toda a África, os EUA vendem armas e instigam conflitos internos e entre Estados africanos para interromper uma ascensão do continente independente da hegemonia ocidental.

O AFRICOM

Os americanos apostam que podem exercer poder de veto sobre os alinhamentos políticos africanos pela força das armas, através da infiltração militar maciça do AFRICOM na região, paralelamente ao terrorismo do Boko-Haram, filial africana da Al Qaeda.

Nas palavras de Ajamu Baraka, candidato do Partido Verde nas últimas presidenciais norte-americanas, «os Estados Unidos oferecem apenas mais armas, mais bases e mais subversão». Desde o início do AFRICOM – o Comando Militar dos EUA em África, criado em 2008 – Washington nele confia estrategicamente para o domínio da África, convertendo a classe militar do continente em serva do império norte-americano. Os americanos apostam que podem exercer poder de veto sobre os alinhamentos políticos africanos pela força das armas, através da infiltração militar maciça do AFRICOM na região. Estrategas dos EUA estão a apostar que, se as nações africanas se interessarem demais pelo modelo económico chinês, Washington possa pedir aos militares africanos, que treinam e corrompem, que criem mudanças de regime, ou semeiem o caos e genocídios de guerra, como tem acontecido no Uganda, Ruanda e República Democrática do Congo, por uma geração.

Para Abayomi Azikiwe, editor do Pan-African News Wire:

«não há base histórica para a dependência do AFRICOM e da OTAN em relação ao fornecimento de equipamento militar, treino de tropas e o posicionamento de soldados ocidentais em África. Exemplos abundam nas experiências recentes da Líbia, Costa do Marfim, Egipto e Somália, que refutam quaisquer resultados positivos para o militarismo imperialista no continente.

A criação de um Alto Comando Todo-Africano de forças militares nacionais integradas e milícias populares é a única solução para as crises de segurança que estão inextricavelmente ligadas aos paradigmas de desenvolvimento centrados nas pessoas. Para que tais militares pan-africanos armados venham a existir, os estados-membros da União Africana (UA) devem quebrar a sua dependência do capitalismo e voltar-se para a resolução de contradições internas que são um reflexo da exploração e opressão contínuas geradas pelo constructo pós-colonial das classes dominantes em Washington, Nova York, Paris, Londres, Bruxelas e outros postos avançados imperialistas».

A chantagem de John Bolton contra os países em que a China investe

Há cerca de duas semanas, John Bolton foi longe no carácter provocatório das declarações como, por exemplo, referir-se a tentativas da China «obter vantagem competitiva» na África através de práticas «predatórias» que supostamente incluem «subornos, acordos opacos e uso estratégico de dívidas» para manter os estados africanos captivos «dos esquemas globais de Pequim». Bolton fez este seu discurso na Right Heritage Foundation, um lugar especializado na elaboração de políticas sociais que apelam para as maiorias da supremacia branca dentro da ordem interna dos EUA.

São declarações muito diferentes das do FMI – o mesmo que mantém grande parte da África e do mundo em desenvolvimentos «captivos» de estruturas de empréstimos e condições políticas que impedem a capacidade dos governos servir os seus povos – teve uma avaliação bastante diferente do impacto da China no continente africano, cujo crescimento coincide com a ascensão de Pequim ao lugar de investidor número um no continente: «a China, realmente, aumentou a sua contribuição para o crescimento das exportações da África Subsariana, o que ajudou a amortecer o impacto sobre o crescimento da África Subsariana durante a Grande Recessão». Ao ouvir estas declarações até parecia alguém a falar dos EUA e não da China…

«O acesso a novos mercados para as suas matérias-primas estimulou as exportações da África, que cresceram cinco vezes, em valores reais, nos últimos vinte anos», escreveram os funcionários do FMI no seu blog interno… «Mas, talvez ainda mais importante, o envolvimento comercial da África Subsariana com a China e outros novos parceiros comerciais reduziu a volatilidade das suas exportações. E isso ajudou a amortecer o impacto da crise económica global em 2008 e 2009, quando as economias avançadas sofreram uma profunda desaceleração económica que, desta forma, reduziram a procura de importações. Do lado das importações, o acesso a bens de consumo chineses baratos, do vestuário aos motociclos, deu um impulso aos padrões de vida em África e contribuiu para uma inflação baixa e estável».

A China, com um desempenho da sua economia que resistiu melhor ao crash capitalista, conseguiu proporcionar à África e a outros países parceiros um pouco de descanso do caos e quase colapso que envolveu o Ocidente. Mais importante ainda, os chineses ofereceram o que até os americanos admitem ser acordos sem compromisso, sem condições políticas para os seus empréstimos e projectos.

Ninguém ignora que, por parte da China, existe uma grande atracção por matérias-primas para abastecer o seu próprio crescimento milagroso, fundamental para a sua estratégia comercial global. Mas a Bloomberg, rede financeira de propriedade dos oligarcas americanos, testemunha o carácter amplo e profundo da política de comércio e investimento da China na África. Na sua coluna de opinião na Bloomberg, Noah Smith escreveu, em Setembro de 2018, que «embora garantir o acesso aos recursos naturais seja certamente uma das metas da China, os seus investimentos na África vão além das indústrias extractivas», ou então que «os sectores que recebem mais dinheiro chinês são serviços empresariais, por atacado e a retalho, como importação e exportação, transporte, armazenamento e serviços postais, com os produtos minerais a ficarem em quinto lugar. Na Etiópia, a China está investindo dinheiro no fabrico de roupas – o primeiro passo tradicional no caminho para a industrialização».

A China e a Índia, dois gigantes em competição na África Oriental

Segundo o colaborador do Global Research, Andrew Korybko, «a China precisa da África como um mercado para vender os seus produtos muito elaborados, para sustentar o crescimento económico interno, enquanto a Índia precisa do continente para se transformar numa grande potência com um alcance verdadeiramente transregional. Nesse sentido, a China apresentou, em 2013, a sua visão global One Belt One Road da ligação da Nova Rota da Seda, para atender a essa procura estratégica premente, enquanto a Índia avançou em 2017 com o “Corredor de Crescimento Ásia-África”, que planeia construir com o Japão. O foco da China está na construção de infra-estrutura física e na emissão de empréstimos sem restrições para financiar esses megaprojectos, enquanto a Índia pretende melhorar as capacidades dos cidadãos africanos, investindo em programas de treino, educação e saúde».

Os indianos estão preocupados com a construção da base naval chinesa em Djibuti para defender a circulação marítima das exportações dos países vizinhos. E foram estimulados, seguramente pelos seus aliados ocidentais, a construir uma base militar longe do seu território, nas Seychelles, que têm interesse na lógica de «conter a China» e fazer da Índia o seu principal rival no Oceano Índico. Não era isso que iria «conter a China», mas poderia originar um entendimento mais robusto com a Nova Zelândia mais tarde.

A Etiópia aspira a ser uma grande potência regional em resultado da sua relação comercial com a China. China que tem investido também em infra-estruturas, no Quénia e Tanzânia, que permitem corredores com o Uganda, o Ruanda e o Burundi. A Tanzânia já está ligada à Zâmbia através do projecto TAZARA, da era da Guerra Fria, que representa o primeiro investimento da China na Rota da Seda na era moderna e que tem o potencial de se vir a expandir mais profundamente no sudeste do Congo, rico em minerais.

Créditos

Para terminar esta ronda pela África Oriental, Korybko considera que Moçambique tem um lugar especial na África Oriental, devido às suas enormes reservas de energia no mar a norte, algumas das quais compartilha com a Tanzânia. Por si só, Moçambique, aparentemente, não teria muito a oferecer a nenhum potencial parceiro devido ao seu grande subdesenvolvimento e população comparativamente pequena. A economia do país é baseada principalmente na agricultura, mas o sector industrial, principalmente na fabricação de alimentos, bebidas, produtos químicos, alumínio e petróleo, está em crescimento, tal como o sector de turismo. A China e a Índia estão ambas a desejar novas fontes de abastecimento, nomeadamente de energia, e resta saber como Moçambique se irá equilibrar entre estas duas grandes potências, vendendo mais, das suas reservas, para uma ou para outra. Quaisquer reservas potenciais exportadas de Moçambique, para a China ou para a Índia, teriam de passar muito perto das Seychelles.

A competição entre as duas potências pode levar a «empurrões» entre ambas que, para as populações dos países onde ocorrem, possam ser consideradas como atentatórias dos interesses nacionais e levem a uma rejeição de ambos os países como parceiros no desenvolvimento.

A melhor proposta que poderia ser feita, tendo em conta estes cenários prováveis, é que a China e a Índia envolvessem progressivamente os seus parceiros no apoio aos seus respectivos projectos da África Oriental, mas não o fizessem rapidamente para evitar perturbar o equilíbrio regional e incitar inadvertidamente um dilema de segurança ainda mais pronunciado do que o que já existe. Isto, no entanto, é uma sugestão inexequível, visto requerer coordenação e confiança de ambos os lados, que actualmente está faltando em geral e, especialmente, quando se trata da África Oriental. O desenvolvimento mais provável, portanto, é que a multi lateralização do «Grande Jogo» chinês-indiano na África Oriental venha a acelerar em vez de desacelerar, o que pode acabar tornando-se incontrolável nos próximos anos. Isso não significa que algo dramático esteja necessariamente prestes a acontecer. Significa, sim que tensões possam agravar a situação interna de vários países: a Etiópia (com as reivindicações do povo Oromo, risco de bombardeamentos egípcios e do apoio da Eritreia a todos os tipos de grupos rebeldes), o estado falhado do Sudão do Sul, obra de divisão do Sudão por potências ocidentais, ou ainda o conflito na Somália que ferve sob silêncios.

Outra questão, hoje considerada improvável, seria a pirataria poder emergir perto do Canal de Moçambique, na medida em que os actores não estatais tentem lucrar com os resgates depois de tomar como reféns os petroleiros de GNL (gás natural liquefeito) e outros navios.

São improváveis estes e outros cenários acontecerem no momento presente, e nenhum dos estados da África Oriental, à excepção da Etiópia e do Sudão, mostra sinais sérios de instabilidade doméstica que possam interferir com investimentos da China ou da Índia no futuro próximo. A confirmação eleitoral do presidente da R. D. do Congo é um factor de estabilidade interna, depois de uma grande campanha mediática internacional, incluindo a partir de Portugal, para um resultado diferente. Para entender o país mais rico, em termos minerais, é preciso estudar as óbvias décadas de desgraçada ocupação colonial na Bélgica, mas o significado, não reconhecido por muitos, do assassinato de Patrice Lumumba, em Janeiro de 1961, menos de 7 meses depois de assumir o cargo de primeiro-ministro do então país independente recém-fundado, ainda hoje está por desvendar.

As presenças militares chinesas e indianas na região irão provavelmente expandir-se com o tempo e serão publicamente justificadas pela necessidade de proteger as suas SLOCs (linhas marítimas de comunicação ou as principais rotas marítimas entre portos) mas devem, contudo, ser monitorizadas em busca de sinais de que qualquer um deles se esteja a preparar para contrapor-se ao outro ou intervir em qualquer conflito potencial. Assim, o «Grande Jogo» entre a China e a Índia, nesta parte do Oceano Índico – o Rimland – provavelmente permanecerá estável, embora tenso, por algum tempo.

A União Europeia e a África

Numa espécie de contraponto, na 5ª Cimeira das União Europeia-União Africana, dirigentes europeus como Angela Merkl, Federica Mogherini, François Macron ou o italiano Paolo Gentiloni sublinharam que o grande objectivo dos investimentos europeus em África é «dar novas esperanças aos jovens africanos». O que tem equivalido a formar uma elite africana útil apta a corresponder aos interesses neocoloniais. É por estes investimentos que se guiam, para prolongar o neocolonialismo.

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