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600 mil pessoas morreram à espera das promessas do G7

Centenas de milhares de mortes podiam ter sido evitadas se os países do G7 não tivessem entregue apenas metade das milhões de doses da vacina contra a Covid-19 prometidas, denuncia a Oxfam.

Por ordem, da esquerda para a direita, os participantes na reunião de 26 a 28 de Junho de 2022 do G7: o primeiro-ministro italiano Mario Draghi, a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, o presidente dos EUA, Joe Biden, o chancellor alemão Olaf Scholz, oa primeiros-ministros do Reino Unido, Canadá e Japão, Boris Johnson, Justin Trudeau e Fumio Kishida, respectivamente, o presidente francês Emmanuel Macron e o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel.
CréditosThomas Lohnes / Getty Images Europe POOL

«Esperando, esperando, esperando/Esperando o sol/Esperando o trem/Esperando um filho p'ra esperar também». É agora a vez de milhões de pessoas, dependentes do apoio prometido pelos países mais ricos e industrializados (o G7) esperarem também pela 'solidária' contribuição «que já vem/que já vem/que já vem/que já vem (...)».

Os países mais ricos acumularam milhões de doses das vacinas contra a Covid-19 de que não precisavam, permitindo que estas se estragassem em vez de as entregar a quem desesperadamente delas necessitava. Vários países ainda não receberam todas as doses que compraram a empresas como a Moderna ou a Pfizer, que dão preferência aos mercados ocidentais.

Só em Fevereiro de 2022, a União Europeia deixou estragar 55 milhões de doses das vacinas contra a Covid-19: «mais 25 milhões do que a totalidade das vacinas doadas ao continente africano» nos primeiros dois meses de 2022, alerta a People's Vaccine Alliance (PVA), um movimento que junta centenas de pessoas e organizações na luta pela gratuitidade da vacina.

À margem da reunião (realizada entre 26 e 28 de Junho) do G7, que junta os países mais industrializados do mundo (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido), o Imperial College London divulgou um estudo que aponta para um total de 599 300 mortes que teriam sido evitadas, em 2021, se 40% da população de todos os países do mundo tivessem a vacinação completa.

O deprimente espectáculo da caridade

«As mil milhões de doses que os países do G7 não foram capazes de distribuir teriam sido suficientes para atingir esta meta», denuncia, em comunicado de imprensa, a Oxfam, uma das maiores organizações não-governamentais de luta contra a pobreza no mundo. Como não podia deixar de ser, praticamente todas estas mortes ocorreram em países de muito baixo rendimento.

Das 100 milhões de doses que o Reino Unido prometeu distribuir, apenas 39% chegou, até ao dias de hoje, ao seu destino. Sem um compromentimento muito substancial no segundo semestre deste ano, será impossível que o Reino Unido e o Canadá cumpram as metas estabelecidas até ao final de 2022. Só 30% das 50.7 milhões de doses prometidas pelo governo canadiano foram entregues.

Os restantes países do G7 não se comportaram melhor. Longe dos holofotes, os solidários apoios prometidos pelos Estados Unidos da América ficaram muito aquém do anunciado: 46% de 1.2 mil milhões de doses. Por outro lado, França, Itália e a Alemanha, colectivamente, entregaram apenas 56% das 700 milhões de doses prometidas até meados de 2022, uma promessa que já caducou.

A liderar a tabela, mas nem por isso mais cumpridor, o Japão distribuiu 64% das 60 milhões de doses anunciadas. Nos dias que correm, a solidariedade ocidental parece estar centrada noutras paragens.

Os valores ocidentais: Total inacção face à morte de centenas de milhares de pessoas; Acção directa na defesa dos lucros das farmacêuticas

Enquanto os países mais ricos do mundo continuavam a acumular doses, sem qualquer capacidade para as utilizar, nos países mais pobres continuavam a morrer milhares de pessoas, vítimas da Covid-19 e da ganância alheia.

Em simultâneo com o não cumprimento das suas promessas, os países mais ricos, com o Reino Unido e a União Europeia à cabeça, forçaram a aprovação de um texto na Organização Mundial do Comércio que «impediu o levantamento das patentes das vacinas, tratamentos e tecnologias que teriam permitido aos países em desenvolvimento produzir as suas próprias vacinas», alertou a Oxfam. 

Os verdadeiros objectivos dos países da G7 foram cumpridos: o documento «introduz ainda mais obstáculos para proteger os altamente rentáveis monopólios da Pfizer/BioNTech e da Moderna». 

«Os países mais ricos já estão a acumular a nova geração de vacinas contra a Omicron, enquanto os mais pobres terão de continuar a enfrentar novas variantes com vacinas cada vez mais inefecientes», acusa Max Lawson, responsável pela área da desigualdade na Oxfam e co-presidente da PVA. «A única maneira de resolver este impasse é garantindo a todos os países o direito a fabricar a sua própria vacina, para que não tenham de depender da caridade dos países ricos, que lhes enviam, tarde demais, doses de vacinas de que já não necessitam».

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