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Bruxelas sacrifica saúde pública à guerra fria

Ursula von der Leyen argumenta que a produção da vacina russa «seria incapaz de corresponder à procura» europeia. Mas será que a Pfizer responde? A Moderna responde? A AstraZeneca responde?

A presidente da Comissão Europeia e o primeiro-ministro de Portugal reuniram em Lisboa para definir as prioridades para a presidência portuguesa, a 15 de Janeiro de 2021
A presidente da Comissão Europeia e o primeiro-ministro de Portugal reuniram em Lisboa para definir as prioridades para a presidência portuguesa, a 15 de Janeiro de 2021 CréditosEPA/MIGUEL A. LOPES / LUSA

O Departamento (Ministério) da Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos confirmou publicamente que realiza acções diplomáticas para dissuadir países de recorrerem a medicamentos produzidos por «Estados mal-intencionados» como a Rússia e a China. Um dos exemplos citados a propósito foi a intervenção para «persuadir o Brasil a rejeitar a vacina russa contra a Covid-19». Não explicando tudo, um episódio como este ajuda-nos a entender as histórias mal contadas que envolvem os processos de vacinação às escalas nacionais, regionais e global – e que estão a custar vidas humanas, pelas quais ninguém será, obviamente, responsabilizado.

«Bruxelas, refém dos contorcionismos da guerra fria, insiste em comprar o que chega quando chega enquanto se recusa a comprar o que poderia chegar a tempo e horas»

Os esforços contra as «influências malignas» que pretendem salvar vidas são realizados pelo Ministério norte-americano da Saúde por via do Office of Global Affairs (OGA), a sua «voz diplomática» em todo o mundo através da qual, como se lê no seu website, se pretende «proporcionar liderança e experiência em diplomacia e política de saúde global, de modo a contribuir para um mundo mais seguro e saudável». Com os resultados que estão à vista…

Os casos que vieram a público estão relacionados com «as Américas», o velho «quintal das traseiras» do império. Nada nos garante, porém, que os tentáculos do OGA fiquem por aí e não desenvolvam outros exercícios de «persuasão» contra os «Estados mal-intencionados» por exemplo na União Europeia, encarada de Washington como uma possessão ultramarina do mesmo império.

Poderá parecer especulação, uma abusiva transposição. Deixará de sê-lo, porém, se prestarmos alguma atenção ao comportamento da Comissão Europeia e da Agência Europeia do Medicamento (EMA) em tudo quanto diz respeito à aprovação, comercialização e inoculação das vacinas contra a Covid-19.

Muitas vezes a chave da realidade está nos pormenores. Então vale a pena atentar neste: a EMA considera que os países da União Europeia em vias de começar a fabricar e a utilizar a vacina Sputnik V estão a «jogar à roleta russa», uma vez que ela não foi aprovada pela própria agência europeia. Estamos, sem qualquer dúvida, perante um esforço de «dissuasão» bem ao estilo do OGA do Departamento norte-americano da Saúde e Serviços Humanos.

O que na verdade vários países da União estão a fazer ao preparar-se para produzir e utilizar a vacina russa é, afinal, uma fuga à malha de ineficácia tecida pela Comissão Europeia e pela EMA agindo como central de selecção, compras e distribuição de vacinas para favorecer alguns imunizantes em detrimento de outros – claro, os produzidos por «Estados mal-intencionados».

Soberania e saúde

Entre os países europeus que se preparam para produzir a Sputnik V, mercê de acordos estabelecidos com as autoridades russas, estão a Alemanha, a França, a Espanha e a Itália, nações com influência determinante na União Europeia. Não há maior confissão do fracasso de Bruxelas ao assumir o controlo do processo de vacinação nos 27 do que esta situação. E não há maior sinal de seguidismo doentio e nocivo para a saúde pública do que aquele que é dado pelos países que continuam agarrados à fracassada estratégia da Comissão Europeia e à discricionariedade da EMA, entre os quais Portugal. E não, não é uma questão de escala ou dimensão: entre os membros da União que vão fabricar a vacina russa está a Finlândia.

«Quando se pretende fazer crer que a Rússia e a China usam a vacinação contra a Covid-19 com o intuito de reforçar a influência geopolítica, o que acontece é precisamente o oposto: os Estados Unidos e a União Europeia politizam, de facto, a questão das vacinas chinesas e russa desenvolvendo propaganda para as desacreditar, inoculando o medo e a dúvida ou manipulando o mercado para as segregar»

Mais uma vez, o que está em causa é a soberania nacional e a capacidade de agir com independência e coragem em defesa das populações. Não é verdade, portanto, que o governo da República Portuguesa esteja a fazer tudo ao seu alcance para defender a saúde pública atacada pela Covid-19.

E, no entanto, não é necessário ser muito perspicaz para perceber que a pandemia confirma a total incapacidade da União Europeia para lidar com os problemas reais dos cidadãos dos Estados membros. Na primeira fase do combate, no Inverno/Primavera de 2020, a União desapareceu de cena e os países adoptaram a estratégia de cada um por si; chegada a hora da vacinação, a Comissão Europeia pretendeu controlar o processo e estamos novamente a caminho da situação de cada um por si. Alguns países já fabricam ou irão produzir vacinas que não foram aprovadas no espaço europeu; e outros já estão a ministrar a vacina russa sem se preocuparem com a «autorização» de Bruxelas, como é o caso, pelo menos, da Hungria, da República Checa e da Eslováquia.

Quando se trata de impôr a austeridade, de asfixiar a soberania dos Estados membros, de abolir direitos cívicos, sociais e laborais dos cidadãos, a União Europeia avança com as velas do federalismo bem enfunadas: veja-se a pressa com que pretende criar o «certificado verde» sanitário, violando a privacidade dos cidadãos e instaurando um apartheid entre vacinados e não vacinados; mas quando o que está em causa é proteger as pessoas a União não sabe e, na realidade, não quer. Não nasceu e não existe para isso.

A narrativa ao contrário

Ambientes como estes são naturalmente permeáveis a manobras de «dissuasão» teleguiadas de Washington como armas de uma guerra fria que não poupa sequer a saúde pública e interpreta a realidade ao contrário. Quando se pretende fazer crer que a Rússia e a China usam a vacinação contra a Covid-19 com o intuito de reforçar a influência geopolítica, o que acontece é precisamente o oposto: os Estados Unidos e a União Europeia politizam, de facto, a questão das vacinas chinesas e russa desenvolvendo propaganda para as desacreditar, inoculando o medo e a dúvida ou manipulando o mercado para as segregar.

A EMA foi muito lesta a aprovar as vacinas produzidas pelos gigantes farmacêuticos Pfizer, Moderna e AstraZeneca, não hesitando sequer em dar luz verde a técnicas de fabrico nunca experimentadas em seres humanos, fazendo com que estes funcionem, de facto, como cobaias – e violando o Código de Nuremberga, que, no rescaldo das barbaridades nazis, proibiu experimentações em pessoas. As suspensões em série da utilização do imunizante da AstraZeneca, atrasando ainda mais o atrasadíssimo processo de vacinação na União Europeia, não são um bom presságio quanto aos procedimentos da EMA e à chancela política que lhes é dada pelos discricionários eurocratas.

Ao invés, a mesma EMA não teve ainda tempo para debruçar-se sobre a Sputnik V, por sinal a primeira de todas as vacinas contra a Covid-19 a ser produzida; acresce que esta agência europeia tem em seu poder, pelo menos desde 29 de Janeiro, todos os elementos necessários para fazer uma avaliação conclusiva, de acordo com informações divulgadas pelas autoridades russas. De então para cá, no entanto, a EMA já aprovou duas outras vacinas, muito mais recentes mas com a conveniente chancela «ocidental».

Mentiras e preconceitos de Ursula

Estamos perante um comportamento que visa evitar a utilização da vacina russa nos Estados membros da União Europeia, forçando muitos destes a contornar o diktat de Bruxelas negociando isoladamente com Moscovo para defender a saúde dos seus cidadãos. Mesmo que, por absurdo, não haja pressão directa do Departamento da Saúde dos Estados Unidos, Bruxelas há muito que assimilou a lição imperial sobre os «Estados mal-intencionados», mesmo que isso agora signifique, literalmente, a perda de vidas humanas.

«não há maior sinal de seguidismo doentio e nocivo para a saúde pública do que aquele que é dado pelos países que continuam agarrados à fracassada estratégia da Comissão Europeia e à discricionariedade da EMA, entre os quais Portugal. E não, não é uma questão de escala ou dimensão: entre os membros da União que vão fabricar a vacina russa está a Finlândia»

Além de impor a rejeição de vacinas existentes e disponíveis, a Comissão Europeia continua a enredar os Estados europeus na cadeia de atrasos sucessivos nos fornecimentos contratados com os laboratórios «bem-intencionados». Não admira que seja cada vez maior o número de países da União que tomam o processo de vacinação nas próprias mãos, defendendo a saúde dos cidadãos perante interesses que põem o clima de guerra à frente do respeito pela vida.

De uma maneira muito reveladora do seu manobrismo assente em mentiras e preconceitos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, argumenta que a produção da vacina russa «seria incapaz de corresponder à procura» europeia. Mas será que a Pfizer responde? A Moderna responde? A AstraZeneca responde? No entanto, os laboratórios russos garantem que estão em condições de produzir mil milhões de doses da Sputnik V para os mercados internacionais durante o ano em curso. De tal maneira que o próprio Brasil, mesmo directamente ameaçado por Washington, acaba de encomendar dez milhões – mas entretanto quantas vidas se perderam?

Chegámos a uma situação em que a própria OCDE apela à União Europeia para acelerar a vacinação. Mas como, se Bruxelas, refém dos contorcionismos da guerra fria, insiste em comprar o que chega quando chega enquanto se recusa a comprar o que poderia chegar a tempo e horas?

Chama-se a isto defender a saúde das pessoas, respeitar os direitos humanos?


José Goulão, Exclusivo O Lado Oculto/AbrilAbril

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