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Um português em Hollywood para levar filmes «intrusos»

O AbrilAbril entrevistou Luís Urbano, recentemente nomeado para integrar a Academia de Hollywood, sobre o trabalho da sua produtora, O Som e a Fúria, e os desafios que se colocam ao sector.

Luís Urbano
Luís Urbano Créditos / Comunidade Cultura e Arte

AbrilAbril: Começava por perguntar como descreverias o percurso e o crescimento da produtora O Som e a Fúria? Quais são as linhas que definem os projectos desenvolvidos?

Luís Urbano (LU): O Som e a Fúria é uma produtora que já tem um longo historial, tendo nascido em 1998, já vai nos seus 22 anos. Podemos caracterizar duas fases: uma primeira em que nos dedicámos exclusivamente a curtas-metragens, em que trabalhámos bastante com um leque de autores assentes num dos sócios fundadores que era o Sandro Aguilar. Produzíamos os filmes do Sandro Aguilar e os do Miguel Gomes, e a partir de certa altura os do João Nicolau. Digamos que são aqueles realizadores que podemos dizer residentes, no sentido em que todos os filmes foram feitos connosco. E a partir de certa altura o trabalho alargou-se a outros autores: começámos a trabalhar com regularidade com autores como o Ivo Ferreira, pontualmente com autores como o Manuel Mozos, e tendo sempre a porta aberta para novos autores, como é o caso da Denise Fernandes.

«A nossa linha é sempre muito a de uma aposta naquilo a que chamamos uma singularidade de olhar»

AA: E o filme do Gonçalo Waddington que estreia esta quinta-feira foi também uma primeira vez?

LU: Sim, o Gonçalo Waddington também fez o seu primeiro filme connosco. Isto no âmbito nacional, e depois no âmbito internacional, somos a produtora em Portugal dos filmes do Eugène Green, já fizemos dois filmes com ele: A Religiosa Portuguesa e Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, que foi uma curta-metragem que esteve há dois anos em Locarno. Outro exemplo é o Ira Sachs, um realizador americano que fez connosco a sua longa-metragem, Frankie, um filme rodado em Sintra, ou também a Lucrecia Martel, que co-produzimos.

No Brasil temos tido também bastante actividade, até ao momento em que a desgraça brasileira veio ao de cima com o processo de impeachment da Dilma e consequentemente com a eleição do Bolsonaro; portanto, as coisas estão paradas lá. Mas temos trabalhado com realizadores como a Laís Bodanzky, uma realizadora de São Paulo, e o Filipe Bragança, um realizador carioca com quem fizemos Um Animal Amarelo, que vai estrear em Novembro, uma fábula que envolve os territórios de Brasil, Portugal e Moçambique.

«Não produzimos um filme porque temos que produzir um filme, produzimos filmes de autores (...) que têm uma componente forte, uma impressão digital, que o torna único e cujo universo poderá ter algum potencial»

Isto tudo para dizer que a nossa linha é sempre muito a de uma aposta naquilo a que chamamos uma singularidade de olhar. Nós trabalhamos com projectos e com autores em relação aos quais temos a convicção e a crença na sua originalidade, de que quando estamos a desenvolver o trabalho com eles estamos a fazer coisas únicas, e não a fazer coisas inspiradas exclusivamente em coisas que já existem. 

AA: Com receitas de sucesso pré-cozinhadas?

LU: Exactamente. Trabalhamos acreditando sempre que vale bastante a pena destacar a singularidade do universo que estes autores nos trazem. Isso para nós é bastante importante. Não produzimos um filme porque temos que produzir um filme, portanto produzimos filmes de autores e por considerarmos que acompanhámos o processo desde o início da criação e acreditarmos que têm uma componente forte, uma impressão digital, que o torna único e cujo universo poderá ter algum potencial.

AA: As limitações que agora vivemos de certa forma puseram a nu uma série de fragilidades, características e problemas que já existiam em vários sectores. Como é que sentiram esta fase?

LU: Nós estávamos a preparar-nos para no mês de Junho ir para o Brasil filmar uma longa-metragem, um projecto bastante ambicioso do Miguel Gomes, que se chama Selvajaria e que é uma adaptação de um livro que se chama Os Sertões, a Guerra de Canudos, do Euclides da Cunha, escrito no início do século XX.

AA: E sempre vai para a frente? Entretanto houve um apoio de Locarno para esse filme.

LU: Exacto. O Festival de Locarno escolheu dez filmes internacionais que ficaram interrompidos por causa da pandemia, e este filme estava nessa escolha. 

«Estamos a tentar fazer um esforço muito grande para evitar que esses custos sejam amortecidos por redução da massa salarial»

O primeiro grande impacto que sentimos com a pandemia e com a crise sanitária foi precisamente ter que levantar o pé relativamente a uma série de projectos que tínhamos para avançar ainda este ano e também repensar alguns projectos. São projectos que ainda estamos a perceber como fazer em lógica de distanciamento social. Depois há o impacto económico: mesmo que faças essa tentativa de filmar com distanciamento social, os custos aumentam, nomeadamente nas questões da segurança sanitária, testes, desinfecção de espaços onde vais filmar. Mas há também outro impacto, talvez mais pesado, que é sobre o ritmo de trabalho que estabeleces para conseguires preservar, na medida do possível, as regras de distanciamento social. 

Em termos de velocidade, as coisas que tínhamos planeadas para filmar num contexto normal, já não as vamos poder fazer nos tempos que estávamos habituados a fazer, seis semanas, sete semanas. Há aqui um impacto relativamente ao tempo que multiplica os custos. E como nós estamos a tentar fazer um esforço muito grande para evitar que esses custos sejam amortecidos por redução da massa salarial, ou seja, aquelas soluções capitalistas óbvias, que é «baixa-se salários e já se compensa», não vamos enveredar por aí, portanto estamos à procura de soluções. 

Sobretudos os projectos que foram mais atingidos, que já estavam em rodagem e que foram interrompidos, agendados para este período... levámos numa proposta de planos de contingência ao ICA [Instituto do Cinema e do Audiovisual] e ao secretário de Estado da Cultura e do Audiovisual, e finalmente começa a avançar. 

AA: Isso com apoios do Ministério da Cultura?

LU: Neste caso, por incrível que pareça, não. Será feito com descativação de saldos de gerência que o ICA foi acumulando e que não pode utilizar por regras de finanças. Na prática não vai custar mais.

Há ainda outro tipo de impacto que é o facto de esta crise ter trazido à superfície situações muito complexas que já existiam e que não foi a Covid-19 que as provocou — apenas ajudou a trazê-las à vista de todos — e que tem a ver com as condições miseráveis e com a falta de regulamentação deste sector, com as questões laborais, com o facto de não haver um estatuto de intermitentes e de ser enorme a fragilidade social dos técnicos e dos profissionais. 

«Esta crise tem trazido à superfície situações muito complexas que já existiam e que não foi a Covid-19 que as provocou»

As pessoas tanto podem estar durante três meses com uma actividade muito intensa, como podem ficar três ou quatro meses sem trabalhar. O impacto imediato causado pela pandemia no emprego do sector pôs a nu aquilo que já sabíamos que existia mas que com uma certa regularidade de produção era atenuado, que é o facto de a maior parte de estas pessoas não ter acesso a qualquer apoio social.

Por exemplo, em 2018, tive várias produções, foi um ano bastante intenso. Produzi quatro longas-metragens, duas longas-metragens documentários e duas curtas-metragens. Mas só em Setembro de 2019 é que soube quanto é que tinha de pagar de Segurança Social pelos independentes que trabalharam comigo. Eu pago uma taxa máxima de 10% que vai permitir a essas pessoas, juntando aos descontos que são obrigadas a fazer, almejar alguma protecção no desemprego, mas apenas se 80% do seu rendimento tiver sido gerado comigo. Na prática, este sistema é altamente penalizador porque favorece os falsos recibos verdes.

Se trabalhas em decoração, guarda-roupa, iluminação, e o teu ano correu bem, conseguiste fazer quatro produções, para quatro entidades diferentes, o que vai acontecer é que o teu rendimento desse ano não foi gerado em mais de 50% por nenhuma das entidades. Logo, nenhuma dessas entidades vai pôr um tostão em cima daquilo que tu descontaste. Isto tem que ser de uma vez por todas eliminado. Tem que se criar um sistema que seja justo e adequado.

AA: Falando agora um pouco sobre a tua nomeação para membro da Academia de Hollywood. O que foi noticiado é que, de certa forma, estas recentes nomeações vêm no seguimento das críticas que têm sido feitas aos Óscares, numa tentativa de diversificar o painel, relativamente ao género, às culturas e latitudes dos membros. No teu caso, é uma forma de chamar também o que se tem feito no cinema em Portugal para esse equilíbrio?

LU: A academia tem feito, nos últimos dois, três anos, esse esforço de tentar ganhar abrangência e sobretudo tentar reequilibrar questões de género, raciais, culturais e, portanto, estender-se. 

Quanto aos processos de convite, são os pares que nomeiam. O que aconteceu foi que um produtor argentino com quem já trabalhei, o produtor da Lucrecia Martel, juntamente com uma produtora alemã, com quem também já trabalhei, a produtora dos filmes da Maren Ade, do Toni Erdmann, que se chama Janine Jackowski, perguntaram-me se eu estava disponível para me indicarem à Academia.

«Há brechas que se abriram e que levam a que estes filmes, digamos mais «intrusos», menos óbvios, também comecem a ser mostrados»

Depois, a Academia faz um processo de avaliação, para perceber se és merecedor ou não daquele convite. Portanto, o que é que isso significa? Para mim, objectivamente, significa o reconhecimento daquilo que faço, inicialmente, por dois colegas meus, e depois porque fui alvo desse escrutínio, por parte da Academia. 

Não é que eu seja ideologicamente muito próximo das lógicas corporativas que se ligam à Academia, mas tenho que reconhecer que é importante para mim, do ponto de vista de valorização do meu trabalho. Depois, acho que tem um bom impacto para o cinema português. Creio que sou único produtor português que faz parte da Academia. Há outros portugueses que fazem parte... A Regina Guimarães, por exemplo, pelo lado do cinema de animação, e acho que há mais nomes de técnicos, um técnico de som que não trabalha em Portugal. Vale o que vale. Confesso que mesmo para aquilo que são as minhas posições políticas neste sector me vai dar mais peso.

AA: Este ano já houve uma grande novidade: o primeiro filme estrangeiro a vencer a categoria de melhor filme. Achas que de facto há uma transformação a acontecer nesse nível?

LU: Há, até porque há uma própria realidade que tem surgido nos últimos tempos que é facto de o cinema não viver só daquilo que os grandes estúdios americanos fazem. Há brechas que se abriram e que levam a que estes filmes, digamos mais «intrusos», menos óbvios, também comecem a ser mostrados. Eu serei mais uma voz dentro da Academia, todos os anos, a escolher aquilo que são os nomeados para os Óscares, portanto. 

AA: De certa forma, voltamos ao início da nossa conversa. Aquilo que fazes, a forma como trabalhas e como olhas para o cinema também se irá reflectir na forma como vais tomar posições no seio da Academia de Hollywood.

LU: Sim, com certeza. Não é possível desligar uma coisa da outra. Espero que eles estejam bem cientes daquilo que fizeram. Agora aturem-me. 

AA: Podíamos terminar esta conversa com produções d'O Som e a Fúria que as pessoas possam ver entretanto...

LU: Sim, gostava de chamar a atenção, já esta quinta-feira, dia 23 de Julho, para a estreia de um filme português, Patrick, a primeira longa-metragem do Gonçalo Waddington, que estreou no ano passado na competição do Festival de Donostia/San Sebastián. É sobre uma temática dura. Vamos encontrar um jovem adulto que foi raptado em criança e que foi vítima de um pedófilo. A ideia do filme é percebermos quem é este personagem, entretanto com 20 anos. É o primeiro filme de produção portuguesa a estrear este ano e acho que é uma belíssima razão para voltarmos aos cinemas, vai estar por todo o País, em 14 salas.

Também o filme da Denise Fernandes, Nha Mila, que vai estar na competição do Festival de Locarno. Juntamente com outras duas curtas-metragens que já filmámos e uma que vamos filmar em Outubro, faremos uma colecção, quatro filmes de quatro universos distintos, para pôr em sala no primeiro semestre do próximo ano.

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