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«O país mais violento do mundo conseguiu negociar a paz, ao contrário da Europa»

Organizado pela Fundación Yuste, na Extremadura, em torno do centenário de Saramago, o encontro reuniu académicos, tradutores e escritores, entre eles o nicaraguense Sérgio Ramírez e a colombiana Laura Restrepo.

O escritor Sérgio Ramírez, vice-presidente da Nicarágua entre 1985 e 1990 e Laura Restrepo, que em 1982 fez parte das negociações de paz entre o estado colombiano e a guerrilha M-19. 
O escritor Sérgio Ramírez, vice-presidente da Nicarágua entre 1985 e 1990 e Laura Restrepo, que em 1982 fez parte das negociações de paz entre o estado colombiano e a guerrilha M-19. Créditos / DR

Foi uma muito emocionada escritora Laura Restrepo, colombiana, e um menos optimista prémio Cervantes, o escritor nicaraguense Sérgio Ramírez, que se reuniram no encontro «Diálogos Ibéricos: um minuto, um século», organizado pela Fundação Yuste, na Extremadura. O debate dos dois escritores latino-americanos, em torno da obra e do activismo humanitário de José Saramago, aconteceu na segunda-feira, dia 27 de Junho, nos claustros do Mosteiro de Yuste, com a moderação do jornalista do Babelia, suplemento cultural do El País.

Profundamente admiradores de José Saramago, ambos travaram conhecimento com a obra do Nobel português, através do livro Evangelho Segundo Jesus Cristo. Curiosamente o livro que levou ao exílio voluntário de Saramago em Lanzarote, depois do ver o seu nome excluído por um governante do PSD (mais recentemente do Chega) da selecção de um prémio europeu.

O autor de ¿Te dio miedo la sangre? (1978), Sérgio Ramírez, teve de abandonar por algum tempo a carreira literária para se incorporar na revolução sandinista, que derrotou a ditadura de Somoza. Ramírez assumiu, posteriormente, durante 5 anos, a vice-presidência da Nicarágua.

«A esquerda tem de ser ética e democrática. Se se tira a liberdade deixa de ser esquerda e torna-se uma ditadura, como qualquer outra», afirma, acrescentando que «Saramago veria com esperança o que se passa na Colômbia e com muita tristeza o bolsonarismo do Brasil».

Ambos os escritores admiram a linguagem poética, alegórica e nunca «panfletária» de Saramago, mostrando que, nas palavras de Laura Resterpo, é possível falar literariamente de mudança, de igualdade, de luta contra o racismo e machismo e o empobrecimento das populações desfavorecidas. «As personagens de Saramago rompem o cerco do esquecimento. Em cada homem estão todos os homens; em cada mulher estão todas as mulheres».

Actualmente professora emérita da Universidade de Cornell (EUA), a muito premiada escritora colombiana Laura Restrepo mostrou-se muito optimista quanto à recém eleição de Gustavo Petro (à frente de uma coligação progressista): prenuncia o «fim a quatro décadas muito sangrentas de violência armada na Colômbia. O país mais violento do mundo conseguiu negociar a paz, ao contrário do que sucedeu na Europa, que não conseguiu com a guerra na Ucrânia».

O encontro contou ainda com a participação de de Pilar del Río, tradutora e presidente da Fundação Saramago, Carlos Reis, professor catedrático e comissário para o centenário de José Saramago e Ana Paula Arnaut, professora catedrática de literatura portuguesa contemporânea.

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