A história de amparo entre duas famílias fragmentadas é o centro do filme Terra Vil, em que Luís Campos retrata também uma comunidade e uma região marcadas pela tragédia de Entre-os-Rios, que cumpre 25 anos no próximo dia 4 de Março.
Em entrevista à Lusa, Luís Campos explicou que tinha vontade de retratar, pela ficção, uma paisagem humana e física do Interior do país, que deixasse transparecer «uma certa portugalidade». Fê-lo a partir da história de duas famílias independentes, mas com vínculos afectivos, que na prática formam uma espécie de família disfuncional.
No filme rodado em Castelo de Paiva, Penafiel e Entre-os-Rios, uma das famílias é interpretada por Ruben Gomes (António) e pelo jovem actor William Cesnek (João). Pescador, António é um pai instável que luta contra um problema de alcoolismo, mergulhado num mundo de silêncio ensurdecedor, que nos deixa perceber o amor que nutre pelo filho. João, de 12 anos, personagem com que talentosamente William Cesnek se estreia na ficção, está em situação de risco. Na casa vizinha, a outra família é interpretada pelas actrizes Lúcia Moniz (Teresa), Beatriz Relvas (Liliana) e Francisca Sobrinho (Paula), no papel de uma mãe e duas filhas adolescentes, que ajudam na educação de João e na apanha e venda de lampreia.
Mais do que uma rede de apoio para João, Teresa, Paula e Liliana, por quem o jovem nutre uma forte devoção, correspondem a uma ideia de família, cuidado e amor, que o comportamento errático do pai consegue ameaçar.
A história destas cinco personagens interliga-se igualmente com o impacto do encerramento das Minas do Pejão (Castelo de Paiva), nos anos 1990, com as alterações climáticas, que afectam a rentabilidade do negócio da apanha da lampreia, e com a memória da queda da ponte Hintze Ribeiro, em 2001. «Não queríamos ficar ricos, mas daí a só se lembrarem de nós quando a ponte caiu...», critica uma das personagens.
O filme questiona ainda as noções de masculinidade, opressão, poder patriarcal e violência de género. «O meu objectivo com este filme passa por poder espelhar, na perspectiva de um corpo/personalidade em construção, um dilema moral que possa suscitar uma reflexão sobre as definições de opressão e de masculinidade que derivam de uma sociedade patriarcal e que promovem a condenação da liberdade juvenil e feminina», referiu Luís Campos na apresentação da sua primeira longa-metragem, que já marcou presença em festivais internacionais, como a Mostra de São Paulo e Tallinn Black Nights Film Festival. No IndieLisboa – Lisbon Screenings 2025 recebeu o Prémio do Júri.
Luís Campos é autor das curtas-metragens Carga (2017), Boca cava terra (2022) e Monte Clérigo (2023).
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