Numa entrevista a Jairo Vargas para o portal basco naiz.eus, nos campos de refugiados de Tinduf, Arabi, que foi delegado saarauí no País Basco entre 2016 e 2020, destacou o «apoio social e institucional» que chega ao seu povo de terras bascas.
«Enorme e bem consolidado, só temos palavras de gratidão. Existem muitos projectos com apoio basco que nos ajudaram a consolidar as instituições do futuro Estado saarauí a que o nosso povo aspira», disse, caracterizando alguns desses projectos como «muito simples» e outros como «projectos de cooperação para o desenvolvimento em grande escala».
Na wilaya de Auserd, no deserto argelino, onde no passado dia 2 terminou a XIX edição do festival de cinema FiSahara, frisou «a importância fundamental» do festival, que «permitiu ao povo saarauí participar não só na esfera cultural e cinematográfica espanhola, mas também noutros festivais em todo o mundo».
«Tem-se revelado crucial para divulgar a nossa realidade, a de um povo que vive em campos de refugiados em consequência de uma descolonização incompleta, mal gerida pela potência administrativa, Espanha, que continua a ter responsabilidades e obrigações para com o povo saarauí, mas que, longe de as cumprir, alinha cada vez mais com as exigências de Marrocos», disse.
Situação internacional «perigosa»
Com a causa saarauí a sofrer vários reveses e a parecer marginalizada num mundo em que «a ordem internacional se desmorona» e «se inclina para a lei do mais forte», Abdulah Arabi caracterizou a situação actual como «perigosa» para o povo saarauí, para as democracias e a soberania dos países e dos povos.
«Não tivemos a vida fácil nestes últimos 50 anos. Hoje, o caminho do direito internacional, no qual sempre se baseou a nossa luta, está ameaçado pelas potências ocidentais, que priorizam os seus interesses económicos em detrimento da legalidade internacional», alertou.
«Durante 50 anos, aguentámos o insuportável, resistindo em campos de refugiados e vivendo de ajuda humanitária para defender o direito internacional, a nossa autodeterminação e independência, e a soberania do território do Saara Ocidental», declarou o representante da Frente Polisário – organização fundada a 10 de Maio de 1973 – na entrevista ao portal basco.
Proposta de autonomia marroquina apoiada por Espanha
A chamada «traição de Sánchez» ao povo saarauí, ao apoiar a proposta marroquina de autonomia para o Saara Ocidental, continua «atravessada» e a merecer amplas críticas da Frente Polisário, que destaca a «incoerência» do primeiro-ministro espanhol, com um discurso para o Médio Oriente e outro para o Saara Ocidental.
«Está a defender o direito internacional nalgumas partes do mundo, enquanto o ignora deliberadamente no Saara Ocidental», criticou Arabi.
Sobre o facto de a renovação da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Saara Ocidental (MINURSO) mencionar, pela primeira vez, a soberania marroquina como uma possível solução, o representante da Frente Polisário considera que se trata de «mais um reflexo da actual conjuntura internacional».
«A resolução põe em risco o direito internacional, que é o fundamento da questão da descolonização do Saara Ocidental, incluída na Quarta Comissão das Nações Unidas», afirmou, defendendo que «Marrocos quer manter o status quo da ocupação e, para isso, precisa de algo que valide a sua ocupação do nosso território pela força e pela pilhagem».
Sobre as relações com o governo espanhol, Arabi sublinhou que a ruptura oficial se mantém, na sequência da mudança de posicionamento declarada pelo actual primeiro-ministro.
«Gostaríamos que a Espanha, que continua a ser a potência administradora do Saara Ocidental, tivesse liderado as iniciativas para ultrapassar o actual impasse. Longe disso, o país aliou-se às exigências de Marrocos, o que contraria o direito internacional, rompe com o consenso que sempre existiu na política externa espanhola e a desqualifica como mediadora», frisou, lembrando que a ocupação marroquina «foi consequência do abandono de Espanha».
Guerra persiste mas a solução é a paz
Apesar do «manto de silêncio que a envolve», «a guerra persiste desde 2020, ceifando vidas humanas diariamente», lamentou Abdulah Arabi, que defendeu a «acção militar» como «direito à autodefesa para os povos sob ocupação».
Reconhecendo a superioridade militar marroquina, o representante da Frente Polisário sublinhou que «Marrocos não conseguiu eliminar o povo saarauí ao longo de todos estes anos».
«Ainda aqui estamos, existimos, e é por isso que somos uma parte indispensável da equação. Ninguém quer a guerra, e nós queremos uma solução pacífica, mas no quadro do direito internacional, como uma questão de descolonização», disse, frisando que a única fórmula prevista para tal é «um referendo em que o povo saarauí decida o que quer ser».
Contribui para uma boa ideia
Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.
O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.
Contribui aqui
