Gravações áudio do WhatsApp, Signal e Telegram divulgadas pela Hondurasgate revelam uma alegada conspiração e acordos secretos envolvendo o actual presidente hondurenho, Nasry Asfura, o ex-presidente Juan Orlando Hernández (condenado por tráfico de droga), o presidente argentino, Javier Milei, e os governos dos EUA e de Israel, entre outros.
Em 2024, Juan Orlando Hernández foi condenado num tribunal norte-americano a 45 anos de cadeia por vários crimes relacionados com o tráfico de droga e armas de fogo, recorda o Canal Red, que nos últimos dias tem publicado os áudios obtidos pela plataforma referida.
No entanto, em Dezembro de 2025, o ex-presidente hondurenho foi indultado por Donald Trump, alegando que se tratava de um caso de perseguição política.
As gravações de áudio agora filtradas pela Hondurasgate dão a entender que o perdão de Trump teria outras motivações, sugerindo que a administração norte-americana engendrou um plano, financiado por capital israelita e por Javier Milei, e com aprovação das elites hondurenhas, para colocar o ex-presidente de novo no poder, perseguir a oposição de esquerda e levar a cabo campanhas para desacreditar os governos do México e da Colômbia.
A investigação, que abrange 37 registos áudio, foi divulgada pela plataforma referida, assim como a análise forense das gravações conduzida pela Phonexia Voice Inspector – empresa especializada em tecnologias de reconhecimento de voz e biometria –, que confirmou a sua veracidade e autenticidade.
Israel teve «tudo a ver» com a libertação de Hernández
Numa das gravações, o ex-presidente hondurenho afirma que o primeiro-ministro israelita teve «tudo a ver» com a sua saída da cadeia, e precisa que o dinheiro para o perdão «veio de um conselho de rabinos e de pessoas que apoiavam Israel».
O roteiro do plano que as gravações mostram apresenta o actual presidente hondurenho, Nasry Asfura – que assumiu o cargo na sequência das contestadas eleições celebradas em Novembro último –, como uma espécie de elemento de transição para facilitar o regresso do condenado e indultado Hernández à presidência das Honduras.
Numa das gravações, Juan Orlando Hernández dirige-se a Asfura e lembra-lhe que é graças a ele que «está sentado nessa cadeira». «Presidente, serei eu. E conto com o seu apoio. Porque foi isso que discutimos com o presidente Trump», diz.
Por seu lado, a vice-presidente hondurenha, María Antonieta Mejía, diz a Hernández que «estão preparados», e que «é preciso começar a dizê-lo outra vez», «o povo ama o presidente Juan Orlando».
Indulto em troca de…
O Canal Red sublinha que, com base nas gravações, se torna evidente que toda a manobra do perdão a Hernández é realizada para beneficiar Washington de várias formas, incluindo a construção de uma nova base militar nas Honduras; a expansão de zonas especiais (ZEDES) em que as Honduras cedem a sua soberania ao capital privado estrangeiro; a promulgação de legislação sobre inteligência artificial favorável aos interesses norte-americanos e israelitas; a construção de um centro de confinamento do terrorismo em Tegucigalpa (ao estilo das cadeias de Bukele em El Salvador).
Numa das gravações, o actual presidente, Nasry Asfura, faz a Hernández uma espécie de balanço das várias iniciativas tomadas a favor dos interesses e do capital norte-americanos: «Presidente, é um prazer cumprimentá-lo. Já tivemos uma reunião privada com grupos de investimento, e estão muito optimistas com a expansão da ZEDE em Roatán e em Comayagua, bem como em Palmerola. Vamos realocar outro projecto de Palmerola especificamente para Roatán, onde está a prosperar. Uma base, aliás, já negociámos isso. Além disso, o corredor interoceânico. Vamos entregá-lo à General Electric.»
Outros alvos na América Latina
As gravações mostram que o alcance da operação não é exclusivamente hondurenho, dando conta da criação de uma célula informativa, nos Estados Unidos – alegadamente montada com recursos públicos hondurenhos e contributos generosos do governo argentino liderado por Javier Milei –, para «atingir mediaticamente» Gustavo Petro, na Colômbia, Claudia Sheinbaum, no México, e a família Zelaya, nas Honduras.
Numa das gravações, depois de pedir a Asfura que transfira 150 mil dólares para uma conta, Juan Orlando Hernández afirma: «Vamos montar uma célula, presidente. Aqui, nos Estados Unidos, um centro de informação, para que não nos consigam rastrear aí nas Honduras. Vai ser como um site de notícias da América Latina. Falei por telefone com o presidente Javier Milei, e foi muito, muito bom. E penso que, neste momento, podemos fazer grandes coisas para toda a América Latina. Estão em curso uns processos contra o México, alguns contra a Colômbia e, principalmente, contra as Honduras, neste caso contra a família Zelaya.»
Numa outra gravação de áudio, Hernández diz à vice-presidente hondurenha, María Antonieta Mejía: «Com o apoio de alguns republicanos, podemos atacar e erradicar o cancro da esquerda nas Honduras e em toda a América Latina. Estava a dizer ao presidente Asfura que conseguimos falar com Javier Milei, e ele também está a contribuir com 350 mil dólares. Outro grande amigo nosso do México também nos está a apoiar, especificamente para a questão mexicana. Estamos bastante preparados e a torcer para que isto avance com força.»
O Canal Red destaca, com base nas gravações filtradas, que está em causa uma «operação de ingerência dos EUA e Israel na América Latina», que usa as Honduras como base e coloca um ex-presidente, condenado por narcotráfico, às suas ordens, tendo como alvo a esquerda, governos progressistas e interesses chineses na região.
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