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Cuba. Uma longa história de agressão e resistência, mas também de solidariedade 

Desde 1960 que os cubanos vivem sufocados por um embargo genocida e criminoso, em violação da Carta das Nações Unidas e do direito internacional. Apesar disso, a Ilha resiste e é solidária com o mundo.

CréditosErnesto Mastrascusa / EPA

Assinalámos recentemente o primeiro aniversário do apagão que deixou Portugal sem energia eléctrica por várias horas, obrigando a limpar o pó aos velhinhos rádios a pilhas, procurar velas e regressar a casa pelo próprio pé, entre vários inconvenientes, numa desorientação agravada pelo que já não imaginamos possível: não poder usar o telemóvel. Esta excepção com que lidámos no dia 28 de Abril de 2025 é o quotidiano do povo cubano, realidade que se agravou desde o início do ano.

Habituados a lidar com as contrariedades, a saber dar utilidade ao desperdício, ou não estivessem desde 1960 asfixiados por um embargo imposto pelos EUA, os cubanos teriam muitas sugestões para nos ajudar a lidar com o fenómeno de há um ano. Ajuda é um termo que conhecem, tanto do ponto de vista de quem recebe, como de quem dá, e são vários os países a beneficiar da sua solidariedade, designadamente através das brigadas médicas, apelidadas de «exércitos de bata branca». Por alturas da covid-19 (e depois disso), Itália foi um dos que aproveitaram a vinda de especialistas cubanos para lidar com epidemia.

Apesar das dificuldades sentidas na maior ilha das Antilhas, o desenvolvimento do sistema de saúde desde o triunfo da Revolução, que motiva a asfixia económica por parte dos EUA, tem beneficiado o povo cubano e o mundo, com cerca de 600 mil médicos enviados para 165 países. Mas também este exemplo altruísta de cooperação perturba a política norte-americana, que quer obrigar os países que mantêm a parceria com Cuba a romper esses acordos, nomeadamente com ameaças de restrições de visto. Em 2025, cerca de 24 mil profissionais de saúde cubanos actuavam em cerca de 60 países de África, Américas e Europa. 

Ao mesmo tempo que presta auxílio, o país é apoiado internacionalmente, como aconteceu no mês de Março, em que um «comboio de solidariedade» levou toneladas de medicamentos para Cuba, em resposta ao endurecimento das sanções.

Por cá, a acção foi apoiada pela Associação de Amizade Portugal-Cuba, que tem em curso a campanha solidária «Por Cuba! Fim ao bloqueio!», subscrita por cerca de 40 organizações, que «já fez chegar sete toneladas de ajuda do povo português a Cuba e está em vias de enviar um novo contentor», lê-se num comunicado da associação.    

Em Fevereiro deste ano, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, alertava para o risco de «colapso» humanitário, caso Cuba continuasse a ver vedado o direito de importar petróleo para atender às suas necessidades básicas, depois de os EUA terem ameaçado com tarifas os países que comercializassem combustíveis com Havana. 

Bloqueio, uma palavra de consequências trágicas

Desde Janeiro, mês da detenção ilegal do presidente Nicolás Maduro, que Cuba deixou de receber carregamentos de petróleo da Venezuela, agravando o martírio a que está submetido o povo cubano. A produção nacional cobre apenas cerca de 40% das necessidades do país, deixando um défice energético insustentável para a população cubana, que enfrenta apagões entre 12 a 18 horas, e mais nalgumas regiões. 

A paralisação de serviços essenciais, como os hospitais, é uma das consequências. No final de Março, o Ministério da Saúde de Cuba revelou que mais de 96 mil cubanos, entre os quais 11 mil crianças, aguardavam por cirurgias, com os médicos do principal hospital cardiopediátrico a serem obrigados a escolher que crianças têm acesso aos tratamentos fundamentais.

Também o acesso a água potável através de bombas eléctricas foi severamente comprometido, e a conservação da cadeia de frio para medicamentos está ameaçada. Com a escassez de combustível, as dificuldades alargam-se ao abastecimento alimentar, com a população a passar por privações severas.

Os números do último relatório nacional cubano, apresentado em Setembro de 2025, são elucidativos sobre os danos causados por esta política. No período compreendido entre Março de 2024 e Fevereiro de 2025, os prejuízos económicos ascenderam a 7556 milhões de dólares. Para se ter uma noção da dimensão diária do cerco, o bloqueio custa a Cuba mais de 20,7 milhões de dólares por dia. Considerando os danos acumulados ao longo de mais de seis décadas, a economia cubana sofreu perdas quantificáveis superiores a 170 mil milhões de dólares a preços correntes. 

Conjugação de «país falhado» e «ameaça à segurança»

Entretanto, Trump assinou na passada sexta-feira uma nova ordem que amplifica fortemente as sanções aplicadas ilegalmente a Cuba, com o argumento de a «libertar», alegando que o país representa uma «ameaça extraordinária» para a segurança e a política externa dos EUA. No decreto do presidente norte-americano constam novas medidas contra Cuba, aplicadas a todas entidades e organizações que cooperem com governo cubano nos sectores da energia, mineração, defesa ou segurança, ou que forneçam apoio material, financeiro ou tecnológico. 

A medida foi recebida em Havana com acusações de «hipocrisia» e «cinismo histórico», tendo merecido a condenação do parlamento cubano, esta quarta-feira, por se entender que ameaça mais uma vez a soberania e a autodeterminação do país caribenho, ao mesmo tempo que internacionaliza ainda mais, e de forma extrema, o bloqueio. 

Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Bruno Rodríguez, tanto o bloqueio económico e energético, quanto as novas medidas coercivas extraterritoriais, assim como a ameaça de agressão militar e a própria agressão, são «crimes internacionais». O diplomata assinalou ainda a contradição do discurso de Trump, que já apelidou Cuba de país «falhado», mas também que «seria uma honra libertá-lo», quando os EUA «tentam devastar Cuba, através de uma guerra económica, há várias décadas».

Recorde-se que Donald Trump reintroduziu a ilha antilhana na lista de alegados «países patrocinadores do terrorismo», após seis dias da sua retirada por parte da Administração Biden, agravando o cerco imposto a Cuba, cujo fim é anualmente exigido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Desde 1992 que a Assembleia-Geral das Nações Unidas vota anualmente uma resolução pelo fim do embargo económico, comercial e financeiro, aplicado de forma total pelo presidente norte-americano John F. Kennedy, que conta com a oposição reiterada dos EUA e de Israel. 

Uma tentativa de rendição mal-sucedida

O ano de 2025 testemunhou uma perigosa escalada perigosa na política externa dos EUA em relação a Cuba. Em Junho, um memorando presidencial reafirmou o compromisso de intensificar a guerra económica, sob o argumento de que a privação de recursos levaria a um colapso social. E se é certo que o recrudescimento do boicote conduz ao agravamento das condições de vida dos cubanos, a realidade demonstra, porém, que o povo continua comprometido com a soberania do país e os ideais da Revolução Cubana.

Entre os exemplos que o confirmam está o recente compromisso em defesa da soberania nacional, da paz e da Revolução, subscrito por mais de seis milhões de cubanos (6 230 973), entre 19 de Abril de 1 de Maio. A iniciativa «Mi firma por la Patria» (A minha assinatura pela Pátria), promovida por organizações da sociedade civil como resposta ao bloqueio e à guerra híbrida contra Cuba, revelou-se um exercício de soberania popular. 

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