Face ao desumano bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelos EUA a Cuba, têm sido feitas «muitas doações individuais, de instituições e de empresas», segundo a Associação de Amizade Portugal-Cuba (AAPC), que permitem contribuir para romper com um bloqueio que afecta profundamente o dia a dia do povo cubano nas suas necessidades básicas.
A AAPC afirma que a Campanha de Solidariedade prossegue, existindo neste momento «muitas doações espalhadas por todo o País», que serão recolhidas e «enviadas em mais contentores nos próximos tempos».
Entretanto, em Havana, a Associação de Amizade Portugal-Cuba juntou-se a uma comitiva de 120 delegados de 19 países da Europa e do Mediterrâneo, que integra representantes de dezenas de organizações de solidariedade, sindicatos, partidos políticos, incluindo uma delegação do Parlamento Europeu composta por representantes da Bélgica, França e Itália.
Na recepção à delegação europeia, que se junta à Flotilha Nuestra América que chega esta semana a Cuba, vinda do México, o presidente do Instituto Cubano de Amizade entre os Povos (ICAP), Fernando González Llort sublinhou que se trata de uma «comitiva de esperança», portadora de «apoio não só material, mas também moral», demonstrando «solidariedade, companhia, e mais do que palavras, resistência».
O presidente do ICAP lembrou a situação complexa em que Cuba se encontra, agravada pelas medidas tomadas pelo Governo dos EUA no final de Janeiro, impondo um cerco energético – não entra combustível no país desde o início de Dezembro. Por outro lado, recordou que «Cuba é uma sociedade organizada» e que o Governo está a «implementar programas, formas de resistir e continuar a avançar pouco a pouco, na medida em que as circunstâncias permitirem».
A delegação de solidariedade europeia em Havana integra também membros das comunidades cubanas no estrangeiro, o que levou Fernando González a falar dos «muitos compatriotas que, no exílio, defendem a sua pátria», considerando que é essa a «atitude da grande maioria de cubanos no exterior», enquanto o Coordenador Nacional dos Comités de Defesa da Revolução, Gerardo Hernández Nordelo, afirmou que «o mundo inteiro sabe que o objectivo do imperialismo é matar o povo cubano, gerar necessidades, gerar um levantamento social», lembrando os ataques em Gaza ou no Irão.
Por seu lado, Marc Botenga, deputado do Parlamento Europeu, lembrou os exemplos de solidariedade de Cuba para com o mundo, seja ao longo da história da Revolução, seja mais recentemente, no período da Covid-19, com o apoio a Itália. «O modelo cubano é exportar médicos e não exportar bombas”, disse o deputado belga, para quem as chantagens e intimidações do imperialismo, nomeadamente na cessação súbita de missões internacionalistas de médicos cubanos um pouco por toda a América Latina, são um «modelo criminoso que não podemos aceitar».
O vice-ministro cubano para a Saúde, Julio Guerra, que durante o Covid-19 foi o chefe da Brigada Médica Cubana em Turim, falou «como médico e não como ministro» para evocar os mais de 63 anos de cooperação médica com o mundo. Desde a primeira brigada na Argélia até aos dias de hoje, mais de 600 mil médicos cubanos estiveram em 165 países em missões humanitárias e internacionalistas. A brigada Henry Reeve, criada em 2005 por Fidel Castro para atender populações que passem por epidemias ou desastres naturais, tinha, na altura da epidemia do Covid-19, 58 brigadas em todo o mundo, uma delas em Itália, recorda.
Sobre a situação da saúde pública em Cuba, Julio Guerra explicou que o país atravessa um processo de reorganização do Serviço Nacional de Saúde para responder aos desafios colocados por mais um processo de asfixia provocado pelo bloqueio. Cuba tem 149 hospitais, 451 unidades policlínicas, e 10541 médicos em unidades de saúde familiar. «Como se faz isto sem combustível? Sem transporte?», questiona. As cinco toneladas de ajuda solidária que a comitiva europeia agora entregou em Havana respondem a «algumas necessidades básicas dos nossos pacientes«, mas não todas, «porque há uma série de tratamentos intensivos que precisam de outro tipo de atenção».
Também Aleida Guevara, médica, filha do guerrilheiro herói da Revolução, Ernesto “Che” Guevara, traçou um retrato muito preocupante da situação médica em Cuba, nomeadamente devido à inflação galopante que faz com que os salários dos médicos, que são dos mais elevados no país, não sejam suficientes, ao êxodo significativo de jovens profissionais qualificados para o estrangeiro e às dificuldades sentidas pelos que ficam. Aleida Guevara salientou o esforço heróico que os médicos fazem todos os dias «para conseguir chegar ao trabalho, tratar os pacientes com dignidade, com um sorriso, não desesperando e não cedendo ao cansaço», mas também as «muitas dificuldades com escassez de medicamentos, sobretudo para situações sensíveis e doenças crónicas».
Um dos hospitais visitado pela Associação de Amizade Portugal-Cuba foi o Hospital Materno Ramon González Coro, um dos mais avançados em patologias oncológicas e cardiopatias e neonatais, onde algumas das caixas com medicamentos trazidas da Europa pela comitiva foram entregues. O director, o médico Otto Rafael Recio, alertou para a grave situação, porque não se trata de mais um «mero bloqueio», mas sim uma «total asfixia». Alguns profissionais da sua equipa médica contaram vários episódios que têm enfrentado nos últimos tempos, desde apagões súbitos no meio de cirurgias iluminadas por lâmpadas de emergência, dificuldades em bombear água, geradores que consomem 120 litros de combustível por hora, 15 horas em apagão durante o colapso da rede eléctrica nacional. O director acrescentou ainda que «o objectivo é acabar psicologicamente connosco», considerando que o seu maior temor «é estar diante de uma paciente, saber que a pode salvar e não poder», por não ter os recursos «porque nos impedem de aceder a eles».
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