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Jovens médicos ingleses em greve apesar da estratégia de repressão

Milhares de jovens médicos iniciaram uma paralisação em Inglaterra que se pode prolongar até dia 13. Exigem melhores salários e mais empregos, frisando que o futuro do serviço público depende deles.

Médicos num piquete de greve em Brighton, no Sul de Inglaterra, reclamando empregos e actualizações salariais Créditos / @TheBMA

A greve anunciada dos médicos ingleses enquadra-se num conflito que dura há anos entre os profissionais de saúde e os responsáveis pelas políticas para o Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla em inglês), nomeadamente no que diz respeito ao financiamento do sistema, às condições de trabalho, aos salários e ao poder de compra dos trabalhadores.

Há mais de três anos que os médicos negoceiam e lutam pela actualização e valorização salarial, por mais empregos e melhores condições, destacando que o NHS não pode funcionar sem profissionais de saúde a trabalhar com salários e condições dignos.

Esta terça-feira, o sindicato BMA (British Medical Association) insistiu que esta «crise» era inteiramente «evitável», sublinhando que os jovens médicos enfrentam cortes salariais e um desemprego crescente, quando necessitam do oposto.

«Ninguém quer fazer greve. Mas, sem uma proposta credível sobre a mesa, os médicos não têm outra opção», declarou o sindicato na sua conta de Twitter (X).

Na mesma rede social, a BMA sublinhava, a 25 de Março, que «semanas de negociações com o governo não resultaram em progressos suficientes no que respeita aos salários, com as regras a serem alteradas à última hora».

Por isso, os médicos ingleses decidiram avançar para a greve, «para fazer com que o governo nos ouça, pare com as manobras e apresente uma proposta justa tanto sobre os empregos como sobre os salários».

Chantagem e repressão do governo

Nos últimos meses, os avanços nas negociações com o executivo de Keir Starmer tinham sido «cautelosos». De acordo com o sindicato, as alterações de última hora que o governo fez à sua proposta tornaram-na inaceitável.

Numa carta ao secretário da Saúde, Wes Streeting, já este mês, a estrutura sindical salientou que, depois destas alterações, a proposta passou a incluir menos financiamento em termos reais, a distribuir os aumentos salariais por um período mais longo e a gerar incerteza quanto à protecção contra a inflação.

Em vez de dar resposta aos problemas colocados pelos médicos, o governo de Starmer e o seu ministro da Saúde avançaram decididamente para uma estratégia de bullying, ameaçando retirar mil postos de trabalho dos 4500 que a proposta contemplava caso a greve não fosse cancelada, o que, refere a imprensa, ainda distanciou mais as partes.

As vagas em causa eram provenientes da quota de vagas de formação, que representam um elemento fundamental na estrutura geral da força de trabalho da saúde – porque a escassez crónica de médicos e outros profissionais de saúde provoca longas tempos de espera e outros obstáculos aos cuidados de saúde, refere o Peoples Dispatch.

«O número de vagas de formação disponíveis é quase 10% inferior ao número total de médicos formados, o que significa que, todos os anos, centenas de médicos recém-formados não conseguem encontrar emprego», alertou o Tribune. As vagas foram cortadas na semana passada.

Críticas e exigência renovada de mudança de rumo

A estratégia repressiva adoptada pelo governo britânico foi alvo de fortes críticas entre médicos de várias gerações, que denunciaram uma «escalada de dimensões trumpianas na sua má-fé e lógica questionável».

Membros da BMA recorreram às redes sociais para exigir que o governo mudasse de rumo e desse prioridade ao «bem-estar» do NHS e dos seus utentes. Muitos deles destacaram que a greve era o último recurso para os trabalhadores, mas que estavam dispostos a avançar para essa medida de força para retirar o serviço público da crise em que governos sucessivos o mergulharam.

«O NHS está em crise – e a solução do governo é eliminar as vagas de formação, o que provavelmente levará ainda mais médicos a sair ou a trabalhar no estrangeiro», denunciou a propósito o deputado Jeremy Corbyn.

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