No prelúdio da 76.ª Berlinale, o presidente do júri desta edição do festival de cinema, o realizador alemão Wim Wenders, juntou-se ao coro de artistas e outras personalidades que não querem arranjar problemas com o poder. Mais uma vez, a reação vem a propósito do genocídio na Palestina. O relato de Jorge Mourinha no jornal Público é elucidativo sobre o caldo em que se cozinham certas ideias.
Na conferência de imprensa que antecede o Festival, confrontado com uma interpelação do jornalista alemão Tilo Jung sobre o facto de a Berlinale ter «sido sempre grande defensora das causas iraniana ou ucraniana mas não da causa palestiniana», Wenders precipitou-se numa conclusão: «Temos de nos manter fora da política, porque se fizermos filmes políticos então entramos no campo da política». Não deixa de ser, no entanto, irónico que ao seu lado estivesse Ewa Puszcynszka, sua colega de júri e produtora de A Zona de Interesse, um filme que retrata o quotidiano de oficiais nazis e das suas famílias nas imediações de um Campo de Concentração. Pouco antes, Puszcynszka havia entrado numa espiral de contradições provocadas pela questão do jornalista sobre «tratamento seletivo dos direitos humanos» pela Berlinale – um festival com financiamentos públicos de um Governo que apoia incondicionalmente Israel, como bem assinala Jorge Mourinha.
Numa posterior declaração escrita, com o intuito de encerrar a discussão, Wim Wenders tentaria, mais uma vez, passar o ónus para uma discussão sobre cinema e política, sobre a natureza da criação artística. Porém, a questão do jornalista Tilo Jung não se dirigia necessariamente à criação artística, mas antes ao posicionamento político do próprio Festival sobre um dos mais graves problemas de direitos humanos da atualidade. Esse posicionamento foi e é inequívoco em relação a outros acontecimentos, como se viu nas escolhas conscientes da programação deste ano.
Na secção Panorama Documental da edição de 2026, por exemplo, o documentário ucraniano Traces faz um relato de violência sexual dos russos sobre mulheres ucranianas no território beligerante. Na Retrospetiva e Clássicos da Berlinale, exibiu-se o filme Kryshtalevyi Palats – um policial ucraniano que denuncia um estado totalitário. Houve ainda oportunidade para uma conferência intitulada «Lost in the 90s: Film Heritage in Transition», que aborda o problema da titularidade dos direitos autorais e do arquivo do tempo da Guerra Fria. Três exemplos de como esta edição não abandonou uma tradição de envolvimento político e que muito cinema com motivações políticas tem destaque na programação. Para que iria, então, o júri negar a dimensão e a intencionalidade política do cinema quando questionado especificamente sobre a Palestina?
Detenhamo-nos, por momentos, no histórico recente da Berlinale. Em 2024, o festival premiou o documentário No Other Land, de Basel Adra, Hamdan Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor, um coletivo de ativistas Palestino-Israelita, que denunciou a ocupação da Cisjordânia pelo Estado de Israel. Na cerimónia da entrega dos prémios, o discurso de aceitação foi dividido entre dois dos realizadores, um palestiniano e outro israelita. No final, as câmaras captaram a ovação do público, onde se encontrava Claudia Roth, a ministra alemã de Estado e da Cultura, que acabaria por ser obrigada a declarar que o aplauso havia sido apenas para o correalizador israelita.
A pressão para a demissão da ministra veio de muitas e variadas elites político-económicas da sociedade alemã. Perante as várias declarações de muitos artistas nessa edição contra o genocídio, questionou-se a linha política da programação. A Berlinale era, agora, um foco de preocupação. Roth decidiu, então, lançar uma investigação para averiguar se a Berlinale estava a cumprir o seu dever de diversidade, considerando algumas das declarações discurso de ódio contra Israel, incluindo as de Basel Adra – aquelas que a ministra tivera de negar que aplaudira e que motivaram todos estes desenvolvimentos.
Recuemos um pouco mais para que se compreenda as muitas camadas em que assentam as declarações de Wim Wenders. Em 2024, a Berlinale, tutelada pela KBB – o organismo do governo federal que gere as iniciativas culturais em Berlim, presidido pela ministra da Cultura – estava a passar por um processo de mudança da direção artística. Os codiretores Carlo Chatrian and Mariette Rissenbeek estavam em final do contrato, apesar de ter sido prometido a Chatrian que continuaria no cargo. Mas a KBB voltaria atrás nesta promessa e a saída do italiano acabaria por ficar envolta numa polémica sobre a estratégia do festival e sob a suspeita de sujeição a interesses económicos. A nova direção seria assumida por Tricia Tuttle, uma programadora estadunidense comprometida com a nova estratégia institucional e com a abertura de maiores oportunidades comerciais através dos grandes estúdios estadunidenses.
Tuttle adotou, desde então, o registo da salvaguarda da independência artística do Festival e do seu respeito pela diversidade e pela liberdade de expressão. Tudo num tom muito paternalista, claro. São proclamações que, uma vez mais, demonstram que a pressão política pode nem se fazer no campo da censura, mas nas subtilezas da programação. Porque se Tuttle foi escolhida por corresponder à estratégia preconizada pela KBB para a Berlinale, dificilmente as suas escolhas escaparão a um certo alinhamento político.
Vamos, então, acolher a ideia de que a direção artística e o júri do Festival não promovem a censura de artistas e obras. Vamos acolher a ideia de que as posições políticas desses artistas não são condicionadas. Vamos fazê-lo para não nos distrairmos daquilo que são os efeitos poderosos dos instrumentos ideológicos dominantes.
«São proclamações que, uma vez mais, demonstram que a pressão política pode nem se fazer no campo da censura, mas nas subtilezas da programação.»
A pergunta colocada pelo jornalista na conferência de imprensa com o júri dirigia-se, como já vimos, ao posicionamento de um Festival com tradição de intervenção política e com uma programação que faz escolhas, a partir de conjuntos de filmes que caracterizam uma certa geopolítica. Ao contrário do que Wim Wenders e Ewa Puszcynszka defenderam, o cinema, a arte, são veículos inescapáveis de afirmação e intervenção política e uma programação com uma linha coesa denuncia o seu posicionamento, tanto por ação como por omissão. A pergunta de Tilo Jung é, nesse sentido, muito oportuna: porque é que a Berlinale tem sido sempre grande defensora das causas iraniana ou ucraniana mas não da causa palestiniana?
Um Festival com ambições económicas, que necessita de se aliar à indústria do cinema estadunidense, terá a programação que decorrer dessa aliança, mais favorável às conceções ideológicas tanto dos seus novos parceiros como da sua tutela. O discurso estará, inevitavelmente, alinhado com as subtilezas ideológicas do cânone imperialista. Os inimigos e aliados dos EUA coincidem, curiosamente, com as denúncias seletivas acolhidas ostensivamente pelo Festival. Só assim se poderá compreender como a denúncia da ocupação e do genocídio na Palestina, perpetrados por Israel, seja um tema tão sensível e questões ligadas à Ucrânia e ao Irão (em 2023, em destaque no festival) sejam tratadas como indiscutivelmente legítimas no plano dos direitos humanos e tenham, até, honras de tema central de algumas edições, como a deste ano.
«A pergunta de Tilo Jung é, nesse sentido, muito oportuna: porque é que a Berlinale tem sido sempre grande defensora das causas iraniana ou ucraniana mas não da causa palestiniana?»
A intervenção atabalhoada de Wim Wenders contrasta, no entanto, com a sua declaração final sobre o vencedor deste ano e a importância da denúncia do despotismo. Para compreender estas contradições é importante compreender as circunstâncias em que este Festival existe. No caso da Berlinale, há um governo, uma política de Estado e uma União Europeia empenhados em garantir o domínio da opinião através dos múltiplos instrumentos disponíveis e há objetivos económicos que convocam poderosas forças do outro lado do Atlântico.
Wim Wenders e companhia não são apenas anjos alienados da realidade, artistas preocupados com a arte pela arte. Eles sabem que festivais como a Berlinale fazem escolhas. No cenário atual, ninguém que estivesse corajosamente comprometido com valores e princípios muito concretos, que fosse coerente nas suas convicções, teria lugar na mesa das decisões. Os que lá se sentam sabem bem o que têm de fazer.
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