A afirmação é do professor Pan Deng, da Universidade de Ciência Política e Direito da China, em declarações à agência Prensa Latina, esta quinta-feira.
O académico referiu que a acção dos EUA desafia a igualdade soberana dos estados e o mecanismo de segurança colectiva das Nações Unidas, ao utilizar a força sem autorização do Conselho de Segurança ou justificação de legítima defesa.
Pan Deng enfatizou que esta operação enfraquece o papel central do Conselho de Segurança e aumenta o risco de as grandes potências recorrerem a acções unilaterais fora do sistema multilateral.
O especialista indicou que a utilização da legislação interna dos EUA como base jurídica para intervir noutro país mina o Estado de Direito internacional e transforma as normas globais em instrumentos aplicados selectivamente.
De acordo com o professor, a detenção transfronteiriça de um chefe de Estado constitui uma negação directa do princípio de soberania e envia um sinal de insegurança aos países de pequena e média dimensão.
Pan Deng afirmou que este facto aumenta a ansiedade no Sul Global e reduz a confiança numa ordem internacional dominada pelo Ocidente.
O analista disse ainda que as reacções limitadas da chamada comunidade internacional evidenciam a reduzida capacidade do sistema multilateral para conter acções unilaterais das grandes potências.
Em seu entender, este episódio acelera a transição para uma ordem internacional multipolar e reforça as exigências de reforma da governação global, incluindo a reforma da ONU, e a expansão de mecanismos como os BRICS e a Organização para a Cooperação de Xangai.
A nível regional, Pan Deng sustentou que a acção dos Estados Unidos reforça os receios de novas intervenções na América Latina e estimula a busca de autonomia estratégica e de uma maior integração regional.
À Prensa Latina, o professor referiu que plataformas como a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) estão a ganhar relevância como espaços de coordenação de posições face à interferência externa.
Pan Deng opinou que, embora as pressões externas e as divisões internas persistam, a tendência para uma maior autonomia regional e para uma diplomacia plurilateral é irreversível.
Saída dos EUA de organizações internacionais «já não é novidade»
A China reafirmou, esta quinta-feira, o seu apoio ao multilateralismo e criticou a decisão anunciada pelos Estados Unidos de se retirar de 35 organismos não pertencentes à ONU e de 31 agências das Nações Unidas que considera contrárias aos seus interesses.
Numa conferência de imprensa em Pequim, Mao Ning, representante do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, disse que essa decisão dos EUA «já não é novidade» e sublinhou que a razão de ser dos organismos internacionais e multilaterais «reside no seu compromisso em proteger os interesses comuns de todos os seus membros e não em servir os interesses particulares de um só país», indica o Global Times.
No entender da diplomata, em mais de oito décadas, o sistema internacional centrado na ONU contribuiu para a paz e estabilidade no mundo, promoveu o desenvolvimento económico e social, e garantiu a igualdade de direitos de todos os países.
Mao disse ainda que o cenário actual mostra, mais uma vez, que só o funcionamento eficaz do sistema multilateral permite prevenir a prevalência da «lei da selva» e evitar que a ordem internacional seja dominada pela lógica de que «a força faz o direito e a violência representa a justiça».
A diplomata disse que a China continuará a apoiar o multilateralismo e o papel central da ONU, e que irá promover, com o resto do mundo, um sistema de governação global mais justo e equilibrado.
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