O que a longa campanha, protagonizada pelos candidatos do «consenso neoliberal», para as presidenciais de domingo tem revelado não é um esgrimir de ideias para o país, mas antes uma lógica distorcida de espectáculo mediático, onde o exercício milionário das sondagens leva a discussões ocas sobre a oportunidade do voto, quando muitas vidas se perderam para que hoje pudéssemos votar em quem realmente queremos e que acreditamos defender melhor as nossas vidas.
A campanha foi sendo fabricada em torno de bipolarizações artificiais e polémicas prontas para aumentar audiências, mais do que no real escrutínio de quem se candidata ao mais alto cargo da nação e no que importa a quem vive do seu trabalho. Imagine-se alcançar as contradições de quem jura defender a Constituição da República, mas prefere outra, onde não cabem os valores da justiça social e da igualdade, degradados pela acção política de vários dos candidatos prontos a servir, e que o capital quer agora ver na cadeira de Presidente da República.
Perante a barulheira com que a comunicação social nos entope há meses a fio, esvaziando a paciência de quem diariamente liga a televisão para se tentar informar, há quem caia na tentação de deixar de acreditar. Quem não consiga alcançar o projecto de País que cada candidato defende e seja levado a acreditar, como numa peça de teatro, que há candidatos protagonistas – a quem se dá maior destaque, e outros meros figurantes, mas todos alvo de uma profecia auto-realizável.
Para os candidatos promovidos pelo capital e as suas sondagens, importa questionar: Onde esteve o debate sobre a afirmação dos valores materiais da democracia consagrados na Constituição da República? Onde se discutiu o aprofundamento da justiça social, a garantia efectiva do direito à saúde, à educação, à habitação? Onde foi travada a batalha de ideias sobre como inverter a precariedade laboral, os salários baixos, a fuga dos jovens?
Para a maioria dos candidatos, esta campanha foi uma oportunidade perdida para falar das causas nacionais e da necessária mudança de rumo para quem vive do seu trabalho e a quem não deixam ver esperança no futuro. A função presidencial poderia ter sido o palco para elevar este debate, para lembrar que a democracia não se mede apenas pela liberdade de escolher, mas pela justiça daquilo que é escolhido para a vida de todos nós.
No domingo lá estaremos, a resistir ao artifício do «voto útil» e ao ruído das sondagens. A dar força a quem trouxe os problemas do país para o debate, que resistiu a manobras e nunca apelou a desistências de quem trabalha para construir um país melhor. A exigir um espaço público que privilegie o conteúdo sobre o espectáculo e que a democracia seja um projecto vivo de emancipação, em vez de um ritual gerido por números e manchetes. Porque o voto também é luta... e a luta continua!
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