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Há quem queira, mas...

Não pode valer tudo!

A direita neoliberal passou dois anos a desvalorizar a possibilidade de a Procura Interna ser significante para o crescimento económico do País. Após a divulgação, pelo INE, de que em 2017 o crescimento se deveu, sobretudo, àquele factor, a direita bem tenta mudar de agulha – só não pode mudar a realidade.

Uma cliente numa peixaria, em Lisboa. 9 de Julho de 2012
Uma cliente numa peixaria, em Lisboa. 9 de Julho de 2012CréditosRodrigo Baptista / Agência LUSA

O Instituto Nacional de Estatística divulgou na semana passada a sua estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017 e os contributos dos principais agregados macroeconómicos na óptica da despesa – Consumo Privado, Consumo Público, Investimento, Exportações e Importações – para essa mesma evolução.

Esta era uma informação muito importante, já que ao longo dos dois últimos anos o pensamento neoliberal dominante na nossa comunicação social procurou sistematicamente desvalorizar o comportamento da Procura Interna (Consumo Privado, Consumo Público e Investimento) e em particular o contributo do Consumo Privado na melhoria que tem vindo a ser registada na nossa economia, preferindo sobrevalorizar o comportamento da nossa Procura Externa e em particular das nossas Exportações.

A razão porque o faziam e o fazem é muito simples: valorizar a evolução da Procura Interna e, em particular, do Consumo Privado nos últimos dois anos, significa reconhecer implicitamente o efeito extremamente positivo das políticas de devolução de rendimentos e direitos que a nova solução política, conseguida no seguimento das eleições de 2015, iniciou.

Ora o que os resultados agora divulgados pelo INE mostram é que a economia portuguesa terá crescido 2,7% em 2017 – o ritmo de crescimento mais elevado desde o início deste século – e o contributo da Procura Interna para esse crescimento terá sido de 2,9 p.p., enquanto a Procura Externa Líquida, que reflecte o crescimento real das Exportações menos o das Importações, terá sido de -0,2 p.p. Ou seja, a nossa economia cresceu em 2017 quase exclusivamente graças ao impacto do bom comportamento da Procura Interna – já que o impacto da Procura Externa Líquida foi ligeiramente negativo – no ritmo de crescimento do nosso PIB.

«Valorizar a evolução da Procura Interna e, em particular, do Consumo Privado nos últimos dois anos, significa reconhecer implicitamente o efeito extremamente positivo das políticas de devolução de rendimentos e direitos»

Parecia, com estes dados, terem caído por terra os argumentos dos partidos de direita e dos seus pensadores económicos neoliberais, mas não: imediatamente ajustaram o seu argumentário. Sendo agora claro que a Procura Interna foi determinante na evolução da nossa economia nos últimos anos, a direita começa a olhar para os dados dessa evolução e procura aqui retirar a conclusão que mais lhe interessa.

É assim que, nos últimos dias, da leitura da comunicação social dominante ressaltam, mais do que a constatação da boa evolução da Procura Interna no seu conjunto e, em particular, do Consumo Privado e do Investimento, as referências entusiásticas ao elevado ritmo de crescimento do Investimento em 2017 (+8,4%), procurando desta forma e uma vez mais desvalorizar-se o crescimento do Consumo Privado (+2,2%).

Não está aqui em causa a importância do elevado ritmo de crescimento do Investimento verificado em 2017 para o crescimento do PIB; isso é inquestionável e não só desejável como fundamental para que este nível de crescimento do Investimento se mantenha nos próximos anos. Este tem de ser um dos objectivos principais da nossa política económica, a curto, médio e longo prazo.

Abro aqui um parêntese, no entanto, para relativizar este crescimento do Investimento dizendo o seguinte: sendo o mais elevado ritmo de crescimento deste século, o Investimento em Portugal caiu de tal forma desde 2008, ano da última grande crise económica e financeira mundial, que em termos reais é ainda 26% inferior ao de 2008 e inferior ao de 1996. O investimento, infelizmente, caiu tanto nos últimos anos que agora só pode crescer, mas terá mesmo de crescer muito.

Mas volto à estratégia seguida pela direita e pela comunicação social dominante na leitura que faz da evolução económica registada em 2017, a qual passa agora pela desvalorização do crescimento do Consumo Privado em detrimento do Investimento.

Gráfico publicado no Jornal de Negócios de 1/3/2018, referido pelo autor.

O Jornal de Negócios do passado dia 1 de Março, a propósito dos dados divulgados pelo INE sobre a evolução da nossa economia em 2017, construiu um gráfico cujo título é «Investimento foi o principal motor», mas a seguir olha-se para esse mesmo gráfico que espelha o contributo em pontos percentuais dos principais agregados macroeconómicos na óptica da despesa e o que se verifica é que o maior contributo para o crescimento do PIB vem do Consumo Privado (+1,5 p.p.) e não do Investimento (+1,4 p.p.). A vontade de alterar a realidade é tal que até conseguem ler, num gráfico, aquilo que ele não diz.

Sobre esta mesma questão a pergunta que apetece fazer é, sem dúvida, esta: Se não foi importante o crescimento do Consumo Privado para o crescimento do PIB em 2017, digam-nos quanto teria crescido a nossa economia sem esse crescimento?

Eu respondo por todos vós. A nossa economia teria crescido apenas 1,2% e nessa altura teríamos toda a direita e os seus pensadores económicos neoliberais a atacarem a actual solução política governativa.

Decididamente, não pode valer tudo!

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