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Troço da A1 ruiu e se o Governo deixar a Brisa não pagará nada do arranjo

Parte da A1 junto ao nó de Coimbra Sul abateu na sequência da ruptura de um dique do Rio Mondego. Miguel Pinto Luz já disse que «o compromisso do Governo é de absoluto comprometimento», puxando a responsabilidade do arranjo para o Estado e não para a Brisa, empresa responsável pela auto-estrada.

CréditosMiguel A. Lopes / Lusa

É o Decreto-Lei n.º 294/97, de 24 de Outubro, que revê o contrato de concessão da Brisa. No documento, adaptou-se a concessão das auto-estradas, e reviu-se «sobretudo, nas bases de carácter técnico e nas de índole financeira».

Conforme se pode analisar, o documento eliminou as restrições à distribuição de dividendos e substitui a obrigação anual por um mecanismo de salvaguarda, ou seja, os acionistas são obrigados a aumentar o capital se a relação entre capitais próprios e passivo (deduzido de proveitos diferidos) for inferior a 25%.

Além disso, o decreto-lei reajustou o valor das comparticipações no custo de construção para 20% do custo de construção para investimentos pós-1997 e definiu ainda benefícios  fiscais como a isenção de Imposto do Selo, deduções à colecta de IRC, e isenção de derrama. 

O documento definiu ainda as auto-estradas que deviam ser construídas pela Brisa, como é exemplo a A1 (Norte), A2 (Sul), A3 (Porto-Valença), A4, A5, A6, A9 (CREL), A10, A12, A13, A14. Porém, tal foi financiado com o dinheiro proveniente das receitas obtidas com as portagens e supervisionado pelo Estado, que também financiou troços iniciais e obras complementares. 

Todo o contrato de concessão é um brinde à empresa privada gerida por António Pires de Lima, ex-ministro da Economia do ex-governo PSD/CDS-PP/Troika e no caso do troço da A1 que abateu há margem para que a Brisa não assuma o custo de nada. Veja-se que no caso da isenção de portagens, o Governo iria comparticipar 100% do lucro esperado, sendo que a Brisa disse que abdicaria de 30%, sabendo que iria sair sempre a ganhar. 

Neste caso da A1, há alguns elementos a ter em conta. De acordo com a Base XXXIII (Conservação) e Base IV (Domínio Público) do Decreto-Lei n.º 294/97, a Brisa deve manter a auto-estrada «em bom estado de conservação e perfeitas condições de utilização». Se o colapso do dique danificou o pavimento, taludes ou fundações da A1, a reparação teria que ser, então, por conta da Brisa. Acontece que os contratos de concessão estão raramente desenhados para salvaguardar os interesses públicos, dada a submissão do poder político ao poder económico. 

Caso o colapso do dique seja considerado evento de força maior, contemplado na Base XLVII, a Brisa fica isenta de multas ou penalizações por atrasos, mas a obrigação de reparar a auto-estrada mantém-se integralmente. O contrato não prevê que o Estado pague a obra apenas por se tratar de força maior. O Estado pode, se assim o entender, autorizar uma comparticipação financeira, mas tal depende de acordo prévio e despacho conjunto do Ministro das Finanças e do ministro da tutela, segundo a Base XI do documento. Na ausência dessa decisão política, a totalidade do custo da reparação é suportada pela Brisa.

Eis que o ministro da tutela é Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas, que já visitou o local e fez questão de vincar aos jornalistas «a velocidade e a violência das águas», que descreveu como «uma situação absolutamente anormal». Ou seja, invocou prontamente a questão de se tratar de um evento de força maior. 

É certo que pode ser cedo para dizer quem é que irá assumir os custos de reparação, mas igualmente certo é o facto de o Governo estar já a usar os seus meios para conter o problema, e a Brisa não é invocada: «Temos hoje 15 camiões com enrocamento para reforçar a quebra que surgiu. Amanhã de manhã, mais camiões vêm reforçar com enrocamento», disse o ministro à RTP Notícias.

No seguimento, Miguel Pinto Luz voltou a puxar para o Governo toda a resolução: «Serão seguramente semanas para conseguirmos que esta infraestrutura volte a estar ao serviços dos portugueses», disse, usando a primeira pessoa do plural, o que remete para o Executivo da qual faz parte. 

Se no ar já estavam algumas pistas para quem iria resolver a questão, Pinto Luz não quis deixar margens para dúvidas ao afirmar que «o compromisso do Governo é de absoluto comprometimento com esta solução. Estamos com todos os meios mobilizados e não sairemos daqui enquanto não conseguimos com todas as equipas colocar outra vez a A1 em funcionamento». 

Por parte da Brisa foi apenas enviado um comunicado à comunicação social a sugerir aos automobilistas a utilização de alternativas à interrupção da auto-estrada. A concessionária admite não ser possível estimar o prazo de conclusão das obras de reparação e diz estar empenhada em «minimizar transtornos».

A empresa gerida por Pires de Lima fez saber também que está a monitorizar o desenvolvimento da situação desde o dia 2 de Fevereiro, «com vistorias permanentes, e tem no terreno, neste momento, mais de 30 operacionais». 
 

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