«No Reino Unido há 28 dias de férias, na Dinamarca 25, na Áustria 25 a 30 e em Malta 24. Porque é que os portugueses têm menos férias do que os outros?». A resposta à questão levantada por André Ventura, líder do Chega, na entrevista que deu à CNN na terça-feira remonta aos tempos da Troika. Entre as medidas de austeridade aplicadas pelo Governo PSD/CDS-PP de Passos Coelho estava a redução de 25 para 22 dias úteis de férias.
A pergunta terá sido, certamente, retórica. André Ventura era, afinal de contas, um militante do PSD durante esse período e foi o próprio Pedro Passos Coelho quem o catapultou para a ribalta, escolhendo o então quase desconhecido comentador de futebol para encabeçar a lista do PSD/CDS-PP (os centristas retiraram o seu apoio durante a campanha) à Câmara Municipal de Loures. Entre reiterados suspiros por três Salazares, Ventura nunca deixou de sustentar a esperança de que um dia, numa manhã de nevoeiro, o primeiro-ministro que roubou três dias de férias ao portugueses em nome da produtividade voltasse à vida política nacional.
E André Ventura, ao lado do seu novo partido, nunca deixou de sustentar as políticas neoliberais do seu velho mentor. Em 2021, enquanto deputado único, Ventura ausentou-se na votação de um documento do PCP que consagrava «o direito a um mínimo de 25 dias úteis de férias anuais para todos os trabalhadores» (chumbada pelos votos do PS/PSD/CDS-PP e IL), mas a posição do Chega sobre o assunto (completamente ausente nos programas eleitorais) ficou bem expressa nas mais recentes votações na Assembleia da República.
A 7 de Fevereiro de 2025, os 49 deputados do Chega (incluindo André Ventura) juntaram-se ao PSD, à Iniciativa Liberal e ao CDS-PP para chumbar todas as quatro propostas que assegurariam a recuperação dos três dias de férias roubados em 2012. O voto contra do Chega e a abstenção do PS garantiram o chumbo das propostas do PCP, BE, Livre e PAN. Neste momento, uma nova proposta do PCP com o mesmo propósito está a ser discutida em sede de comissão parlamentar.
A posição afirmada por André Ventura esta semana: «Eu não quero saber de onde é que a proposta vem, eu quero que seja boa para quem trabalha, para quem se esforça - não quero saber se é do Bloco [de Esquerda], do PCP, podem-me chamar o que quiserem, bloquista, socialista, liberal, fascista, o que quiserem» - é, portanto, uma posição que o líder do Chega adoptou recentemente, a semana passada. É que há pouco mais de um ano o Chega demonstrava estar muito preocupado com a origem das propostas que chumbava.
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