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MFA, Abel Manta, Povo - Povo, Abel Manta, MFA

Traçou as linhas do período revolucionário mas nunca quis ser ser o cartoonista da Revolução. O pintor, cartoonista e arquitecto João Abel Manta morreu esta sexta-feira, em Lisboa, aos 98 anos.

Créditos / Valter Hugo Mãe

As artes gráficas – o desenho, a ilustração, o cartaz, o desenho político –entraram «tarde» na carreira que já ia afirmando. João Abel Manta, nascido em Lisboa, a 29 de Janeiro de 1928, começou por se dedicar, quase exclusivamente, à arquitectura, destacando-se a participação no Conjunto Habitacional da Avenida Infante Santo (Lisboa), pelo qual recebeu o Prémio Municipal de Arquitectura em 1957, e o edifício da Associação Académica de Coimbra.

Em 1961, consagra-se no mundo de desenho com a obra O Ornitóptero, que vence o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, seguindo-se, em 1965, a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas, em Leipzig. É neste período que começa a desenvolver a sua actividade como cartoonista político, publicando os seus trabalhos em jornais e revistas como o Diário de Lisboa, O Século Ilustrado, Seara Nova, Sempre Fixe, Diário de Notícias ou Jornal de Artes e Letras.

Não é, no entanto, nesse momento que desenvolve a sua consciência e actividade política. A 1 de Fevereiro de 1948, aos 20 anos, já havia sido um dos activistas do MUD Juvenil detido numa vaga de prisões orquestrada pela PIDE, que capturara um boletim com o nome de vários membros numa rusga a um cine-clube criado por Ernesto de Sousa. O quarto na casa dos pais, onde é preso, era já um local de reuniões clandestinas, realizadas a pedido do pintor e escultor José Dias Coelho (assassinado pela PIDE em 1961).

Muito do trabalho que desenvolve durante o período marcelista era feito para ser «proibido», referiu numa entrevista de 1992 – exemplo maior da perseguição de que era alvo será o processo judicial que lhe é movido em 1972 por ridicularizar a bandeira nacional. Ainda assim, estes cartoons representam um testemunho da brutalidade da chamada Primavera Marcelista, que tentava esconder a censura atrás de uma nova designação: exame prévio.

A primeira metade da década de 1970 é profícua, permitindo-lhe explorar as mais diversas formas de expressão nas artes plásticas. Faz os cenários para encenações de A Relíquia, de Eça de Queiroz e de O Processo, de Kafka; produz as tapeçarias do Salão Nobre na sede da Fundação Calouste Gunbenkian; desenha o pavimento da Praça dos Restauradores, em Lisboa e projecta o painel de azulejos na Avenida Calouste Gulbenkian (instalado em 1982).

O 25 de Abril apanha-o na redacção do Diário de Lisboa. «Comecei, nesse mesmo dia, a fazer tantos bonecos que até sobravam para o dia seguinte!». Durante um ano, não parou: «desenhava freneticamente. Fazia aqueles cartazes todos para as campanhas de dinamização cultural» do Movimento das Forças Armadas. De artista censurado, Abel Manta passa a ser exposto nos jornais e nas ruas de todo um país mobilizado na construção de uma nova sociedade.

O seu trabalho enquanto cartoonista no PREC (nunca quis ser o cartoonista da revolução) acaba por definir a identidade gráfica da própria revolução - o seu projecto, o seu objectivo, os seus confrontos e contradições, o seu humor, a sua esperança criativa - que teve expressão máxima numa das suas obras mais conhecidas e difundidas: o cartaz «MFA, Povo/Povo, MFA».

A partir dos anos 80, dedica-se quase exclusivamente à pintura. Pedro Piedade Marques, comissário das exposições «Manta 90/40», de 2018, e «João Abel Manta: a máquina de imagens» lamentou, num texto publicado na Seara Nova, que a maior parte deste seu trabalho enquanto cartoonista esteja consignado às reservas de alguns museus. «Nenhuma, nem uma, volta para um local onde esteja exposta em permanência». Não é inteiramente verdade - João Abel Manta, que morreu esta sexta-feira, aos 98 anos, continua exposto, aos dias de hoje, em milhares de casas e salas do mesmo povo que desenhou.

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