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Crianças portuguesas brincam pouco e quase nunca fora de casa

Um inquérito feito sobre o padrão de brincadeira das crianças portuguesas revela que brincam pouco com os pais e quase nunca fora de casa. A situação desagrada a pais e crianças. Medidas públicas precisam-se.

Crianças brincam na rua. Milton Street, em Belfast, irlanda do Norte, 1969.
Crianças brincam na rua. Milton Street, em Belfast, irlanda do Norte, 1969. CréditosDavid Lewis-Hodgson / Mary Evans Picture Library

De acordo com um estudo elaborado pela Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) em parceria com o Instituto de Apoio à Criança e a publicação Estrelas e Ouriços, a maioria das crianças portuguesas até aos 10 anos só brinca entre duas a três horas por dia, durante a semana, e sobretudo na escola ou em casa. O hábito de brincar na rua, em companhia de outras crianças, perde-se irremediavelmente.

Segundo Rui Mendes, professor da (ESE-IPC) e coordenador do estudo Portugal a Brincar, declarou ao Notícias ao Minuto, «antigamente, havia mais espaços e mais possibilidades para a criança brincar ao ar livre», acrescentando que «o apanágio do sucesso, o ritmo desenfreado e o pensamento de que brincar não é sério apresentam consequências dramáticas para o desenvolvimento das crianças».

O estudo foi apresentado na primeira conferência Estrelas & Ouriços, que decorreu a 30 de Abril na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, subordinada ao tema «Como brincam hoje as crianças portuguesas», e que teve como objectivo, segundo o Notícias ao Minuto, «promover a discussão sobre a forma como se brinca em Portugal». A mesma fonte refere que «os pais sentem que as crianças brincam pouco, a maioria do tempo lúdico está restrito ao espaço das escolas, é pouco o tempo para brincadeiras em casa e os jogos e actividades na rua passaram a ser algo residual».

A iliteracia motora

O mesmo professor, em declarações prestadas à Rádio Renascença (RR), afirma verificar-se um «nível de iliteracia em relação a certas atividades motoras muito simples». Rui Mendes explica: «Não deixa de ser complicado termos crianças com 10 anos que não sabem andar de bicicleta, ou com 9 anos com dificuldade em apertar os atacadores, ou que têm 10 anos e têm dificuldade em descer uma árvore que tem um metro de altura. Ou seja, aquilo que era algo perfeitamente básico do ponto de vista motor, passou a ser quase uma actividade radical».

Depois de sublinhar o alerta, lançado pelas Nações Unidas já em 2013, sobre «o valor do brincar no bem-estar, saúde e desenvolvimento da criança ser subestimado e desvalorizado», o artigo da RR reconhece: «A maioria dos pais diz que o tempo é fundamental para as crianças brincarem. E é o que elas não têm. Nem os pais».

Carlos Alberto Ferreira Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa (FMH-UL), viu os resultados do estudo «sem muita surpresa mas com preocupação», e comparte a visão da «necessidade de aumentar a literacia física e motora dos mais novos», como declarou ao jornal i. «Dar mais mobilidade às crianças, viverem mais a cidade, terem mais autonomia e independência», insistiu, «é uma questão crucial para a saúde mental e física da população no futuro».

O professor catedrático da FMH e presidente da Casa da Praia-Centro Doutor João dos Santos não se admira de que o inquérito revele uma subestimação do papel da brincadeira no desenvolvimento da criança – só 9,4% consideram a necessidade de brincar uma mais-valia. Pior, como refere o i, só mesmo a subestimação da socialização [nas brincadeiras de rua] – à qual apenas 1,8% dos pais reconhece valor – e a subestimação da brincadeira no desenvolvimento de habilidades úteis à criança para a sua futura vida profissional – apenas 0,8% dos pais compreendem a sua importância.

«Os pais dão sobretudo importância aos aspetos cognitivos e deixam para último os que estão relacionados com a atividade física», disse Carlos Neto ao i, considerando ser este um reflexo de uma cultura de «medo dos riscos, sobreproteção das crianças e desvalorização da literacia física» que importa contrariar.

Mas o principal é a falta de «tempo disponível», que os próprios pais reconhecem nas respostas proporcionadas ao inquérito. «A sociedade portuguesa está completamente amordaçada em pais que vivem o tempo a trabalhar e as crianças são vítimas disso», afirma Carlos Neto, para concluir com um alerta: «medidas públicas precisam-se».

O estudo Portugal a Brincar

O inquérito que serviu de base ao estudo produzido recolheu informação junto de 1466 famílias sobre «vários indicadores – o tempo dedicado a brincar, onde, como e com quem brincam as crianças, o papel dos brinquedos, as tecnologias e os jogos tradicionais», refere o Notícias ao Minuto.

Tempo dedicado a brincar

Dos 1466 pais inquiridos 25% refere que as crianças brincam diariamente, em média, entre duas a três horas. Uma percentagem quase igual (24,3%) refere cinco ou mais horas. Em 4,3% dos casos, porém, as crianças não brincam mais de uma hora por dia.

O inquérito apurou que os pais compreendem ser insuficiente o tempo de brincadeira dos filhos: 44,5% consideram como ideal que as crianças pudessem brincar cinco ou mais horas diárias.

Onde e como brincam as crianças

A maioria dos pais aponta o ambiente escolar – seja na escola (53,8%) ou em centros de actividades de tempos livres (4,5%) –, onde as crianças passam mais tempo diariamente, como o local preferido para as brincadeiras destas. Em segundo lugar vem o ambiente familiar – seja em casa dos pais (30,4%) ou dos avós (6,3%) e, por fim, a rua (2,2%).

Os pais parecem estar conscientes da necessidade de as crianças brincarem mais tempo na rua, em contacto com os elementos naturais e socializando no espaço público: 41,2% afirma que gostaria de mudar esta realidade e que a rua fosse o principal local de brincadeira.

Tendo em conta que as crianças manifestaram preferência por brincadeiras ou jogos ao ar livre (25,4%) e estas são também as preferidas dos pais (32,1%), torna-se evidente que apenas razões de contexto impedem que a vontade de ambos se concretize. São ainda mencionadas como brincadeiras favoritas das crianças e dos pais as de faz-de-conta, construção, e pintura ou desenho, sendo que os segundos destacam ainda os jogos de tabuleiro.

Com quem brincam as crianças

Mais de metade dos pais (55,3%) indicou que as suas crianças brincam com outras crianças da mesma idade, resposta condizente com o facto de as crianças brincarem sobretudo em ambiente escolar. Pouco mais de 21% das crianças têm brincadeiras em ambiente familiar, sendo 13,8% com os irmãos e apenas 7,3% com os pais em simultâneo. Uma percentagem ainda significativa de crianças brinca seja com crianças de outras idades (6,7%), seja sozinha (5,9%). Tal como as crianças, os pais também desejariam dedicar mais tempo à brincadeira com os seus filhos.

Durante a semana apenas 19,8% dos pais consegue brincar mais de 2 horas diárias com os filhos, 27,8% entre uma a duas horas e 45,6% não consegue brincar com os filhos mais de uma hora.

Ter brinquedos sem brincar

Não faltam brinquedos às crianças portuguesas, cujas ofertas, pelos pais, parecem substituir a falta de tempo para as brincadeiras com os filhos. O número de crianças portuguesas que não recebeu qualquer brinquedo o ano passado é insignificante (0,4%), enquanto 60% das crianças receberam mais de 10 brinquedos por ano, com 30,8% a receberem 15 ou mais brinquedos e 22,2% entre 10 e 15.

Se os pais que escolhem ocasiões especiais (aniversários, natal, prémios) para a oferta de brinquedos às crianças ainda ocupam a primeira posição (46,9%), cerca de 50% confirmaram fazerem-no ao longo do ano, sem necessitarem de um pretexto: semanalmente (4,4%), mensalmente (20,1%), trimestralmente (19,8%) e semestralmente (5,3%).

A funcionalidade (81,1%) preside à escolha da maioria dos brinquedos, o gosto pessoal da criança apenas sendo tido em conta em 6,5% dos casos.

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