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Chalana. «O meu nome em Bordéus era Vatanen»

Há 25 anos, o extremo português estreou-se finalmente em França, depois de muitas entorses e multas por dizer a palavra Benfica. Uma entrevista de Rui Miguel Tovar ao grande futebolista e enorme coração que hoje morreu.

O jogador do Benfica, Fernando Chalana, durante o jogo frente ao Futebol Clube de Penafiel, no Estádio da Luz em Lisboa a 2 de abril de 1988.
O jogador do Benfica, Fernando Chalana, durante o jogo frente ao Futebol Clube de Penafiel, no Estádio da Luz em Lisboa a 2 de abril de 1988.CréditosAcácio Franco / Lusa

Bordéus, 1984. Por uns momentos, esqueça a colheita de qualquer tipo de vinho daquela região e imagine uma conferência de imprensa do clube dessa cidade com dois homens de bigodes farfalhudos. Um deles é Claude Bez, presidente. Um homem gordo, que se passeava pelas ruas de Bordéus, com um chapéu de cowboy, quase sempre ao volante de um Cadillac, e que soltava sonoras gargalhadas à medida que ia cumprimentando toda a gente com uma forte palmada nas costas. O outro é Fernando Chalana, a quem os franceses tinham ficado rendidos nesse Verão de 1984, quando Portugal deu algum espectáculo na fase final do Europeu. Apesar de nunca ter jogado em Bordéus (só em Estrasburgo, Marselha e Nantes), Chalana ficou conhecido em toda a França. Fosse pelo seu toque de bola, pelas arrancadas ou pelo seu bigode – e isto num duplo ponto de vista: metafórico (dar um bigode à concorrência, que era o seu repetitivo prato do dia) e literal (aqueles pêlos entre o nariz e a boca fizeram as delícias dos jornalistas franceses, que o apelidaram de Chalanix).

Ao mesmo tempo que Platini sai de França, na troca St. Etienne – Juventus, o presidente Bez muda de posição dentro do Bordéus, de tesoureiro para presidente. E os seus sonhos, outrora megalómanos, tornam-se realidade. A um jovem treinador sem currículo mas com um ar respeitável (Aimé Jacquet, seleccionador da França campeã mundial em 1998) junta-se uma série de craques, dos centrais Battiston e Trésor aos avançado Dieter Müller e Lacombe, passando pelo meio-campo, que era «apenas» a zona mais requintada de todas, com o talento do drible curto de Tigana, Giresse, Girard e Chalana.

Quando passam 25 anos desde a estreia do português (o único jogador e, quem sabe?, habitante de Bordéus que desafiava o bigode de Bez na estética), num Marselha – Bordéus, ganho pelos visitantes por 1-0, o jornalista Rui Miguel Tovar falou com Chalana a propósito dessa aventura pela casa do vinho, onde o extremo passou três épocas, de 1984 a 1987.

Do que se lembra da experiência em Bordéus?

Ainda em Novembro do ano passado, visitei a cidade, a convite da actual Direcção do clube, para assistir ao Bordéus-Juventus da Liga dos Campeões. Fazia 25 anos que fomos eliminados pela grande Juventus de Platini, Cabrini, Scirea, Boniek e Rossi nas meias-finais da Taça dos Campeões e o Bordéus lembrou-se de juntar toda aquela equipa que os defrontou para um jantar de confratenização. Foi uma agradável surpresa. Porque voltei a ver amigos, como Lacombe, Battiston, Tigana, Giresse, e também porque voltei àquela cidade. E como aquilo está mudado! Sobretudo a parte nova que se esticou para a frente, para trás e para os lados. Aquilo que era descampado, agora é ocupado por zonas residenciais e comerciais. Quis ir a um restaurante português, que era onde almoçava e jantava quase sempre, e perdi-me, veja lá! Tive de telefonar a outro português para me orientar. Depois, lá dei com o restaurante, que está na mesma. Felizmente. Soube-me bem voltar a sentar-me naquele lugar ao pé da lareira. Aquela era a minha mesa. Pergunte ao Toni e ao Jesualdo Ferreira [treinador principal e adjunto do Bordéus em 1994]. Quando eles iam lá, o dono dizia-lhes sempre que era a mesa do Chalana. São estas coisas que ficam.

Também ficou com lugar reservado no coração dos adeptos do Bordéus?

Sim, tenho a certeza. Cada vez que me lembro de algumas situações, até me arrepio todo.

Tais como?

A minha apresentação à imprensa foi uma confusão com jornalistas e mais jornalistas. Eles eram franceses e portugueses, todos ali misturados. A sala parecia pequena com tanta gente. Depois, o meu primeiro treino foi a pagar. Eram 10 francos para cada pessoa que me quisesse ver. E digo-lhe que aquilo estava composto. E o aquilo era um centro de treinos que, repare bem, em 1984, já tinha 12 campos relvados! Nos jogos, os adeptos cantavam o meu nome, tal como os dos outros jogadores, mas o meu era novidade para mim, porque em Portugal isso ainda não se fazia. Nem na Luz, onde os adeptos puxavam muito pela equipa.

Mas também é verdade que se lesionou muitas vezes e nunca rendeu aquilo que se esperava?

Da mesma forma que lhe digo que as infra-estruturas do Bordéus eram espectaculares, também há um contraponto em relação ao departamento médico. Eles eram amadores. Que saudades do meu querido amigo José Luís [médico do Benfica naquela altura].

Porquê?

Que eles eram amadores? Ah, sei lá. Quando toda a gente diz para aí que eu fui operado aos ligamentos e ao menisco, digo-lhe que isso é mentira. Nunca fui operado a nada disso.

Mas então como explica só 18 jogos em três épocas?

Muitas roturas. E os médicos do Bordéus não sabiam dar a voltar à questão. Por isso, queria curar-me no Benfica. Mas bastava falar no Benfica para o presidente [Bez] chamar-me ao seu gabinete e toma lá uma multa.

O Bez chateava-o constantemente?

Não, nada disso. Só quando eu dizia a palavra Benfica.

Mas qual era o problema dele?

Ele simplesmente era assim. Era um personagem sui generis e conheci-o em Lisboa, quando ele negociou o meu passe com o Fernando Martins, do Benfica, depois do Europeu de França.

De clubes interessados, era só o Bordéus?

Não, ainda havia a Roma e o Barcelona. Mas o Barcelona contratou o Maradona, que até era mais ofensivo que eu, e aí escolhi o Bordéus. Toda a gente diz que houve muito dinheiro envolvido na transferência [220 mil contos para os cofres do Benfica, que serviram para concluir as obras do Terceiro Anel do Estádio da Luz], mas sabe que ainda não recebi a última tranche desse contrato. Nem vou receber, como é óbvio.

E o ambiente na equipa?

Sempre espectacular. Sobretudo o Lacombe, que é hoje director do Lyon. Ele estava sempre a puxar-me para jantares em casa dele. Mas os outros também eram sensacionais e apoiaram-me sempre. Quer saber uma coisa: lá, eu não era o Chalanix, nem o Cyrano de Bergerac [pelo seu nariz]. Era o Vatanen [Ari Vatanen, finlandês, campeão de ralis em 1981, ao volante de um Ford Escort]. Num treino à neve, eu corria mais e driblava melhor que todos os outros. E o Battiston pôs-me a alcunha.

Como era Aimé Jacquet?

Ah, um senhor. Um verdadeiro gentleman. Cumprimentava todos os jogadores, um a um, olhos nos olhos, e dizia-nos as coisas da forma mais tranquila.

Lembra-se de algum jogo especial?

Sim, um em Dniepr, antiga URSS, agora Ucrânia, nos quartos-de-final da Taça dos Campeões. Fomos a penáltis. Antes de Jacquet decidir em alta voz os cinco marcadores, levantei o dedo e disse-lhe que queria marcar o último. Ele ficou surpreendido. Foi 5-4 e eu marquei o último, garantido a qualificação para o tal jogo com a Juventus.

Nessa altura, já era o Vatanen?

Sim, o Vatanen. A neve de Bordéus chegou antes da de Dniepr.

entrevista originalmente feita para o i.

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