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Apps e smartphones: ferramentas ao serviço do quê?

A perversão capitalista da maximização de lucro levou estas empresas a utilizar todas os mecanismos legalmente disponíveis para nos deixar cada vez mais viciados nos seus produtos.

CréditosJoel Benjamin

A regulação do mercado da informação deve existir, mas não nos deixemos levar por teorias da conspiração ou fatalismos mediáticos, não há nada de errado em utilizar um martelo, desde que saibamos para que o queremos e o que estamos a fazer. 

Corria o ano de 1973 quando, pela primeira vez, Martin Cooper apresentava ao mundo a sua mais recente inovação: o telemóvel. Na altura o equipamento pesava cerca de 2,5 quilos e apenas permitia fazer uma chamada de 20 minutos antes de consumir toda a bateria disponível.

Foram necessários cerca de dez anos para colocar estes equipamentos no mercado. Dado o seu tamanho inicial, o seu peso, a falta de autonomia e o seu preço de venda ao público, os telemóveis não eram à data tão populares como nos dias de hoje e a sua taxa de utilização ainda era bastante reduzida.

Dado o enorme potencial do equipamento, as empresas começaram então a fazer melhorias para possibilitar a sua venda massiva.

A estratégia foi um sucesso. Em 2018, por exemplo, um estudo da Marktest revelou dois dados muito significativos: que cada vez mais portugueses tinham telemóveis e que a idade média de utilização do equipamento é agora bem mais baixa, isto é, cada vez mais adolescentes e jovens têm acesso a ele.  

Existem actualmente nove milhões de utilizadores de telemóveis no nosso país, o que representa um valor de cerca de 96,5% dos residentes em Portugal continental com mais de dez anos de idade.

Se verificarmos a percentagem de pessoas que comprou este produto, pelo menos uma vez, verificamos que, entre os 15 e os 44 anos, os valores chegam praticamente aos 100%, apenas junto dos mais idosos (pessoas com mais de 64 anos) os valores baixam para os 89%.

O quotidiano de todos parece agora impossível de enfrentar sem ter no bolso este aparelho de inesgotáveis funcionalidades.

Contudo, este manancial de facilidades esconde uma outra realidade bem mais perversa: o facto de os smartphones trazerem consigo uma série de complicações para a saúde mental. A sua utilização aumenta a probabilidade da existência de sentimentos ou pensamentos depressivos ou suicidas sobretudo nas gerações mais novas, de acordo com um estudo publicado pela Clinical Psychological Science.

O impacto dos smartphones nas novas gerações é tão grande que, inclusive, tem ajudado a identificar uma geração específica nascida após 1995, como geração IGen. Ou seja, aqueles que já nasceram após a implementação massiva desta tecnologia.

Jean Twenge, psicóloga americana, diz-nos que esta geração se distingue das anteriores pela sua falta de propensão para conduzir, trabalhar, ter relações inter-pessoais e sair de casa para momentos de lazer e convívio. 

A nossa dependência do telemóvel é cada vez maior, esta é mesmo considerada um vício pela comunidade científica. Os sintomas comuns são simples: acordar a meio da noite para consultar o telemóvel, consultar o telemóvel logo ao acordar e, por último, utilizar o telemóvel prolongadamente enquanto estamos na presença de um grupo de amigos ou familiares. 

Sim, é cada vez mais difícil negligenciar este fiel amigo, bem mais presente que o cão ou o bacalhau, e não lhe dar a merecida atenção. O fenómeno é tão comum que até já tem um nome: nomofobia. Esta patologia não é mais do que a angústia causada pela falta de acesso ao telemóvel.

Aquela sensação de vazio e quase pânico que nos assalta sempre e quando sabemos que estamos sem telemóvel, ou sem rede, e percebemos que durante algum tempo o mundo irá ficar alheio à nossa atenção e nós à dele, aparentemente.

Um estudo da Global Mobile Consumer Trends revela que cada utilizador pode consultar o seu smartphone em média 40 vezes por dia. Aqui, as plataformas de mensagens escritas e as redes sociais apresentam em grande medida a razão principal desta consulta. Estes números quase que duplicam se estivermos a falar de pessoas entre os 18 e os 24 anos.

Olhando os dados das últimas décadas, é fácil identificar o ponto de viragem para este novo estilo de vida: estávamos em 2007 e a Apple tinha lançado o seu primeiro Iphone e com ele todo o manancial de aplicações móveis conhecidas ao dia de hoje.

Nascia aqui uma nova oportunidade de negócio: as aplicações mobile. Estas permitem fazer praticamente tudo nos nossos telemóveis: encomendar comida, roupa, ir ao banco, alugar carros, ir às finanças, jogar jogos, ver vídeos...

«As grandes empresas de tecnologia passaram anos a estudar a melhor forma de nos deixar agarrados aos seus produtos, desenvolvendo tecnologias capazes de recolher, sem reservas, todo o tipo de dados sobre nós para saberem exactamente o que nos devem disponibilizar e quando para nunca termos vontade de sair destas aplicações.»

Este novo paradigma permite-nos também outra coisa: estar ligado a redes sociais 24 horas por dia. Ou seja, todo o tipo de aplicações cujo objectivo é «aprisionar» o utilizador o máximo de tempo possível, usando para o conseguir um único recurso: informação sobre nós próprios.

Com estas aplicações temos a sensação de estar sempre ligados ao mundo. Afinal de contas, quem é a pessoa que se sente sozinha quando no seu bolso detém uma enorme legião de amigos e estranhos, ávidos a partilhar um pouco de tudo e a receber de nós o mesmo tipo de conteúdos? Impossível sentir-se sozinho num restaurante quando se pode difundir por centenas ou milhares de pessoas uma foto ou um vídeo do nosso delicioso bitoque.

Porém, esta sensação é apenas isso mesmo, e é enganadora na grande maioria dos casos. Pois estes recursos em nada ajudam as pessoas a lutar contra a solidão e a depressão. Existe um consenso alargado entre especialistas que diz que passar horas nos aplicativos altera no cérebro a formação de memórias novas, a capacidade de concentração, a capacidade de reter informação de leituras e a habilidade de pensar de forma mais aprofundada.

O nosso cérebro é um músculo que melhora com a repetição de movimentos, se passarmos muito tempo a jogar xadrez iremos melhorar a nossa habilidade, se passarmos horas a colocar gostos em fotos do Facebook ou a ver vídeos no Youtube, o nosso cérebro também vai ficar muito bom a fazer essa tarefa. Quanto mais tempo passarmos nas redes sociais a fingir que não estamos sozinhos, melhores seremos a não reconhecer este facto e a ficar cada vez mais sozinhos, aéreos e também cansados...

As grandes empresas de tecnologia passaram anos a estudar a melhor forma de nos deixar agarrados aos seus produtos, desenvolvendo tecnologias capazes de recolher, sem reservas, todo o tipo de dados sobre nós para saberem exactamente o que nos devem disponibilizar e quando para nunca termos vontade de sair destas aplicações.

Tristan Harris, ex-designer do Google, explica-nos que a situação actual é produto de um trabalho meticulosamente levado a cabo pelas empresa de tecnologia. De acordo com ele, este tipo de empresas utiliza várias ferramentas para seduzir de forma involuntária os utilizadores. Os sistemas de notificação, por exemplo, activam os neurotransmissores de dopamina, responsáveis por nos causar sensações de prazer, cores chamativas dos logos captam a nossa atenção quando expostas no ecrã do telemóvel e os feeds infinitos inesgotáveis e constantemente actualizados despertam em nós a curiosidade mórbida de querer ver sempre mais e mais.

«Quanto mais tempo passarmos nas redes sociais a fingir que não estamos sozinhos, melhores seremos a não reconhecer este facto e a ficar cada vez mais sozinhos, aéreos e também cansados...»

A motivação destas empresas para nos transformar em pessoas cada vez mais deprimidas e sozinhas é simples: o dinheiro. A indústria das aplicações mobile é, hoje em dia, bastante rentável e responsável por boa parte da facturação destas empresas.

Este ano um documentário sensacionalista e fatalista, ao bom estilo norte-americano, chamado The Social Dilemma, tratou de expor os malefícios desta tecnologia. Tristan Harris, por exemplo, defende a regulação da captação de dados por parte destas empresas para que não lhes seja possível reter toda a informação disponível sobre nós.

É certo que a perversão capitalista da maximização de lucro levou estas empresas a utilizar todas os mecanismos legalmente disponíveis para nos deixar cada vez mais viciados nos seus produtos, contudo pergunto, será que combater isto significa cortar radicalmente com as novas tecnologias?

O que muitos destes novos activistas parecem esquecer é que para além da justa denúncia pela regulação de dados existe uma outra vertente de combate que é também bastante eficaz, a consciencialização do indivíduo.
A capacidade de cada um de nós, de acordo com a nossa consciência e com a informação disponível, perceber (nesta e em todas as outras dimensões da vida) o que nos faz mal e como devemos fazer as nossas escolhas com base nisso mesmo.

O telemóvel, as aplicações e a internet são ferramentas, como um martelo ou uma serra, a sua utilização, trabalhar madeira ou auto-mutilação, é uma escolha que fazemos voluntariamente com toda a informação de que dispomos. 

A regulação do mercado da informação deve existir, mas não nos deixemos levar por teorias da conspiração ou fatalismos mediáticos, não há nada de errado em utilizar um martelo, desde que saibamos para que o queremos e o que estamos a fazer. 


António Ribeiro, gestor de logística

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