|Legislativas 2022

António Costa afinal quer uma convergência, seja com quem for

Foi um sonho lindo que acabou. Com o tema da maioria absoluta finalmente posto de lado, o PS prepara-se para «falar com todos», da esquerda à direita, no dia a seguir às eleições.

Rui Rio com António Costa na residência oficial de S. Bento. Lisboa, 20 de Fevereiro de 2018
Rui Rio com António Costa na residência oficial de S. Bento. Lisboa, 20 de Fevereiro de 2018 CréditosInácio Rosa / Agência Lusa

Cai por terra a base de sustentação de toda a campanha do Partido Socialista, nestas eleições legislativas e no período de discussão do Orçamento do Estado para 2022. Sem que nenhuma sondagem demonstre uma aproximação do PS aos 116 deputados necessários para este controlar o parlamento, António Costa viu-se forçado, na última semana da campanha, a alterarar definitivamente o discurso.

A estratégia da maioria absoluta, que traria, finalmente, alguma estabilidade política ao País (leia-se, a liberdade para o PS não ter de prestar contas a ninguém), esmoreceu ao longo do fim-de-semana, dando lugar a um novo discurso. Afinal é preciso «dar força a quem ao longo de toda a vida se dedicou a construir pontes, a unir, a encontrar maçanetas nas portas que estão fechadas, a encontrar soluções onde os outros só vêem impossíveis», afirmou Costa, no domingo, desdizendo o António Costa das semanas anteriores.

Esta nova encarnação do PS, disponível a chegar a acordo com praticamente todos, descobriu que, afinal, os portugueses «não têm grande amor pela ideia da maioria absoluta», revertendo para a sua posição de grande partido catch-all (apanha-todos) da política portuguesa, piscando um olho ao PSD da subsidio-dependência e à IL da das privatizações, e o outro à sua esquerda, que continua a exigir a reversão das medidas laborais impostas pela troika.

Resumindo: António Costa só saberá mesmo como vai governar nos próximos quatro anos na noite eleitoral de dia 30 de Janeiro, quando tiver de escolher o parceiro que lhe for mais conveniente à viabilização dos seus orçamentos. Até lá, é um partido sem linhas programáticas: tudo é discutível, o oposto ou o seu contrário.

De uma maioria absoluta, uma política orgulhosamente só, em que só o PS determinaria e influenciaria a governação, o PS parece agora estar disponível a discutir posições completamente antagónicas, à esquerda e à direita, sobre salários (com uma direita que chega a rejeitar a ideia de haver um salário mínimo) ou serviços púbicos (com uma direita que pondera rever a constituição).

Equívoco do PS determinou o chumbo do orçamento

O constraste com a postura assumida pelo Partido Socialista durante as negociações para o orçamento para 2022 é evidente: depois de se recusar a discutir o aumento do salário mínimo, depois de se recusar a acabar com a caducidade da contratação colectiva imposta pelo governo da Troika do PSD/CDS-PP, haveria alguma disponibilidade para prosseguir a negociação na especialidade? «Nestes temas, dificilmente haveria», afirmou Costa em entrevista à RTP, uma semana depois do chumbo.

João Ferreira, que está neste momento a substituir Jerónimo de Sousa na caravana da CDU, considera que esta alteração de discurso do PS se afigurava «inevitável», comprovando, no entender do dirigente comunista, que «a realidade veio dar razão às posições» que a CDU tem vindo a assumir ao longo da campanha, da necessidade de encontrar «convergências» para  resolução dos problemas do país.

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