|Revolução de Abril

25 de Abril: comemorações do povo voltam às ruas

Nos 45 anos da Constituição voltam à «barriga da mãe» os festejos que assinalam a Revolução dos cravos. Um pouco por todo o País estão em cena os preparativos para que tudo corra em «segurança sanitária».

CréditosMário Cruz / Agência Lusa

Depois de um ano em que, pela primeira vez na nossa história, as comemorações populares do 25 de Abril não estiveram nas ruas do País, por força da pandemia, 2021 é um ano de retoma dos festejos onde estes pertencem: as ruas do povo.

Por seu turno, a Assembleia da República volta a assinalar este ano a data com uma comemoração limitada nas presenças, por motivo das restrições associadas à pandemia.

Recorde-se que em 2020, como consequência da incerteza dominante em torno da pandemia, e enquanto se vivia o primeiro confinamento, se optou, a nível nacional, por dinamizar a iniciativa «Grândola à janela». A Associação 25 de Abril e várias outras organizações cívicas, sindicais e partidárias propuseram a todos os portugueses que cantassem a música de José Afonso, «Grândola, Vila Morena», uma das senhas do Movimento das Forças Armadas (MFA) na noite da Revolução.

Já este ano, na capital do País, a decisão de se realizar novamente o desfile foi tomada no seio da comissão promotora das comemorações populares, e a ideia, para já, é a de encurtar ligeiramente o trajecto, começando na rotunda do Marquês e terminando nos Restauradores, quando, em anos anteriores, terminava no Rossio.

Assim, a Avenida da Liberdade vai novamente comemorar Abril, mas a comissão promotora também propõe que quem não puder estar presente volte a cantar a «Grândola» à janela, pelas 18h.

«Vai ser um 25 de Abril seguro. O 1.º de Maio do ano passado foi fundamental para que isto acontecesse e muitas acções de luta que se seguiram foram perfeitamente seguras, sem registo de terem contribuído para quaisquer focos de infecção», explica AbrilAbril Rita Branco, dirigente da Interjovem/CGTP-IN, uma das organizações promotoras da iniciativa.

Para esta jovem enfermeira, é inaceitável que se utilize a «desculpa do vírus» para «confinar direitos». Por isso, entende que «é importante os jovens demonstrarem descontentamento» com a destruição de direitos conquistados por gerações anteriores.

«Não queremos outro caminho senão aquele que foi conquistado no 25 de Abril», reforça a sindicalista, que explica também que «os jovens não estão conformados», até porque se vive «um dia-a-dia em que é ter dificil ter um emprego e um trabalho com direitos». Critica ainda a imposição do teletrabalho como regra, ainda por cima «quando as despesas ficam do lado dos trabalhadores».

«Os jovens vão estar presentes [no desfile do 25 de Abril] e o 25 de Março foi um exemplo disso», avança Rita Branco, que entende que «estamos a lutar pelo que é essencial e básico. É impossível para um jovem viver com um salário de 600 euros e pagar rendas de casa de 400 euros ou mais. Há muita coisa por concretizar, como o direito à cultura, ao desporto, à parentalidade, entre outros, e lutamos para que os façam cumprir. Os direitos existem e têm de se cumprir».

Em todo o País, sair é rua em Abril é de «extrema importância»

No Porto, as comemorações já estão a ser desenhadas pela comissão promotora. O AbrilAbril falou com Tiago Oliveira, dirigente da União de Sindicatos do Porto, que lembrou a importância de «trazer o 25 de Abril novamente à rua, afirmando as principais reivindicações dos trabalhadores e do povo».

Para o sindicalista, «o sentimento geral é de que se deu um passo em frente quanto à consciência da importância de trazer para a rua os problemas vividos pelo povo nos dias de hoje», o que também se sente na preparação do 1.º de Maio.

Assim, o Porto vai ter o «Desfile da Liberdade», que sai pelas 14h30 das instalações antigas da PIDE e ruma até à Avenida dos Aliados. Está ainda a ser articulada com a Câmara Municipal do Porto a realização de um concerto no dia 24 de Abril, pelas 22 horas.

Já em Coimbra, João Pinto Ângelo, membro do Ateneu de Coimbra, colectividade que é tradicionalmente a principal dinamizadora e que participa na comissão promotora destes festejos em conjunto com mais de 50 organizações, explicou que se prevê a realização de uma concentração às 15h na Praça da Canção.

Para Pinto Ângelo, isto é de «importância extrema», uma vez que, se «o 25 de Abril e os direitos que dele resultaram foram conquistados na rua, a sua afirmação também tem de ser feita na rua». «A ideia de celebrar outra vez na rua surgiu quase no dia 26 de Abril do ano passado, sentiu-se uma ânsia colectiva», disse o dirigente associativo, acrescentando que se nota que «há muita gente que quer voltar a sair à rua neste dia para celebrar, lutar, protestar. São muitos os motivos». E o Ateneu, pelo hábito de participar na dinamização das comemorações, «tem responsabilidade de abrir este dia a todos os que querem exigir a resolução dos seus problemas nos dias de hoje».

Já António Goulart, da União dos Sindicatos do Algarve, explicou que a «plataforma que integra vários sindicatos e organizações da sociedade civil» está a organizar um acto público no dia 25 de Abril às 15h, no Largo de S. Pedro, em Faro, com intervenções das organizações e um momento cultural pelo Grupo de Jograis Acanto-TC.

Para o dirigente sindical «é tempo de regressar à rua», mesmo que ainda não seja possível retomar acções com dimensões de anos anteriores. Isto porque, no momento em que vivemos, «afirmar os valores da Revolução é também dar combate àquelas forças que lhe são contrárias». E reafirma que «a experiência que o movimento sindical ganhou ao longo deste tempo é fundamental para nos permitir organizar uma iniciativa com toda a segurança sanitária».

«Há muita coisa por concretizar, como o direito à cultura, ao desporto, à parentalidade, entre outros, e lutamos para que os façam cumprir. Os direitos existem e têm de se cumprir»

Rita BRanco, interjovem

José Russo, presidente da Junta de Freguesia da Malagueira e Horta das Figueiras, fez notar o regresso das «Vozes de Abril», que ocorre com a organização de todas as juntas de freguesia urbanas, com o apoio da Câmara Municipal de Évora. «É muito importante voltar às comemorações nas ruas, mesmo que os constrangimentos impliquem precaução», defende, ao mesmo tempo que explica que se trata de «uma iniciativa que sempre se fez com o movimento associativo, que envolve todos os grupos corais da cidade», e que envolve associações de bairro e de reformados.

A iniciativa desenvolve-se através de «mini-concertos que vão ao encontro das pessoas onde elas estão». Pese embora haver ainda grupos que tradicionalmente participavam na acção cultural e não retomaram a actividade, estão já confirmadas as participações das Vozes do Imaginário e da Eborae Musica. A par disso, José Russo explica que desafiaram «um conjunto de músicos da cidade, de bandas filarmónicas, estudantes». Assim, perto de 20 músicos vão preencher este espaço, em grupos ou a solo, para dar «70 mini-concertos em quatro dias nos mais diversos lugares da cidade». Passam pela Praça do Giraldo e outros locais icónicos da cidade, estarão à porta de escolas, fábricas, mercados, entre muitos outros lugares. «No dia 25 de Abril acontece o concerto em Nossa Senhora de Machede», disse.

Uma das características desta iniciativa é ter um «programa não anunciado, porque são concertos de dez minutos onde se toca a "Grândola" e mais dois temas escolhidos pelos grupos».

Já em Beja, Vítor Picado, vereador na Câmara Municipal de Beja, explicou ao AbrilAbril que se está a organizar uma marcha na cidade dinamizada pelas forças que compõem a CDU, juntamente com muitos democratas. «No âmbito do 47.º aniversário da Revolução Abril, a CDU decidiu trazer à rua a luta dos trabalhadores e de todos os que vêm os seus direitos atacados na pandemia». Assim, o autarca faz um «apelo ao trabalhadores em lay-off, no desemprego, de vários sectores, para que se juntem à construção de um futuro de esperança», participando no desfile, às 14h30, que parte do Cineteatro Pax Julia em direcção ao Jardim do Bacalhau.

Estão garantidas todas as regras sanitárias e o vereador confia num «comportamento cívico responsável», realidade que se estende também à construção do 1.º de Maio. Estes são momentos que, para Vítor Picado, traduzem «a defesa da democracia e do Estado de Direito, assim como a democraticidade e o reforço da cidadania».

Na mesma linha, para Adelino Nunes, dirigente da União dos Sindicatos de Aveiro, «é muito importante o regresso às ruas destas comemorações», que no distrito envolvem diversos sindicatos e outras organizações populares. Estão agendadas iniciativas em quatro concelhos – Aveiro, Ovar, Santa Maria da Feira e São João da Madeira –, com a realização de momentos culturais e intervenções de rua. Não serão acções «ao mesmo nível de há três ou quatro anos», porque o momento exige mais contenção, tendo em conta as regras de segurança articuladas com a DGS. Mas o sindicalista lembra que o «25 de Abril foi muito importante para o povo e os trabalhadores, e por isso é urgente que tenha expressão de rua» novamente.

Estão também desenhadas acções e comemorações em muitas outras cidades e concelhos do País, que dão corpo ao entusiasmo popular em ver Abril de novo nas ruas, sempre em cumprimento de todas as regras sanitárias adequadas ao momento.

Tópico