Numa semana marcada por dezenas de acções de protesto em escolas do Ensino Secundário, estudantes denunciaram ao AbrilAbril aquilo que classificam como «medidas restritivas e ameaças da direcção da escola» por parte da direcção. Em causa estão o direito de reunião com a realização de uma Reunião Geral de Alunos (RGA) e a afixação de faixas alusivas a uma concentração realizada esta quarta-feira.
A ordem de trabalhos da RGA previa três pontos: a discussão sobre os problemas da escola e do Ensino Básico e Secundário; a apresentação, discussão e aprovação de uma moção de luta em torno do Dia Nacional do Estudante; e outros assuntos.
O AbrilAbril procurou apurar toda a história e contactou a adjunta da direcção, Valéria Lopes, que confirmou que a RGA convocada pelos estudantes para o dia 18 de Março não foi autorizada no horário pretendido pelos estudantes, às 15h10, tendo a direcção exigido a sua realização às 12h40, depois do horário lectivo. Confirmou ainda que a PSP esteve no interior da escola por solicitação da direcção, mas negou que tenha havido impedimento à reunião ou intimidação aos alunos.
Os estudantes, por seu lado, mantêm a versão de que foram alvo de «pressões, chantagens e ameaças de processos disciplinares» e que a direcção terá afirmado que «a Constituição não se aplica na escola». Apesar dos relatos, cientes dos seus direitos, os estudantes mantiveram o protesto convocado para a manhã desta quarta-feira, 25 de Março, às 8h, no portão da escola.
«Foi autorizado, atenção»
No contacto telefónico, Valéria Lopes começou por corrigir a ideia de que a assembleia não teria sido autorizada: «Foi autorizado, atenção. A reunião foi autorizada, a única coisa que se pediu foi para alterar o horário», afastando desta forma qualquer ideia de condicionamento, apesar de os jovens terem sido impedidos de realizarem a RGA à hora pretendida, tendo do seu lado o Regime Jurídico do Associativismo Jovem.
Segundo a responsável, o director da Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro, no concelho de Sintra, deferiu o pedido de utilização do espaço, mas solicitou que a reunião passasse para as 12h40, «tendo em conta que há um período para reuniões», e esse era fora do horário lectivo. A intenção dos estudantes era realizar a reunião precisamente num momento em que os jovens se encontram na escola e a acção da direcção procurava, no seu entender, dificultar uma adesão massiva. Valéria Lopes afirmou, porém, que a direcção «não pôs em causa se deveriam ou não realizar a reunião» e que «até considerou que fazia todo o sentido».
Confrontada com a Lei n.º 57/2019, de 7 de Agosto, o Regime Jurídico do Associativismo Jovem, que no seu artigo 10.º prevê o direito a faltas justificadas para actividades associativas, incluindo reuniões gerais de alunos, a adjunta respondeu: «Caso coincidam com o período de aulas, certo? Eu também conheço a legislação».
Questionada sobre que diplomas impediriam a realização da assembleia no horário lectivo, a responsável referiu a «Lei n.º 51», o Estatuto do Aluno, afirmando que esta «está acima do Regime Jurídico do Associativismo Jovem».
Conflito de leis? Estatuto do Aluno vs. Lei do Associativismo
A interpretação da direcção contrasta com a leitura de especialistas em direito, ouvidos pelo AbrilAbril. O Estatuto do Aluno (Lei n.º 51/2012, alterada) não contém qualquer norma que proíba assembleias em horário lectivo. A Lei n.º 57/2019 é uma lei posterior que veio expressamente garantir direitos associativos aos jovens e, nessa matéria, prevalece sobre normas gerais ou regulamentos internos.
Aliás, o Estatuto do Aluno no seu artigo 16.º, relativo à justificação de faltas, no número 1 alínea i, estipula que são consideradas justificadas as faltas quando da «participação em actividades culturais, associativas e desportivas reconhecidas, nos termos da lei, como de interesse público ou consideradas relevantes pelas respetivas autoridades escolares».
Já o artigo 32.º da Lei n.º 57/2019 é claro: «Os estudantes têm direito à relevação de faltas às aulas motivadas pela comparência em reuniões da assembleia geral no caso de estas coincidirem com o horário lectivo» e que «caberá à mesa da assembleia geral a entrega da listagem dos estudantes presentes ao órgão de direcção do estabelecimento de ensino». Neste sentido, a direcção da escola deve justificar essas faltas, em vez de impedir ou condicionar a realização das reuniões gerais de alunos.
A adjunta da direcção defendeu, porém, que a alteração de horário foi um mero ajuste de gestão escolar, ao abrigo de um dever de assiduidade, numa leitura particular do Estatuto do Aluno. Sobre a alteração forçada, Valéria Lopes defendeu: «Não vejo qual é o problema, isto é uma questão de gestão de escola».

«A polícia vem aqui muitas vezes»
Sobre a presença da Polícia de Segurança Pública (PSP) no interior da escola no dia da assembleia, Valéria Lopes confirmou: «A PSP esteve no interior da escola. Confirmo. E depois? A PSP vem aqui muitas vezes». Questionada se a direcção solicitou essa presença, a adjunta da direcção respondeu: “Olhe, a PSP vem aqui muitas vezes sem ser solicitada».
A adjunta garantiu que a polícia «não foi interferir em nada com a Assembleia Geral de Alunos» e que «nem esteve no espaço enquanto esteve a decorrer a reunião». Os estudantes, no entanto, relataram que a PSP interpelou alunos que divulgavam a RGA com uma coluna e microfone, orientando-os para o portão da escola, um claro ataque à democracia que se quer exercida no seio escolar.
A direcção confirmou ainda que a PSP foi chamada para remover uma faixa afixada pelos estudantes. Num vídeo a que o AbrilAbril teve acesso vê-se a polícia a dirigir-se aos estudantes e a questionar de forma intimidatória uma estudante sobre quem é que representa o Movimento Voz aos Estudantes. Recorde-se que este movimento é uma mera estrutura informal que serve de ligação entre várias escolas onde os estudantes reivindicam a «Escola de Abril». No vídeo pode ouvir-se ainda um polícia a questionar se o movimento «tem NIF?», de forma a averiguar a formalidade do mesmo.
Na faixa em questão podia ler-se «Não nos calam! 25/3 8:00 Todos ao protesto». Sobre a necessidade de autorização prévia para afixação de faixas, a representante da direcção afirmou peremptoriamente: «Tem que haver autorização da direcção. Isso é em qualquer escola».
Escola não garantiu que não chamaria a polícia, estavam quatro carros à espera dos estudantes
Sobre a concentração estudantil convocada para esta manhã, às 8h, no portão da escola, a direcção foi questionada sobre se tenciona chamar novamente a PSP, ao que Valéria Lopes respondeu: «Dependendo se houver ou não distúrbios». Questionada sobre o que a escola considera ser um «distúrbio», a adjunta não especificou, afirmando apenas «não me agrada esta conversa».
Sobre a necessidade de os estudantes pedirem autorização para realizar uma manifestação fora do recinto escolar, a representante da direcção considerou que não seria necessária, uma vez que seria feita na rua. Porém, caso houvesse os tais distúrbios não definidos, «obviamente que a polícia tem que estar, não é? Isso em qualquer situação».
A adjunta garantiu que a polícia por vezes aparece «sem ser solicitada» e considerou «perfeitamente normal e aceitável a polícia andar no interior das instalações da escola». Neste sentido, apesar de não explicar em que momentos a presença policial na escola é normal, disse apenas «sempre que seja necessário».
«A Constituição não se aplica na escola»
Confrontados com o entendimento da direcção, os estudantes mantêm as acusações. Segundo relato enviado ao AbrilAbril, os alunos afirmam que a direcção «não permitiu discutir os problemas do ensino» nos 20 minutos finais do dia em que a assembleia acabou por se realizar, e que as tentativas de diálogo foram recebidas com frases como «lá vêm vocês com a lei», «o que importa é o regulamento da escola» e «a Constituição não interessa».
A Associação de Estudantes acusa a direcção de «atitude intimidatória» e de tentar «silenciar os estudantes». A verdade é que o protesto agendado para hoje foi realizado, demonstrando que a alegada pressão não surtiu efeito, com mais de uma centena de estudantes a dar a cara de forma corajosa.
«Obras sim, exames não», «Queremos democracia na escola», «Não te deixes ficar, luta» e «Voz aos estudantes» são algumas das frases que se liam nos cartazes.
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