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Venezuela vai a votos à espera do fim das sanções ocidentais

Desta vez, parte da oposição não boicota as eleições, e o processo conta com observadores internacionais. Resta saber se os EUA e UE aceitam os resultados.

Apoiantes do PSUV na campanha eleitoral. 
Apoiantes do PSUV na campanha eleitoral. Créditos / PSUV

Os venezuelanos vão mais uma vez às urnas este domingo. São eleições regionais, nas quais são eleitos 3082 autarcas, entre os quais, 23 governadores e 335 presidentes de câmara. A campanha terminou à meia-noite de quinta-feira.

A eleição tem lugar um ano após as eleições legislativas, um período em que ocorreram mudanças significativas no mapa político. Uma das principais alterações, a nível nacional, é que, ao contrário do que aconteceu em Dezembro de 2020, desta vez quase toda a oposição está a participar, particularmente aqueles que há quase quatro anos apelaram à abstenção.

Um total de 70 244 candidatos de 37 dos 42 partidos nacionais inscreveram-se para esta eleição. O número reflecte que 86% das organizações políticas formalizaram as candidaturas. Mais de 300 candidatos concorrerão ao cargo de governador, enquanto cerca de 4.000 pessoas concorrem para os 335 lugares de presidente de câmara, de acordo com a Conselho Nacional de Eleitoral venezuelano (CNE).

Além disso, mais de 100 observadores internacionais já se registaram, incluindo representantes da União Europeia, do Centro Carter e um grupo de peritos das Nações Unidas como parte das «garantias alargadas» para que o processo eleitoral tivesse a participação dos partidos venezuelanos.

Nesse quadro, a composição da CNE também foi alargada, incluíndo mais sectores da sociedade venezuelana.

Como escreveu no El País, o antigo vice-ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Temir Ponceléon, resta saber se os países ocidentais vão aceitar, desta vez, a vontade dos eleitores da Venezuela: «Durante anos, as potências ocidentais condicionaram a normalização das relações com o governo venezuelano à realização de eleições livres e justas. Agora que a UE e a ONU enviaram missões de observação eleitoral a Caracas, o que acontecerá se concluírem que o processo tem sido transparente? Os EUA e os seus aliados terão maturidade suficiente para respeitar e aceitar os resultados e as suas consequências, mesmo que sejam favoráveis ao Chavismo e ao Maduro?».

Como explicou o antigo membro do governo de Maduro, a guerra económica imposta pelos Estados Unidos da América e a União Europeia à Venezuela tem efeitos muito grandes na economia do país , afectando a vida de milhões de venezuelanos.

«As sanções unilaterais dos EUA proíbem o financiamento ou refinanciamento de qualquer entidade governamental venezuelana, bem como as exportações públicas de petróleo, um recurso que historicamente tem representado a grande maioria das receitas estatais. As sanções não só tiveram um efeito devastador na economia do país, como também tornaram impossível financiar sectores fundamentais para o bem-estar dos venezuelanos, tais como a saúde e a educação. Por seu lado, o cumprimento excessivo destas medidas pelas instituições europeias, em teoria não sujeitas à legislação dos EUA, agravou o isolamento do país do sistema financeiro global.

Por muito que se possa tentar justificá-las com outros argumentos, as sanções foram impostas com o objectivo de gerar um colapso económico no pressuposto de que isso provocaria uma mudança de regime. Uma política concebida por aprendizes de feiticeiros à custa do povo venezuelano, que tiveram de suportar as consequências da sua louca hipótese laboratorial.»

Resta saber se, caso os chavistas ganhem mais uma vez as eleições, esses países vão aceitar que os venezuelanos possam escolhar os seus próprios eleitos regionais e permitirem a este país da América Latina poder, entre outras coisas, comprar vacinas e remédios para o combate à pandemia.

Segundo o diário francês Le Monde, a coligação em que participa o Partido Socialista Unificado da Venezuela, que governa o país, deve ganhar a maioria dos cerca de 3000 eleitos regionais. «O PSUV tem 3000 candidatos. A oposição está a apresentar mais de 65 000. Isto diz tudo», suspira o sociólogo Ignacio Avalos, director do Observatório Eleitoral Venezuelano.

Mas o possível falhanço da oposição, não depende apenas da sua divisão, mas do descrédito de uma estratégia que apostava tudo numa intervenção estrangeira capitaneada pelos EUA.

«Ainda reconhecido na cena internacional por Washington, Paris, Bogotá e algumas outras capitais como o "legítimo presidente interino da Venezuela", Juan Guaidó – que em Janeiro de 2019 tentou destituir Nicolas Maduro – perdeu toda a credibilidade para federar a oposição na cena nacional. Os repetidos escândalos de corrupção que mancharam o seu séquito mancharam a sua imagem.», escreve o Le Monde.

Os venezuelanos de origem portuguesa também votam

«Eu já votei. Voto sempre cedo, desde há quase os 40 anos que estou neste país. É um compromisso ao que não posso faltar porque sou responsável também pelos resultados, porque não posso pôr as decisões nas mãos de outros», explicou uma portuguesa à agência Lusa.

Insistindo que «o voto é secreto», Ermelinda Freitas, doméstica, 68 anos, votou em Sabana Grande (centro-leste de Caracas) e insistiu que «quem não vota não pode depois reclamar pelos resultados».

Por outro lado, a também portuguesa Elizabeth Barreto, 60 anos, disse à Lusa, em Chacao, que aproveitaria a flexibilização da quarentena para ir à igreja e depois votar.

«Primeiro vou "encomendar-me" a Deus, reflectir e assistir à missa, se houver missa. Depois, vou então cumprir os meus deveres de cidadã», disse esta portuguesa.

Perto de algumas assembleias de votos, estavam a ser instalados «pontos de controlo» onde vários eleitores, depois de votarem, anotavam os seus nomes e números do cartão de identidade.

Vários comerciantes disseram à Lusa que permitiram que os empregados chegassem um pouco mais tarde, caso quisessem votar, e que eles próprios deixaram a ida às urnas para depois.

A abertura das 14 260 assembleias de voto começou pelas 6h locais (10h em Lisboa) e o encerramento está previsto para as 18h (22h), salvo se existirem eleitores em fila para votar.

Pelas 9h locais (13h em Lisboa), o reitor do Conselho Nacional Eleitoral, Pedro Calzadilla, confirmou à televisão estatal que 95% das mesas de voto estavam instaladas.

Dos 33 192 835 cidadãos da Venezuela, 21 159 846 estão registados como eleitores.

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