|Palestina

Tropas israelitas «atiraram a matar», diz colega de jornalista assassinada

Shatha Hanaysha estava com Shireen Abu Akleh quando esta foi atingida por fogo israelita, em Jenin, e referiu-se ao facto como uma «tentativa deliberada» de matar os jornalistas.

Um jornalista segura um cartaz com a imagem de Shireen Abu Akleh durante um protesto contra o seu assassinato, em Gaza, dia 11 de Maio 
Um jornalista segura um cartaz com a imagem de Shireen Abu Akleh durante um protesto contra o seu assassinato, em Gaza, dia 11 de Maio CréditosAshraf Amra / APA / Electronic Intifada

Em declarações ao portal Middle East Eye, a jornalista palestiniana relata os factos até ao assassinato a sangue-frio da sua colega Abu Akleh, de 51 anos, que trabalhava para a Al Jazeera. Afirma que foi um «franco-atirador israelita» que disparou contra elas.

Abu Akleh e Hanaysha – e as respectivas equipas de apoio – estavam a fazer a cobertura de uma operação israelita no campo de refugiados de Jenin. As forças israelitas tinham cercado a casa de Abdallah al-Hosari, morto no passado dia 1 de Março, com o objectivo de prender o seu irmão.

«Tornámo-nos visíveis aos soldados que estavam a centenas de metros de nós. Não nos movemos durante uns dez minutos, para garantir que eles sabiam que estávamos ali como jornalistas», disse.

Como não foram disparados tiros de aviso, o grupo, usando capacetes e coletes anti-balas com a indicação «imprensa», sentiu-se seguro para subir até ao campo, mas, «do nada, ouvimos o primeiro disparo», disse Shatha Hanaysha.

Seguiu-se o caos e os jornalistas – um dos quais, Ali Samoudi, tinha sido atingido nas costas – tentaram encontrar um local que os protegesse dos disparos.

Então, acrescentou Hanaysha, «uma outra bala atingiu Shireen no pescoço e ela caiu no chão mesmo ao meu lado».

«Chamei por ela mas não se mexeu. Quando tentei esticar o braço para chegar até ela, outra bala foi disparada e tive de ficar escondida atrás de uma árvore», disse.

«Não fomos apanhados num fogo cruzado com combatentes palestinianos, como o Exército israelita alegou. O local do incidente fica numa zona relativamente aberta, longe do campo onde os combatentes palestinianos podem operar, porque ali estariam em situação de grande desvantagem», acrescentou.

A cortina de fumo lançada por Israel

O primeiro-ministro israelita, Naftali Bennett, disse ser «provável» que a repórter da Al Jazeera tenha sido morta por tiros palestinianos e uma fonte do Exército israelita, que confirmou ter conduzido uma operação esta quarta-feira no campo de refugiados de Jenin, negou que as suas forças tenham visado jornalistas de forma deliberada: «O (Exército), claro, não visa os jornalistas.»

Israel publicou ainda imagens de vídeo para sustentar a tese de que havia fogo palestiniano na zona onde Abu Akleh foi morta, mas o B’Tselem, grupo israelita de defesa dos direitos humanos, foi rápido a desmontá-lo.

Esta versão foi também desmentida por Ali Samoudi, o produtor da Al Jazeera que acompanhava Shireen, que disse não haver presença de combatentes palestinianos armados no local.

Por seu lado, Hanaysha afirmou que os palestinianos usam habitualmente armas semi-automáticas, que disparam balas continuamente, enquanto as balas disparadas contra os jornalistas eram diferentes, «esporádicas» e «precisas», «uma de cada vez» e apenas quando se moviam.

«Aquilo que se passou foi uma tentativa deliberada de nos matar. Quem quer que tenha disparado contra nós atirou a matar», disse, frisando que «Israel não distingue entre velhos e novos, homens e mulheres, jornalistas civis e combatentes. Todos são alvos».

Tópico