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Soldados britânicos disparam contra retrato de Corbyn

Soldados britânicos fizeram-se filmar disparando contra uma foto do líder trabalhista. A deriva extremista e o discurso radical nas chefias militares britânicas e seus subordinados reflecte-se internamente.

Créditos / RT

Um videoclipe mostrando soldados britânicos numa carreira de tiro, disparando sobre um retrato do líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, foi posto a circular na rede. O Ministério da Defesa confirmou que o vídeo é verdadeiro e que a situação ocorreu no Afeganistão, onde soldados britânicos integram a força da NATO que mantém uma intervenção naquele país asiático.

A situação tornou-se embaraçosa para o governo de Londres e o seu ministro da Defesa, na semana em que a primeiro-ministro Theresa May é obrigada a recorrer ao líder da oposição para estabelecer um amplo acordo sobre as condições de saída da Grã-Bretanha do Reino Unido – o chamado Brexit.

Um porta-voz do exército britânico mostrou-se ciente do «inaceitável comportamento» dos soldados filmados, o qual estaria «muito abaixo dos elevados padrões que o exército espera» e prometeu «uma completa investigação» aos factos, reporta a RT News.

O caso, porém, está longe de ser incidental.

Os lobos entre os cordeiros

As reacções indignadas à publicação do vídeo não se fizeram esperar. Nas redes sociais lembrou-se a parlamentar britânica Jo Cox, assassinada por um militante da extrema-direita durante uma campanha eleitoral, há três anos. Também foi assinalado que esta publicação acontece quando vários parlamentares britânicos estão a receber ameaças de morte e um dia depois de um militante neo-nazi ter sido condenado por planear a morte da deputada trabalhista Rosie Cooper, aponta a RT News, citando o jornalista Owen Jones, do Guardian, que se manifestou horrorizado e considerou a situação uma «evidência da perigosa radicalização da direita» contra a esquerda em geral e, em particular, contra Corbyn.

Os comentários de militares ou ex-militares por quem o clipe de 26 segundos circulou são significativamente favoráveis aos envolvidos. Um exemplo é Trevor Coult, ex-sargento do Exército Britânico, que o postou no seu Twitter com o comentário «not looking good for a Labour leader», o que, em tradução livre, pode entender-se como «sem bom aspecto para um líder trabalhista», obviamente referindo-se ao facto de a figura de Corbyn ter ficado impactada pelas balas.

Se dúvidas houvesse quanto ao sentido da afirmação o ex-sargento, que parece bem informado sobre as circunstâncias da filmagem, escreveu, posteriormente, que o poster de Corbyn utilizado na carreira de tiro tinha sido impresso a partir de um ficheiro electrónico («photoshopped») e que era «uma pena que não fosse real!». Ambos os tweets foram apagados mais tarde, após o escândalo ter rebentado.

Estes comportamentos vêm consolidar as acusações contra os militares britânicos de cometerem crimes de guerra contra civis nas guerras de agressão em que têm participado, nomeadamente no Afeganistão e no Iraque. Recentemente foi conhecido que não se tratara de simples erros e que os soldados receberam autorização para disparar a partir das hierarquias de comando. «Em caso algum as regras de entrada em acção («Rules of Engagement») dizem que não se pode disparar sobre civis», terá afirmado um coronel britânico, segundo o Middle East Eye. A posição dominante da NATO a nível internacional impede que estes militares e as suas chefias acabem julgados por crimes de guerra, com os casos a serem investigados apenas a nível militar ou parlamentar, no seu país.

Terminada a carreira militar, estes soldados voltam a alistar-se de novo como mercenários em empresas de segurança e regressam frequentemente aos teatros de guerra que conheceram. Londres é a capital da contratação de mercenários, afirma a Open Democracy. Os ex-militares britânicos são frequentemente contratados como mercenários em guerras de agressão, como é o caso do Iémen, do Iraque, da Síria e do Afeganistão.

Jeremy Corbyn e o militarismo britânico

Jeremy Corbyn é um dos líderes trabalhistas que mais se tem oposto às aventuras militares britânicas e americanas e tem pronunciado diversas críticas à NATO, ao contrário de Tony Blair, Gordon Brown e outros dirigentes trabalhistas que alinham pela cartilha conservadora e militarista.

Sindicalista na sua juventude, participou em diversos movimentos antimilitaristas, como a Acção Antifascista (Anti-Fascist Action), o movimento contra o Apartheid (Anti-Apartheid Movement) e a Campanha pelo Desarmamento Nuclear (Campaign for Nuclear Disarmament). Entre 2011 e 2015 presidiu ao movimento (Stop the War Coalition).

Nos anos 80 e 90 Corbyn assumiu uma posição de esquerda consequente no que diz respeito ao conflito no Ulster, elogiando a luta dos patriotas irlandeses e defendendo a reunificação da Irlanda. Em 2017 soube-se que tal valeu-lhe, nos anos 90, ser espiado pelo MI5 como «subversivo» e sob a acusação de «minar o regime parlamentar».

Desde a sua eleição como líder trabalhista, em 2015, guinou o partido para a esquerda, propondo a renacionalização dos serviços públicos e dos caminhos-de-ferro privatizados por Margaret Tatcher e Tony Blair – algo que vinha defendendo há muitos anos.

Na política internacional mantém-se crítico do funcionamento da União Europeia e opôs-se aos tratados de Maastricht e de Lisboa. Defende a saída da Grã-Bretanha da NATO e pronunciou-se a favor da dissolução desta aliança militar, em virtude de a sua congénere a Leste, o Pacto de Varsóvia, ter deixado de existir.

Além de firme defensor do desarmamento nuclear, criticou a intervenção da NATO em diversas guerras travadas por esta coligação, como as na antiga Jugoslávia, na Líbia e no Iraque, bem como a postura da organização relativamente à Ucrânia e à Rússia. Defendeu a investigação de Tony Blair por ter desencadeado a guerra sobre o Iraque.

Relativamente a conflitos em «pontos quentes» do globo, Corbyn, entre outras posições consequentes, é contra o apartheid em Israel, defende a causa Palestina (é membro da Palestine Solidarity Campaign) e o levantamento do bloqueio e das sanções respectivamente a Cuba e à Venezuela (é membro de duas organizações solidárias, a Cuba Solidarity Campaign e Venezuela Solidarity Campaign).

Com 40% do eleitorado nas últimas eleições parlamentares no Reino Unido e a expectativa de vir a ser primeiro-ministro, Jeremy Corbyn é, decididamente, o alvo a abater pelo establishment político-militar britânico e da NATO.


 

 

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