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Senado da Nigéria rejeita intervenção militar no Níger

A posição tomada ontem por 90% do Senado da Nigéria, numa sessão à porta fechada, não deixa margem para dúvidas: as vias diplomáticas devem ser privilegiadas e o Governo não deve avançar com acção armada contra o Níger.

Milhares de nigerinos participaram em manifestações de apoio à junta que lidera o País desde o golpe militar de 26 de Julho. No cartaz lê-se: «Abaixo o Imperialismo». Uma das principais reivindicações destes protestos é a saída dos 1500 militares franceses estacionados no Níger. Niamey, 3 de Agosto de 2023. 
Milhares de nigerinos participaram em manifestações de apoio à junta que lidera o País desde o golpe militar de 26 de Julho. No cartaz lê-se: «Abaixo o Imperialismo». Uma das principais reivindicações destes protestos é a saída dos 1500 militares franceses estacionados no Níger. Niamey, 3 de Agosto de 2023. CréditosIssifou Djibo / EPA

A França «não vai tolerar qualquer ataque contra os seus interesses», garantiu Emmanuel Macron, presidente francês, poucos dias depois de um grupo de militares, a 26 de Julho de 2023, levar a cabo um golpe de estado que depôs o presidente do Níger Mohamed Bazoum, eleito em 2021. França planeava, com instituições públicas e privadas europeias e americanas, investir mais de 31 mil milhões de dólares no Níger até 2026.

A suspensão da transmissão de canais noticiosos internacionais do Estado francês (a France24 e a Radio France Internationale - RFI) no Níger também suscitou fortes condenações do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês: um exemplo da «repressão autoritária». Esta prática apenas parece ser aplicável a outros estados, já que França continua a considerar legítima a suspensão de canais russos no seu território.

O Níger, país da África Ocidental que se libertou do jugo colonial francês em 1960, continuou a manter fortes relações comerciais com França, sendo actualmente um das três maiores exportadores de urânio (20% do total dos últimos 10 anos) a abastecer as centrais nucleares do país europeu. As principais minas (apenas uma delas ainda está no activo) são, e foram, exploradas pela multinacional Orano, 90% da qual é detida pelo Estado francês.

Embora o Níger apenas produza 20 mil barris de petróleo por dia, a Organização Africana dos Produtores de Petróleo (APPO) estima que o país tenha uma reserva de mais de mil milhões de barris de crude: uma reserva bastante significativa que faria do Níger um dos maiores produtores da região. A finalização da construção de um oleoduto que atravessa o vizinho Benim (praticamente concluído), a cargo da Corporação Nacional de Petróleo da China, vai permitir a multiplicação da produção para uns estimados 110 mil barris por dia.

Uma fonte de recursos essencial a disputar pela França, sucessivos governos têm investido no fortalecimento das forças armadas do Níger, estando, à altura do golpe, mais de 1500 soldados franceses estacionados no país africano. Também os Estados Unidos da América mantém uma base militar em território nigerino, investindo, desde 2012, mais de 500 milhões de dólares em apoio militar.

Burkina Fasso e Mali entendem qualquer intervenção militar estrangeira no Níger como uma declaração de guerra. Nigéria e Senegal, à frente da CEDEAO, ameaçam com a guerra

O prazo de uma semana, definido pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), está a chegar ao fim sem que a junta militar que tomou o poder no Níger reinstitua o antigo presidente Bazoum. O não cumprimento deste ultimato, de acordo com estes países, traz consigo a ameaça de uma potencial intervenção armada.

Em resposta, o Burkina Fasso e o Mali, suspensos no CEDEAO, afirmaram publicamente que qualquer acção armada no território nigerino seria entendida como uma declaração de guerra contra os seus países.

A acção de países como a Nigéria e Senegal «traria consequências desastrosas» que «poderiam desestabilizar toda a região», alertaram os dois países, num comunicado conjunto em que reiteram a sua decisão de não aplicar «as sanções ilegais, ilegítimas e desumanas contra o povo e as autoridades do Níger» aplicadas pela CEDEAO.

Estrondosa maioria do senado nigeriano rejeita qualquer acção militar contra o país vizinho

Num sério revés para as aspirações belicistas, o Senado da Nigéria, numa reunião à porta fechada realizada ontem (6 de Agosto de 2023), rejeitou liminarmente a hipótese de uma invasão militar do Níger desencadeada pelo seu país: embora condene o golpe, vários senadores vieram a público defender que a «ênfase deve ser colocada nos meios políticos e diplomáticos para restaurar o governo democrático na República do Níger».

De acordo com o jornal Premium Times, da Nigéria (cuja participação, ao lado de jornalistas de vários jornalistas internacionais, na investigação dos Panama Papers foi distinguida com o prémio Pulitzer), mais de 90% dos senadores afirmaram estar contra o uso da força: o «Governo Federal deveria concentrar-se em resolver as ameaças do Boko Haram, do banditismo e do ESN/IPOB que assolam o país, em vez de ponderar partir para a guerra num país estrangeiro».

Embora a decisão do Senado não seja vinculativa, a forte oposição que o Governo enfrenta neste orgão nacional deixa a liderança do presidente Bola Tinubu (responsável, actualmente, pela CEDEAO) extremamente isolada internamente.

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