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Por que quer Elon Musk mandar no Twitter?

A compra da rede social pelo multimilionário dono da Tesla fez soar campainhas. Seja pelas mudanças que se avizinham, seja pelo facto de, aparentemente, este não ser um negócio lucrativo.

Elon Musk, que nas últimas semanas se tornou a pessoa mais rica de sempre, apresenta o foguetão Falcon 9, produzido pela sua empresa SpaceX, que vai levar passageiros ao espaço durante umas horas 
Créditos / Getty Images

Diz o povo, do alto da sua sabedoria, que quem quer ter dinheiro não o gasta. Ora, o homem mais rico do planeta propôs-se comprar a rede social sediada em São Francisco, na Califórnia, por 44 mil milhões de dólares, à volta de 41 mil milhões de euros (cerca de um quinto da riqueza produzida anualmente no nosso país), apenas para abrandar a moderação de conteúdo. 

O multimilionário já veio dizer que não quer ganhar dinheiro com o Twitter, mas antes torná-lo uma «plataforma genuína de liberdade de expressão», que, segundo o dono da Tesla e da Space X, só se consegue se a rede social for privada, reforçando suspeitas quanto às suas verdadeiras intenções. 

Segundo Musk, a rede social criada por Donald Trump (Truth Social) «só surgiu porque o Twitter censurou a liberdade de expressão», isto a propósito de, no rescaldo das eleições presidenciais norte-americanas e após invasão do Capitólio, o antigo presidente ter sido expulso da rede do passarinho. A afirmação não descansa, e basta ver o viveiro da extrema-direita em que o Telegram se tornou (e que efusivamente celebrou) para duvidar da neutralidade que o agora dono do Twitter defende.

Igualmente inquietante é o facto de aliados e simpatizantes do Presidente Jair Bolsonaro, investigado pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro por divulgar notícias falsas sobre a Covid-19 e o sistema eleitoral, terem festejado a compra da rede social pelo empresário. Tendo em conta o sucedido desde que Musk anunciou a compra da rede social, designadamente o brutal crescimento de perfis seguidores de Jair Bolsonaro (61 299) e de, nos EUA, os democratas terem registado uma diminuição significativa de seguidores, por oposição aos republicanos, que registaram um expressivo aumento, mais do que uma promessa quebrada (de acabar com contas falsas e bots), pode ser exemplo dos tempos que hão-de vir. 

Apesar disso, coloca-se a pergunta se as redes sociais devem ser reguladas e quem deve ter o poder de as regular, sendo certo, e a guerra na Ucrânia voltou a evidenciá-lo, que essa regulação já existe, não apenas nas redes, como também na comunicação social. Talvez por isso, Musk afirme ser «contra uma censura que vá muito além da lei».

Ter o multimilionário a comandar o algoritmo do Twitter, onde o próprio conta mais de 80 milhões de seguidores, nada mais é do que gerir a rede de acordo com a sua visão do mundo. Objectivo que se estende a todos os magnatas que entram no negócio da comunicação social, como é o caso de Jeff Bezos (Amazon), no New York Times.

Depois de definir modos de vida, necessidades, formas de consumo e produtos desejados, é mais um passo para a influência e formação do pensamento, e isso realmente não tem preço. 

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