A Novembro de 2025, a Casa Branca divulgou a sua Estratégia de Segurança Nacional, um breve documento que, como o nome indica, explica qual a sua estratégia no plano internacional e as suas linhas de acção. Nesse documento pode ler-se que uma das prioridades da Administração Trump é: «Restaurar o domínio energético americano (em petróleo, gás, carvão e energia nuclear) e repatriar os componentes energéticos essenciais necessários é uma prioridade estratégica máxima».
Como se esse excerto não fosse claro o suficiente, o documento em causa considera que: «Energia barata e abundante irá gerar empregos bem remunerados nos Estados Unidos, reduzir custos para os consumidores e empresas americanas, impulsionar a reindustrialização e ajudar a manter a nossa vantagem em tecnologias de ponta, como a IA. Expandir as nossas exportações líquidas de energia também aprofundará as relações com os aliados, ao mesmo tempo que reduzirá a influência dos adversários, protegerá a nossa capacidade de defender as nossas costas e, quando e onde necessário, nos permitirá projectar poder».
Actualmente, sabendo da grave acção levada a cabo pelos EUA na Venezuela, ficam claras as intenções da Administração Trump. No fundo, a Estratégia de Segurança Nacional não passa de uma declaração de intenções e ninguém pode acusar Trump de não dizer ao que vem. Há, no entanto, vários problemas no petróleo venezuelano. É sabido que a Venezuela detém 17,5% da reserva comprovada de petróleo do mundo, porém verifica-se um sector em deterioração, em parte pela infraestrutura, mas principalmente graças ao impacto das sanções impostas pelos EUA após a sua nacionalização.
Com este elemento em cima da mesa, a questão da «energia barata e abundante» para «reduzir custos aos consumidores» é algo que não tem adesão à realidade. Trump afirmou que as empresas americanas irão consertar a infraestrutura petrolífera «gravemente danificada» da Venezuela e «começar a gerar lucro para o país», porém, segundo o que alguma imprensa dá conta, empresas como a Chevron, a ExxonMobil, e a ConocoPhillips não estão dispostas a avançar com o dinheiro necessário para modernizar o sector petrolífero em causa. Como tal, assim como manda o velho mantra liberal, caberá ao Estado (neste caso o norte-americano) a criar as condições para que o privado venha a arrecadar mais-valias.
Segundo a Bloomberg, a concretização do plano do presidente Donald Trump para uma revitalização liderada pelos EUA da debilitada indústria petrolífera da Venezuela poderá ser um processo complexo e demorado, com um custo superior a 100 mil milhões de dólares.
Se do ponto vista técnico, logístico e financeiro, o saque do petróleo venezuelano parece uma tarefa hercúlea, a tentativa de golpe de Estado que, até ver, não se efectivou, tinha também como objectivo afastar a China da esfera de influência. Grande parte do petróleo exportado pela Venezuela é vendido para a China e, segundo uma estimativa do American Enterprise Institute, os investidores chineses injetaram 2,1 mil milhões de dólares no sector petrolífero do país após 2016, estando entre as poucas empresas estrangeiras que ainda operam em solo venezuelano. De acordo com a Reuters, a China Concord Resources Corp., empresa privada, planeou, no ano passado, investir mais de mil milhões de dólares em dois campos de petróleo para produzir 60 000 barris por dia até o final de 2026.
Ou seja, com o ataque ilegal e o rapto de Nicolás Maduro, os EUA procuraram destabilizar as ligações que estavam a ser criadas entre a China e Venezuela, uma parceria que beneficiaria ambos os países: no plano venezuelano, haveria as condições para a modernização do seu sector petrolífero e, desta forma, as sanções americanas eram contornadas; no plano chinês haveria uma fonte de energia estável que beneficiaria o seu sector productivo. Esta pareceria coloca graves entraves às pretensões imperialistas norte-americanas.
Ao contrário de outras movimentações norte-americanas, a China desta vez foi pronta a responder às ilegalidades praticadas pelos EUA. O porta-voz do ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, afirmou hoje, numa conferência de imprensa, que o seu país mantém «comunicação e cooperação positivas» com o governo venezuelano e reiterou disposição em aprofundar a essa mesma cooperação, inclusive em relação às exportações de petróleo, frisando que o seu país não mudará independentemente de como a situação evoluir.
Lin Jian, expressou ainda a «grave preocupação» de Pequim com o sequestro do presidente e da primeira-dama da Venezuela e exigiu a sua «libertação imediata». Lin afirmou que as ações de Washington «violam claramente o direito internacional e as normas básicas que regem as relações internacionais», além de contrariarem «os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas».
Analisando a actual situação, é prematuro fazer futurologia. O que se sabe é que a desestabilização da Venezuela está a ter mais entraves do que Trump faz parecer no alto da sua soberba. A população venezuelana parece não estar a acompanhar a intentona americana e isso dificultou a tentativa de derrube do Governo. Esta razão explica as reticências de Trump em conduzir Corina Machado ou Edmundo González ao poder, dizendo que a Nobel da Paz não reúne as condições necessárias para se tornar presidente.
Se numa primeira fase, os EUA tiveram ao seu dispor os lacaios europeus para timidamente apoiar a acção norte-americana, a verdade é que esta segunda-feira as declarações públicas dos principais líderes ocidentais são um elemento marcante. Veja-se o caso do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, que disse esta segunda-feira que cabe aos Estados Unidos justificar suas ações na Venezuela após terem capturado o presidente Nicolás Maduro, descrevendo a situação como «não simples».
Nesta difícil teia, os olhos estão sob Delcy Rodríguez, a presidente interina da Venezuela. Procurando não escalar o antagonismo, Delcy Rodríguez abriu espaço à negociação com uma apelo: «Presidente Donald Trump: os nossos povos e a nossa região merecem paz e diálogo, não guerra. Essa sempre foi a posição do presidente Nicolás Maduro e é a de toda a Venezuela neste momento», disse a presidente interina.
Com um tom conciliatório, Rodríguez considerou «prioritário avançar para uma relação internacional equilibrada e respeitosa entre os EUA e a Venezuela, e entre a Venezuela e os países da região, baseada na igualdade soberana e na não ingerência. Estes princípios orientam a nossa diplomacia com o resto dos países do mundo».
De acordo com a New Yorker, «a Sra. Rodríguez é vista como relativamente competente em termos de gestão económica, razão pela qual o governo Trump não se opôs à sua ascensão à presidência». É na mesma linha que o New York Times descreve o apreço da Administração Trump por Delcy Rodríguez: «A Sra. Rodríguez conseguiu estabilizar a economia venezuelana após anos de crise e aumentar, lenta mas firmemente, a produção de petróleo do país em meio ao endurecimento das sanções americanas, um feito que lhe rendeu até mesmo o respeito, ainda que relutante, de alguns funcionários americanos».
Não se sabendo o desfecho do que está a acontecer, sabemos já que: o Governo venezuelano não foi derrubado, apesar das proclamações de Trump; a democracia nunca foi uma preocupação americana; a China recusa perder a sua posição; o povo venezuelano resiste; e, apesar da sua atitude digna de gangster, a acção de Trump está longe de reunir a unanimidade que talvez acharia que teria.
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